ls

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Todo grande documentário tende à ficção e toda ficção tende ao documentário, disse Godard certa vez, completando a frase ao afirmar que independente do estilo escolhido, o outro será encontrado no fim do caminho. Creio que no caso dos filmes de não-ficção essa declaração de Godard seja mais facilmente demonstrada quando testemunhamos uma trama que parece boa ou ruim (no sentido emocional) ou grande ou magnífica ou absurda ou estranha demais para ser verdade, quase como um realismo mágico onde os elementos da trama parecem fugir demais ao nosso entendimento. É esse o caso do novo longa do americano Joshua Oppenheimer, O Peso do Silêncio.

Da mesma maneira que o maravilhoso O Ato de Matar nos mostrou um dos lados da história com um dispositivo peculiar – neste primeiro “capítulo” sobre os massacres do período da ditadura militar na Indonésia, o diretor pediu que os assassinos, que vivem como reis até os dias de hoje pelas ruas de Indonésia, dominando os órgãos legislativos e altos ciclos da sociedade, reencenassem seus crimes da maneira que quisessem, utilizando os elementos que quisessem, um “jogo” que resultou em algumas das cenas mais bizarras e inquietantes dos últimos tempos -, aqui Oppenheimer nos mostra um outro lado com uma estratégia similar. A peculiaridade do dispositivo, no entanto, é menos chocante dessa vez – a princípio.

Em O Peso do Silêncio, Oppenheimer convence um dos irmãos das vítimas dos massacres a confrontar os assassinos, frente a frente. Sim, é inquietante, mas ninguém sabe o quão inquietante é até testemunhar essa dinâmica. Acompanhamos Adi, um oculista que presta pequenos serviços fabricando óculos e lentes para o pequeno vilarejo onde ainda mora, com os dois filhos e próximo aos seus centenários pais. Ele é o fio condutor da narrativa, irmão mais novo de Ramli, assassinado brutalmente por um dos esquadrões da morte da época – financiados e encobertos pelo governo como uma forma de atender aos anseios do povo que, supostamente, odiava os “comunistas”, um pretexto para assassinar todos os críticos do governo.

Oppenheimer, montando seu filme de maneira similar a uma ficção (provavelmente não por coincidência), coloca Adi de frente a uma televisão em uma sala vazia que transmite vídeos filmados pelo diretor dez anos antes, onde Oppenheimer acompanhou alguns dos matadores, registrando seus comentários acerca de como eles mataram suas vítimas e, principalmente, o irmão do oculista. Testemunhamos Adi assistir aos vídeos, pacientemente e logo o vemos entrevistando os assassinos de seu irmão.

Como já me aprofundei muito na trama, vou parar por aqui. O que importa saber, à essa altura do campeonato, é que O Peso do Silêncio não é um filme para estômagos fracos. Não por ser visualmente sanguinário ou demonstrar mutilações à la filme de terror; mas, simplesmente, por sufocar e o oprimir e pesar sobre nossos ombros, olhos, mentes e corações como poucos filmes fizeram na história do cinema. Assim que saí da sessão, não pude acreditar no que acabara de ver – e até o momento ainda não consigo acreditar completamente. Todo mundo sabe que o homem pode chegar a extremos de crueldade e violência (o nazi-fascismo do passado e do presente não nos deixa esquecer); porém, é incrivelmente insustentável e desesperador quando esses monstruosos atos nos são apresentados da forma como vemos em O Peso do Silêncio, quando chegamos ao ponto de não conseguir acreditar no tipo de criaturas nascidas de trevas e caos que caminham pela face do mundo.

Bom, não vou me alongar mais. Apenas recomendo esse filme – recomendo, também, uma preparação psicológica para vê-lo – e aposto, seguramente, em mais uma indicação ao Oscar para Oppenheimer (o que provavelmente não dará em muita coisa, dado o impactante teor da narrativa), mas, acima de tudo, aposto que esse será um filme lembrado por muito e muito tempo, quase como um monumento contra a escuridão humana, um documentário quase ficção, uma ficção quase documentário, um realismo quase mágico, mas tão vivo e real quanto é possível ser.

Anúncios