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NOTA: 7 / Renato Furtado

Tirando sua atuação em O Lado Bom da Vida e a pequena aparição em Trapaça, já faz alguns anos que o genial Robert DeNiro se encontrava em uma espécie de piloto automático (assim como estava Al Pacino até esse ano, Dustin Hoffman, entre outros). Acho que é natural, depois de muito tempo de trabalho, que os atores acabem caindo nesse tipo de acomodação criativa e, em muitos casos, por receberem os mesmos papeis que receberam durante a vida inteira. No entanto, algumas vezes, atores e atrizes saem de suas zonas de conforto e é isso o que acontece com Robert DeNiro no sensível, fofo, divertido, real, humano e emocionante Um Senhor Estagiário, onde contracena com a sempre magnífica Anne Hathaway e é dirigido pela ótima Nancy Meyers (realizadora e roteirista deste filme e de outros títulos como Alguém Tem Que Ceder e Simplesmente Complicado).

A história não é complexa: Robert DeNiro interpreta Ben, um viúvo aposentado que viveu no Brooklyn sua vida inteira e que agora vê o bairro ganhar novos ares com a chegada de novos moradores (hipsters) através do processo de revitalização e modernização – leia-se encarecimento projetado ou gentrificação – do bairro. Em meio a esse ambiente, surge uma empresa de vendas na internet comandada pela descolada e moderna Jules Ostin (personagem de Anne Hathaway), que se movimenta de bicicleta dentro do escritório da empresa, tem mil celulares e muito pouco tempo para conciliar tudo – o seu trabalho e a sua família. Certo dia, Ben encontra um anúncio de uma vaga para estagiário na empresa, feita especialmente para ele: a companhia busca pessoas da terceira idade. Aí, começa a relação, nem sempre fácil, dos dois.

Um Senhor Estagiário é um filme simples, porém inteligente. É divertido ao mesmo tempo que tem muito a dizer sobre o mundo, sobre as pessoas e as relações que essas tem entre si e com os ambientes à sua volta. Em suas duas horas de trama aborda, sempre com sensibilidade e com um olhar divertido, temas como tempo, solidão, luto, amizade, amor e feminismo, este último tema mais especificamente através da forte personagem de Hathaway, que precisa vencer em um mundo de negócios dominado pelos homens e em um mundo pessoal dominado pelo preconceito (na visão absurda e ridícula das outras mães da escola de sua filha, Hathaway é a mãe que abandona a família por causa do emprego).

A direção de Meyers é competente e sua escrita é saborosa, mais dois elementos que candidatam ainda mais Um Senhor Estagiário a ser aquele tipo de filme que ainda vai viver por muitos anos com as pessoas, passando de geração a geração não como um “filmaço” ou como um grandioso clássico, mas justamente por ser um filme leve, despretensioso, sério e objetivo quando precisa ser, trazer deliciosas e simpáticas atuações de DeNiro (espero que ele continue assim) e Hathaway – além de uma boa participação de Rene Russo – e, acima de tudo, por ter um grande coração e amar seus personagens sinceramente.

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