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NOTA: 6 / Renato Furtado

Vindo diretamente do prestigiado Festival de Veneza e tendo sido o filme responsável por abrir a importante mostra Horizontes lá nas terras italianas dos canais e das gôndolas e das venezianas, a co-produção uruguaia e mexicana, Sociedade Indiferente (no original, “Un Monstruo de Mil Cabezas). O filme de Rodrigo Plá traz uma questão um tanto quanto antiga à essa altura do campeonato (o que você faria e até onde iria para salvar alguém que você ama?), mas com uma visão bastante interessante e renovada.

Após piorar de sua grave doença e ter o tratamento negado pelo plano de saúde, a mulher de Guillermo Castrejón decide ir atrás do médico responsável pelo caso de seu marido. Sonia Bonet (interpretada Jana Raluy e, teoricamente, personagem principal do filme) começa a bater nas portas da companhia de seguros para descobrir o motivo de seu pedido ter sido negado. Quando a indiferença e a apatia das atendentes do plano de saúde e do médico começam a vir à tona, Sonia decide tomar medidas drásticas. Ir além disso é estragar a trama do filme, mas vocês podem imaginar o que acontece, mesmo que só um pouco.

Sociedade é um filme interessante, mas que tem seus problemas. A história de Sonia (acompanhada por seu filho Dario, em sua jornada alucinada) nos é apresentada quase sempre através da perspectiva de terceiros, pequenos personagens que surgem e saem de tela repentinamente, fazendo a narrativa avançar de uma maneira interessante, mas nem sempre benéfica. Quanto mais a boa, distanciada e imparcial fotografia nos apresenta as ações de Sonia através de vidros e refletidas em espelhos espalhados pelos sóbrios e bons cenários desenhados pela equipe de produção, mais queremos saber dessa personagem e de seu passado, de sua vida e cada vez menos sabemos. Essa é uma escolha acertada do diretor: ele escolhe tratar o tema com distanciamento suficiente para que o filme seja mais um comentário social do que um filme sobre um personagem específico, elevando a tensão de forma inteligente e nos momentos certos.

Contudo, porém, entretanto, todavia, a falta de proximidade me parece ter ido além da conta em certas situações, acabando por minar a boa arquitetura da trama. O entra e sai de personagens é maior que o necessário e uma boa parte desses papeis é completamente inútil e não acrescenta nada ao filme e nem à sua estrutura que mescla as ações de Sonia com suas repercussões – estas conhecemos apenas por narrações que tomam conta da trama em alguns momentos e acabam por revelar mais do que o necessário, acabando com certos instantes de tensão à toa. Alguns casos pediam por uma maior aproximação com a personagem principal (ainda que a verdadeira personagem principal seja a sociedade, em si); não precisamos, necessariamente, conhecer suas motivações a fundo ou entender sua relação com o marido (quase inexistente no filme, o que também me parece ter sido acertado) para compreender suas ações: de fato, talvez só precisássemos ver mais suas ações.

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