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NOTA: 8 / Renato Furtado

Quando ouvi que Regina Casé tinha acabado de ganhar o troféu de melhor atriz no festival de Sundance (o mesmo que já foi concedido a atores e atrizes de prestígio como Miles Teller, Amy Adams e Mo’nique pelo seu celebrado papel em Preciosa), não acreditei. Busquei saber na internet para ver se não era uma pegadinha das redes sociais, hoje em dia nunca se sabe. Não era e durante meses simplesmente não consegui entender como ela foi ganhar esse prêmio de atuação. Até, finalmente, ver o filme e quebrar a minha cara de maneira grandiosa e inigualável.

Entendam, tenho minhas diferenças com Regina Casé por conta de seu programa, “Esquenta”, mas respeito, obviamente, seu trabalho e sua importância para a televisão brasileira – tenho fortes críticas ao formato, mas elas não cabem nesse momento. Ao ver “Que Horas Ela Volta?”, meu respeito cresceu e deixo aqui essa pequena retratação: sua atuação (sensível, competente, microscópica, macroscópica, poderosa) é, realmente, incrível e digna de todos os prêmios que recebeu, de todos que receberá e de todos que deveria receber.

No filme (dirigido com sensibilidade por Anna Muylaert), Casé interpreta Val, uma doméstica que trabalha há anos para a mesma família de patrões. Um dia, sua filha Jéssica (interpretada pela incrível Camila Márdila, que divide o prêmio de atuação de Sundance com Casé), com quem não se comunica faz tempo, pede sua ajuda e vai morar em São Paulo com a mãe, para estudar e prestar o vestibular de arquitetura para a FAU, unidade de Arquitetura e Urbanismo da USP e o filme vai partir justamente dessa relação quase estrangeira entre mãe e filha, a doméstica submissa às vontades dos patrões e a jovem rebelde que tem o mundo pela frente e em suas mãos.

Que Horas Ela Volta? é o tipo de filme que quanto mais se mostra, mais cativa. Comparado à sua (quase) contra-parte mais dramática, o também brilhante Casa Grande, não possui cenas de rigoroso primor técnico ou cenas e planos perfeitos e nem mesmo um roteiro de tirar o fôlego, mas nada disso importa; Que Horas tem o que todo bom e grande filme precisa ter: um coração. E abordar o tema que aborda, no calor do momento no país, em uma crise política e fundamentalmente social, com coração é o grande trunfo desse filme.

Construindo a narrativa com cenas político-sociais de luta de classes sem perder a leveza, de cenas muito divertidas (Val ajeitando o jogo de canecas e a cafeteira,  por exemplo prova que Que Horas é, definitivamente, uma comédia dramática), cenas belíssimas (a cena de Val na piscina é uma das melhores cenas do cinema brasileiro nos últimos anos e tenho dito, ponto final), contando com uma química inigualável entre os atores escolhidos para dar vida a esses personagens um tanto quanto confusos, personagens realistas e sabendo dosar com delicadeza os momentos de diálogo e, principalmente, os momentos de silêncio, Muylaert entrega um filme que tem boas chances para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (caso seja indicado pelo Ministério da Cultura e seria um pecado se não fosse) e é, sem sombra de dúvidas, o que o cinema brasileiro precisa nesse momento: uma história contada com amor, com coração, com firmeza e, definitivamente, para todos os públicos de cinéfilos.

Ainda, não é só uma conquista para nós, espectadores e amantes do cinema. Também é uma conquista, um triunfo para a diretora Anna Muylaert e para todas as mulheres – brasileiras ou não, que queiram fazer cinema ou não -, sem sombra de dúvidas. Que Horas recebeu comentários negativos e machistas (infelizmente também da parte de colegas de profissão como os cineastas Lírio Ferreira e Cláudio Assis) justamente por ter uma diretora, por ter duas protagonistas mulheres e nordestinas e, exatamente por ter todo esse elenco de mulheres fortes, ser um dos filmes nacionais de maior sucesso de público e crítica, tanto em casa quanto no exterior (foi muito bem recebido no Festival de Berlim e pela crítica de periódicos importantes como o The Guardian).

É lamentável, absurdo e ridículo que o filme de Muylaert seja criticado por causa do gênero de sua realizadora. É um filme com falhas? É. Mas são falhas cinematográficas, apenas. Como a própria Muylaert afirmou – ao incentivar e aconselhar mulheres, e também homens, a perseguirem seus sonhos e batalharem por seus filmes – em uma ótima entrevista para o Brasil Post: “No fim das contas, com machismo ou sem machismo, o que deita é o resultado”.

E que fique registrado e anotado: um dia, vão olhar para trás e perceber que com esse único filme, Anna Muylaert fez muito mais pelo cinema brasileiro do que Ferreira e Assis (bons e competentes diretores, diga-se de passagem, apesar dos pesares) já fizeram na carreira, juntos. Que Horas Ela Volta? deve ser visto como mais um divisor de águas e, se tudo correr bem, como mais um ponto de retomada para nós, que merecemos estar no topo do mundo do cinema.

Por mais mulheres no cinema, nos papéis principais, na cadeira de direção, nas equipes, nas salas, por mais mulheres em todos os lugares, sempre.

Obrigado Anna Muylaert, obrigado Camila Márdila e, acima de tudo, obrigado Regina Casé. Espero reencontrar vocês nas telonas o mais cedo possível.

Assista ao Trailer do filme no YouTube!

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