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NOTA: 8 / Renato Furtado

Imaginem essa situação: um grupo de seis irmãos aprendem sobre a vida assistindo e recriando por si próprios as cenas de seus filmes favoritos. Bacana, certo? Porém, agora vem o plot twist: eles não tinham outra escolha a não ser fazer isso porque não podiam sair do apartamento onde moravam – com a irmã mais nova, a mãe e o pai – em plena Manhattan. E agora, como essa história parece para vocês? Bom, eu não sei, mas para isso vocês podem ir conferir o documentário The Wolfpack, da estreante Crystal Moselle que narra justamente essa estranha, delicada e peculiar história.

Através da estética do cinema direto (aquele onde é a presença da equipe de filmagem parece ser nula dentro do filme) e utilizando vídeos caseiros antigos, Moselle cria uma ótica intimista por meio de uma edição competente e nos coloca dentro do mundo particular dos seis irmãos Angulo (todos com nomes relacionados ao Hare Krishna), que não tinham permissão para sair de seu apartamento porque os pais acreditavam que o mundo lá fora fosse perigoso e estupidificante demais para suas crias. Com um olho na pequena janela do quarto que dá para onde hoje se situa o prédio Freedom Tower – substituto das torres gêmeas do World Trade Center – e outro olho pregado na televisão ligada vinte e quatro horas, os irmãos Angulo aprenderam tudo que sabem da vida por causa do cinema e passamos a acompanhar, como espectadores privilegiados à rotina de recriar as cenas favoritas dos seis (o filme começa com uma divertida re-encenação de Cães de Aluguel, onde os seis irmãos realmente parecem ser os seis criminosos do filme de Tarantino), o que torna quase impossível de não gostar desses seis rapazes e de suas histórias.

Entrevistando-os membros da família um a um e respeitando a estrutura de um mundo tão diferente do nosso (ou será que só parece tão diferente assim já que nos identificamos e torcemos com os personagens do filme, apesar da situação incomum?), a diretora consegue fazer o que muitos cineastas demoram para fazer em longas carreiras: nos dar um pedaço mágico, ainda que real, de uma realidade diferente. E, de fato, sensibilidade é a palavra-chave para Moselle atingir esse objetivo, principalmente em relação à matriarca Angulo que é, definitivamente, a melhor personagem do filme, filmada com carinho pela diretora – que passou cinco anos filmando a família em Nova Iorque.

The Wolfpack é um estudo etnográfico, é um estudo do ser humano, é uma narrativa de medo, solidão, cinema, superação, estranheza, tristeza, sutileza e felicidade, um documentário misterioso, inquietante, peculiar para uma trama peculiar que merece ser vista por todos nós. Por mais filmes de Crystal Moselle!

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