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NOTA: 9 / Renato Furtado

Antes de mais nada, duas coisas. 1) é com muita alegria que descobri que Os Bons Companheiros, um dos melhores filmes de todos os tempos, faz aniversário de vinte e cinco anos (!!!) nesse dia 19 de setembro e que eu poderia escrever sobre ele! 2) se você ainda não viu Os Bons Companheiros, pode ler aqui primeiro a resenha, eu agradeço, mas não faz muita diferença: vá ver o filme lendo a resenha ou não porque é surrealmente bom. Martin Scorsese + Robert DeNiro + Joe Pesci + Ray Liotta + armas + gangsters + crime + sangue + narração + travelling + câmera lenta + músicas dos Rolling Stones. O que mais você poderia pedir ou esperar ou querer ou sonhar de um filme? Nada, parabéns, a resposta é essa mesmo e, olha que maravilha, esse filme existe!

Desde o início, você sabe, você simplesmente sabe que não vai ser um filme como outro qualquer e logo você vê – em uma das sequências iniciais mais famosas da história – o começo da história de Henry Hill, personagem de Ray Liotta, enquanto ele narra, logo após Robert DeNiro e Joe Pesci terem acabado de matar um quase morto dentro de um porta-malas, como ele sempre quis ser um gângster e a narrativa (brilhantemente escrita pelo próprio Scorsese e por Nicholas Pileggi) traça a ascensão e o declínio desse trio de mafiosos.

De guardador de carros, a garçom, a mafioso respeitado e temido, acompanhamos a trajetória violenta de Hill e seus companheiros, Jimmy Conway e Tommy DeVito tudo isso com a incomparável assinatura visual de Scorsese e eu posso dizer, que maravilha é ver um filme do gênio em seu potencial máximo nos levando para flutuar e imergir no sangue correndo solto no submundo ítalo-americano do Brooklyn, construindo um filme onde quase todas as cenas tem a chance e a capacidade de viver para sempre na história do cinema, onde você sabe que esses personagens que você vê são os mais cruéis possíveis e, ainda assim, sua única vontade é sair com eles para dar uma boa risada ou quebrar alguma coisa ou matar alguém no porta-malas.

É fácil ver que tudo deu certo nesse filme. Se DeNiro e Pesci (que rouba as atenções todas as vezes em que aparece com sua interpretação psicótica e hilária de DeVito, que acabou lhe rendendo seu Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) são reconhecidamente geniais em praticamente tudo o que fazem, aqui é Liotta quem brilha, sem dúvidas. Apesar de ter se especializado em fazer um gângster do mal e inescrupuloso esse papel em sua carreira, em nenhum outro momento o ator está tão bem quanto aqui e a câmera, sempre a se movimentar, curiosa e tão viva que quase torna-se um personagem da trama, encontra um bom motivo e um bom alvo para seguir em Henry Hill enquanto ele descortina seu mundo para nós, espectadores privilegiados da ação.

O filme chegou em um bom momento na carreira do diretor. Após realizar Touro Indomável, em 1980, o mestre teve uma década complicada – injustamente, uma vez que O Rei da Comédia, Depois de Horas, A Cor do Dinheiro e A Última Tentação de Cristo, seus filmes dos anos 80, são incríveis e, alguns deles, mais do que geniais – e conseguiu dar a volta por cima. Os Bons Companheiros foi indicado para seis Oscars (incluindo o de Joe Pesci) e estourou em todo o mundo, tornando-se sucesso de público, crítica e prova do talento e das habilidades de Martin Scorsese em toda a beleza que demonstra ao arquitetar os estudados e brilhantes planos que constrói durante essa narrativa.

Mais cedo nesse ano, em abril, DeNiro resolveu encerrar as atividades dessa edição do seu famoso Festival de Tribeca com uma exibição especial de GoodFellas para comemorar o aniversário de 25 anos do filme, com direito a presença do elenco inteiro – e uma mensagem gravada do diretor, que estava filmando em Taiwan, à época – e se alguém me perguntar o motivo de toda essa comemoração e de toda as homenagens que esse filme recebeu, recebe e ainda receberá, a única coisa que posso dizer é: veja o filme e entenda como tudo que acontece parece natural, orgânico, vivo, pulsante, violento, especial, nos prendendo e nos encantando cada vez mais, como todo filme imortal faz.

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