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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Queria dizer uma coisa para vocês: CARA É MUITO ALTO, MUITO ALTO MESMO, QUE VERTIGEM QUE DÁ ESSE FILME CARA. Ok, esse foi o desabafo inicial para falar do mais novo filme do lendário Robert Zemeckis – o cara responsável por filmes como Forrest Gump, Contato e O Náufrago e um diretor que eu acho um tanto quanto injustiçado e subestimado, muito melhor que muitos outros diretores considerados como grandes mestres do cinema. Estou falando, é claro, de A Travessia e, meus amigos, que filme é esse.

Vamos lá: logo no início, somos avisados que A Travessia é uma história real, a história de Philippe Petit, um equilibrista francês que, no ano de 1974, atravessou as Torres Gêmeas em Nova Iorque sob uma corda bamba contando apenas com sua habilidade e a boa vontade dos deuses. Essa mesma história já foi contada no ótimo documentário ganhador do Oscar, O Equilibrista. Então, vocês podem me perguntar: é Renato, já contaram essa história trocentas vezes e já sabemos que no fim dá tudo certo, pra que vamos ver esse filme? A resposta é simples: porque Zemeckis nos faz acreditar que TUDO dará errado e essa é uma das grandes belezas de A Travessia.

Cada passo na corda bamba, cada momento de tensão e suspense acima do abismo, cada instante em que tudo parece próximo a ir pro espaço é de tirar o fôlego de uma maneira tão incrível cinematograficamente falando que me fez lembrar das proezas espaciais 3D de Gravidade. No cinema, vocês ouvirão o barulho do silêncio que o filme produz na gente: é o barulho das respirações presas, do suor frio escorrendo, da falta de fôlego e, claro, de várias e várias unhas sendo ruídas por causa um medo danado de que Petit (Joseph Gordon-Levitt funcionando ora como Petit personagem, ora como Petit narrador, falando um bom francês e nos conquistando com uma grande atuação que o coloca, definitivamente, no ranking dos grandes atores de sua geração) não conseguir realizar o sonho de sua vida, uma verdadeira loucura para uns, inspiração divina para outros.

Além de contar com um ótimo elenco composto por Charlotte Le Bon outra linda roubando meu coração, Ben Kinglsey, James Badge Dale, entre outros, Robert Zemeckis tem ao seu lado – além de toda a equipe de efeitos visuais, sonoros, trilha sonora, direção de arte e design de produção, todos os setores incrivelmente bem desenvolvidos por profissionais incríveis – duas pessoas cruciais, dois fieis escudeiros: o editor Jeremiah O’Driscoll e o fotógrafo polonês Dariusz Wolski.

O primeiro, colaborador de longa data do diretor desde O Expresso Polar, é o responsável por ditar o incrível, divertido e dinâmico ritmo de tirar o fôlego de A Travessia, unindo cada cena de uma maneira tão brilhante que toda sequência passa diante de nossos olhos tão rápido que nem vemos a hora passar (o que é incrível e nos deixa querendo mais desse filme no final das contas). Já Wolski, responsável pela bela fotografia de Perdido em Marte (se liga na visão dos manos aqui), aqui é o artista encarregado de trazer à vida a loucura de Petit. Com poesia, paixão, sensibilidade e um intenso senso artístico dando origem às belíssimas imagens – ainda mais belas no ótimo 3D do filme – que vemos na narrativa, o polonês escreve, em suas cenas, quase uma carta de amor à cidade de Nova Iorque, às Torres Gêmeas e à vontade inabalável de perseguir seus sonhos.

Aliás, sonhos. Para terminar, é sobre isso que quero falar: sonhos. Para mim, o grande e real trunfo de A Travessia é ser cinema do mais alto nível por tratar desse tema tão delicado de uma maneira tão sensível, sem perder a capacidade de divertir e surpreender. Correndo o risco de exagerar – apesar de eu não me importar com isso -, digo que A Travessia é o tipo de filme que nos faz lembrar os motivos pelos quais continuamos nos apaixonando pelo cinema, essa maravilhosa fábrica de sonhos que nos emociona e nos faz acreditar que as coisas podem dar certo, sim. Eu gosto, de verdade, de sair assim da sala do cinema: sorrindo e acreditando nos sonhos, acreditando que acreditar e correr atrás do que podemos fazer e pelo que pudermos fazer é o truque, é a magia. A Travessia pode ser um filme que trata de uma época que não é a nossa; contudo, é uma história que tem muito a ensinar aos nossos dias.

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