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NOTA: 8 / Renato Furtado

Ainda que um tanto quanto atrasado, chega ao Brasil o mais recente filme realizado pelo polêmico e lendário diretor franco-polonês, Roman Polanski, A Pele de Vênus, baseado na peça homônima e obra maior do autor David Ives. O filme (que concorreu à Palma de Ouro de Cannes em 2013 e rendeu a Polanski o prêmio de Melhor Direção no César, o Oscar francês) conta a história de um dramaturgo que tenta adaptar a novela de Sacher-Masoch (também chamado A Pele de Vênus, livro do qual vem o termo masoquismo) e quando o personagem principal, interpretado pelo ótimo Mathieu Almaric, encontra sua atriz principal, papel da igualmente competente Emannuelle Seigner, peça e realidade (e também o filme) começam a se misturar. É basicamente isso, contudo, entretanto, porém, todavia, esse básico é realmente muito bom.

O filme passa-se inteiramente dentro do teatro onde Thomas realiza as audições para a peça, que ele adaptou e dirigirá e a narrativa desenvolve-se tendo como fundamento, essência e objetivo a interação (e a evolução e mutação da mesma) entre o diretor e a atriz – que a princípio não o agrada e aparenta ser incompetente, mas logo o conquista, demonstrando ter completa noção de sua personagem e também seus talentos – enquanto ambos vão se ajustando aos papeis que desempenham, tanto como si próprios como os personagens da peça que interpretam como parte da audição.

Como na novela e na peça, o tema central da película é a questão da dominação, no caso, do poder e influência que um diretor (tanto de teatro quanto de cinema) exerce e possui sobre seus atores e sobre a equipe e o grande trunfo do filme é a inversão das duas pontas desse elo. Utilizando recursos metalinguísticos, Polanski preenche a tela e o cenário – que em mãos menos competentes, tornaria-se apenas uma tela, apenas um cenário – de maneira tão grandiosa que consegue transformar um simples palco em variadas locações, sempre com significados únicos e distintos e que, a todo momento, estimula nossos sentidos: há sempre algo para ver e ouvir, mesmo que essas coisas não estejam lá fisicamente.

Sons preenchem lacunas visuais, estímulos visuais preenchem lacunas sonoras, intenções se modificam repentinamente e criadores e criaturas tornam-se uma coisa só, borrando a linha tênue entre ficção e realidade e o resultado de todos esses elementos combinados coloca nas mãos de Polanski o seu melhor filme desde O Pianista e, também, um filme que desafia, diverte, engana, brinca e instiga seu espectador com extrema inteligência e humor, levantando a questão: no fim das contas, quem está realmente no comando? Taí uma pergunta que vale a pena receber de Roman Polanski e de sua grande dupla de atores.

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