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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Quando Rainha do Mundo alcança a metade de sua duração, Catherine (interpretada por Elisabeth Moss, de Mad Men) sai para um passeio matinal na floresta que há perto da casa onde está hospedada, convidada de sua amiga Virginia (personagem de Katherine Waterston por quem sou apaixonado perdidamente desde Vício Inerente) e acaba encontrando um homem que está cuidando da grama que cresce à beira do lago. O homem lhe diz “cuidado, você não sabe o que pode acontecer” e quando Catherine pergunta de volta “o que pode acontecer”, o homem apenas responde “exatamente” e se afasta. Essa é a sensação que Rainha do Mundo nos traz: não saber o que vai acontecer.

Após a morte do pai e um término traumático com o namorado, Catherine aceita o convite de Virginia para passar uma semana na casa de veraneio da amiga, como uma forma de se recuperar dos traumas e do desespero. Se, à primeira vista, o filme parece um típico drama, conforme vemos os dias passando pelos títulos surgindo na tela, percebemos que Rainha do Mundo é muito mais do que parece. Através de suas reviravoltas e da crescente tensão estruturada na narrativa, entendemos que esse é também um thriller, quase um filme de terror, inteligente, bem construído e instigante.

Grande parte desse mérito, indiscutivelmente, vem do diretor e roteirista Alex Ross Perry. O americano atingiu o reconhecimento do circuito dos festivais no ano passado com seu terceiro filme, Cala a Boca Phillip, cuja qualidade (ou a falta dela, no caso) me fez ter grandes dúvidas sobre Rainha do Mundo. Contudo, a diferença entre esses dois filmes é enorme: se o primeiro é pretensioso e arrogante (exatamente como seu personagem principal, interpretado da mesma maneira por Jason Schwartzman), o segundo prende a atenção do início ao fim de uma maneira tão desconfortável e inquietante que a única coisa que podemos esperar é que tudo acabe bem, mesmo sabendo que muito provavelmente não acabará.

Utilizando enquadramentos fechados e primeiros planos que parecem aprisionar os rostos de Moss e Waterston em cena, Perry cria uma atmosfera de suspense tão palpável que é como se um verdadeiro monstro dos melhores filmes de terror estivesse espreitando nas esquinas da casa, nos confins da floresta, no fundo do lago e nos olhares e sorrisos ambíguos dos personagens, adormecido, escondido (o que dizer da ossada animal encontrada em meio ao mato já no fim do filme?) pronto para atacar a qualquer momento. Passeando entre o presente e o passado (mesclando e alternando as cenas do encontro atual das duas amigas e do encontro do ano anterior entre as duas), o diretor – com a ajuda de seu bom editor, Robert Greene e de seu fotógrafo, Sean Price Williams, que confere um tom setentista ao filme por meio de sua inspirada fotografia – traz ecos de outras narrativas psicologicamente perturbadas do passado (como Persona de Bergman e os filmes de Roman Polanski, como O Inquilino) e nos entrega esse filme extremamente bem arquitetado até o osso.

Contudo, porém, entretanto, todavia, Perry não atingiria esse nível de cinema sem as suas duas atrizes principais. E que atrizes. Elisabeth Moss e Katherine Waterston são surrealmente incríveis, brilhantes e surpreendentes em cada quadro, em cada close, em cada frase proferida, em cada discussão, em cada lágrima, em cada rancor escondido, em cada olhar desesperado, em cada sentimento ferido, em cada mágoa, duas performances com tantas nuances que escrever sobre seria quase injusto por correr o risco de deixar alguma tonalidade microscópica de fora, portanto, vou parar por aqui e deixar com vocês o deleite de saborear essas duas grandes atrizes no topo de suas capacidades cênicas, torcendo para que vocês gostem tanto desse filme quanto eu.

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