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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Existem dois tipos de clichês: os bons e os ruins. Os bons estão por aí e se você procurá-los bem, achará e até poderá se divertir com eles. No entanto, os ruins você não precisa procurar, eles estão aí, escancarados e o pior de tudo é quando ganham força tamanha que todo tipo de tentativa de contra-argumentar ao tal clichê torna-se cansativa. No mundo do cinema isso acontece com o famoso caso do “Filme Brasileiro”, constantemente atacado e esculhambado por aí. Defender o cinema nacional torna-se, então, uma tarefa complicada conforme os agressores aumentam de tamanho – e de ignorância. Contudo, porém, entretanto, todavia, algumas vezes vemos certos filmes que nos dão novo fôlego na hora de contra-ataque: esse é o caso do premiado e prestigiado filme de Gabriel Mascaro, Boi Neon; um filme que atropela os clichês – internos e externos.

Premiado no Festival de Veneza e querido no Festival de Toronto, Boi Neon não é o mesmo tipo de filme sobre o Nordeste, retratando as vidas secas do sertão; não, esse longa foge dos estereótipos o máximo que pode e, muito provavelmente, esse é um dos grandes trunfos da narrativa. Aliás, narrativa também não é uma coisa com a qual Mascaro e sua equipe se preocupam, especificamente falando. Dito isto, Boi Neon é um filme muito mais sobre sentimentos, feito para sentir do que um filme sobre tramas e histórias, feito para entender e toda a equipe faz um belíssimo trabalho neste campo. O longa gira em torno das vidas do vaqueiro Iremar, da caminhoneira Galega, sua filha Cacá e mais dois vaqueiros, todos os cinco envolvidos nas Vaquejadas, festa tradicional no Nordeste onde o objetivo é que dois vaqueiros montados em cavalos derrubem bois (é, é um tanto quanto absurdo mesmo e o “esporte” já é amplamente questionado por organizações e ativistas dos direitos do animais).

Seria muito fácil, consequentemente, fazer desse filme uma “simples” trama-denúncia, expondo todos os males que os animais sofrem; ou também tornar o personagem de Iremar (em uma incrível atuação de Juliano Cazarré) em apenas mais um matuto desprovido de inteligência; ou, ainda, transformar a caminhoneira de Maeva Jinkings em uma simplória mulher masculinizada e embrutecida. Tudo isso seria muito fácil, mas Mascaro não quer nada disso: quer, justamente, fugir do óbvio e buscar novas dimensões das vidas de seus personagens e também da própria vida em si. O que de fato acontece é que Iremar, na verdade, um homem criativo e perspicaz, que quer ingressar na indústria da moda e Galega, apesar de todo o embrutecimento imposto por uma vida difícil, é uma mulher sensível, delicada, sensual (as suas cenas dançando são maravilhosas e são, definitivamente, alguns dos pontos altos do filme) e, acima de tudo, independente. O Nordeste de Boi Neon é um Nordeste nunca dantes visto no cinema (principalmente por conta do agronegócio), pulsante e vivo.

O olhar de Mascaro (transmitido pela belíssima fotografia de Diego García e através de longos e belos planos fixos) é um olhar inovador por ser um olhar receptivo, por ser um olhar carinhoso e respeitoso com seus personagens e suas trajetórias, sem necessariamente torná-los vítimas do poder ou objetos de resistência – apesar desses elementos estarem o tempo inteiro em tela, é claro – deixando-os ser o que são: pessoas reais, de carne, osso, paixões e angústias. Boi Neon é uma trama sobre uma vida difícil, sobre uma vida sofrida, mas também é uma trama sobre os pequenos momentos e as pequenas vibrações dos momentos bons; é, acima de tudo, um filme vibrante em suas cores, emoções e sentimentos, indo do realismo bruto ao poético ao mágico em questão de segundos e frames.

Portanto, para encerrar, vou deixando apenas o desejo de que Boi Neon venha logo aos cinemas e que mais e mais pessoas vejam essa ótima obra. E que venham mais desses filmes, mais dessas belezas, mais de Que Horas Ela Volta?, mais de Casa Grande, mais de Boi Neon e mais também de Gabriel Mascaro. Preparem-se haters: o cinema nacional vem com tudo para voltar ao topo e não há nada que vocês possam fazer contra isso. Vamos que vamos.

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