Esperanca3

NOTA: 4 / Renato Furtado

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Possivelmente é essa a ideia geral por trás das produções de certas comédias – tanto nacionais quanto internacionais. Costuma-se insistir em certas fórmulas e em certas piadas e motivos cômicos que já perderam a graça e a novidade há muito e é exatamente dessa maneira que a maioria das comédias tornam-se completamente esquecíveis. Infelizmente, esse é o caso de A Esperança é a Última que Morre, comédia nacional estrelada por Dani Calabresa e Danton Mello, contando com um elenco de apoio recheado de figuras saídas do elenco de comediantes do Zorra Total, como Katiuscia Canoro e Rodrigo Sant’Anna.

A narrativa gira em torno de uma repórter (interpretada por Calabresa) que, ávida por sucesso e por um lugar na bancada do telejornal local, forja a existência de um serial killer (com o auxílio dos personagens de Sant’Anna e Mello, funcionários do Instituto Médico Legal do município) na pacata cidade de Nova Brasília, que atua sob o pseudônimo de “Assassino dos Provérbios”. Utilizando cadáveres não identificados para gerar as supostas vítimas do assassino serial, logo as coisas começam a sair fora de controle.

Entrei no cinema cético; comecei a assistir ao filme esperançoso (no papel, A Esperança é uma comédia de humor negro de um potencial incrível); e saí da sala, no mínimo, decepcionado com o que vi nos – nem sempre ligeiros – setenta e poucos minutos de duração da película. O roteiro do filme – que apresenta diálogos que simplesmente não funcionam, uma história de amor que não cola e cenas que parecem copiadas e coladas de outras tramas que também não deram muito certo – parece ter sido feito da noite para o dia, os planos parecem ter sido gravados apenas uma vez, estando errados ou não, e a montagem parece sofrer de ansiedade, parece ter pressa em encerrar a narrativa o mais rápido possível.

Ainda, as habilidades cômicas do elenco (em decorrência da enorme falta de desenvolvimento dos personagens) são totalmente desperdiçadas: Dani Calabresa, uma das mais divertidas atrizes nacionais do momento, tem poucas cenas para demonstrar seus talentos; Danton Mello interpreta um personagem que parece possuir alguma dificuldade de socialização com outros seres humanos; Rodrigo Sant’Anna e Katiuscia Canoro, dois humoristas mais do que competentes, são completamente inutilizados; e isso sem levar em conta os outros atores do filme, velhos conhecidos de séries de comédia, que acabam presos em estereótipos.

Muitos acreditam que o cinema nacional encontra-se em apuros por “apenas” produzir comédias. Discordo dessa visão. Acredito que o cinema nacional (o cinema nacional de massa, comandado pelas grandes empresas) encontra-se em apuros porque produz filmes com uma mentalidade de produção de televisão barata. Surgem comédias atrás de comédias (ocasionalmente, dramas) que são como itens de uso instantâneo, itens descartáveis, itens chineses de lojas de 1,99.

Não me entendam mal, os filmes não precisam ser, necessariamente, todos obras-primas, pois o cinema comercial, o cinema de massa é de extrema importância para o desenvolvimento de uma linguagem cinematográfica própria e para a cultura de qualquer país (tão valioso quanto os filmes cults, por exemplo). Contudo, entretanto, porém, todavia, a partir do momento em que filmes são realizados no terrível ritmo de produção que encontramos no Brasil, é claro e evidente que estaremos em apuros, esperando e torcendo para que mais filmes como Que Horas Ela Volta? (leia a nossa resenha aqui) ou o sensacional Lobo Atrás da Porta (Fernando Coimbra, 2013) sejam realizados e nos salvem de um destino que parece inevitável.

Já diria a boca do povo: a pressa é inimiga da perfeição. Um provérbio que explica não só um filme confuso e mal desenvolvido que adora provérbios, mas todo um modelo de fazer cinema. Mas, afinal de contas, a esperança é a última que morre, não é mesmo?

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