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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Se o ditado “uma imagem vale mais do que mil palavras” é verdadeiro, peço para que olhem atentamente para a imagem colocada logo aqui acima pois, mais do que nunca, a imagem de capa de hoje define e sintetiza o filme sobre o qual vou falar. Nela, podemos ver o mar aparentemente tranquilo batendo em uma pequena cidade da costa do Chile, La Boca, cujo céu permanece constantemente nublado. Sob todas essas nuvens chilenas, um homem ajoelhado na praia (o padre García) parece estar perdido, debaixo do grande segredo e do grande mal que o oprimem no momento. É assim O Clube, de Pablo Larraín: verdadeiramente inquietante e atmosfericamente enevoado, pesado.

As primeiras cenas do filme, no entanto, nos contam o contrário. Somos apresentados a cinco personagens (quatro homens e uma mulher) que vivem tranquilos em uma casa à beira mar, isolada em uma cidade isolada (mais de cento e cinquenta quilômetros separam La Boca da capital Santiago, segundo os cálculos do Google Maps). O cotidiano deles é despreocupado: comem, bebem, dormem, limpam a casa, assistem à televisão, treinam seu galgo de corrida e, todos os domingos, apostam em uma corrida de cachorros clandestina nos arredores da cidade. Porém, tudo muda quando um acidente fatal com um recém-chegado coloca a vida dos moradores da casa (do “clube) de cabeça para baixo, nos revelando suas reais identidades: membros da Igreja Católica afastados de seus deveres por terem cometido crimes. Quando um padre investigador (o mesmo da foto) chega à casa, tudo vai pro saco de vez.

Ir além disso é estragar a narrativa (como sempre né, ir além da sinopse é sacanagem então eu vou parar de falar isso e aí vocês já sabem que quando passar da sinopse já vou falar sobre outras coisas), então o mais importante é falar sobre os aspectos do filme, cinematograficamente falando. Em relação à atuação, todos os personagens principais são trazidos à vida com bastante competência mas, sem sombra de dúvidas, saem dois como os top top da balada: Alfredo Castro, o intérprete do Padre Silva e colaborador de longa data de Larraín (atuou sob o comando do diretor nos ótimos Tony Manero, Post-Mortem e No, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro alguns anos atrás) e Antonia Zegers (esposa de Larraín), que dá vida à (aparentemente) sempre sorridente e tranquila, irmã Mônica.

Castro é simplesmente minucioso, sutil e microscópico em sua interpretação de um padre homossexual apaixonado por seu cachorro de corrida – suas cenas em companhia do animal são poéticas, sempre na contra-luz desenhada pelo ótimo diretor de fotografia, Sergio Armstrong, que também é fotógrafo de um outro bom diretor chileno, Sebastian Silva – e Zegers é constantemente sinistra e psicótica por trás de seus olhares e sorrisos tranquilos-porém-psicopatas e, não por acaso, a cena entre os dois próximo do fim do filme é uma das melhores de toda a narrativa, repleta de tensão e toques de horror à espreita. Aliás, tensão e horror à espreita é o que não falta nesse filme e, para alcançar isso, o toque de Larraín é crucial.

É justamente nos momentos em que Larraín não demonstra medo nem diante do opressor e pesado tema e nem diante do passado violento de seu país (a ditadura chilena é reconhecidamente uma das mais sangrentas e terríveis ditaduras na história) que ele consegue triunfar, nos apresentando cenas incríveis e perturbadoras dispostas em uma narrativa de terror e brutalidade. Demonstrando ter plena técnica e controle da arte cinematográfica, Larraín não teme em atacar fortemente o mal brutal que assola a Igreja Católica há séculos e sua direção é firme o suficiente para não recuar em instante algum, tocando nos pontos certos que precisa tocar, nos revelando a violência – pelo menos em cena – apenas nos momentos corretos (o terceiro ato é quase sufocante), sem nunca apelar ou tratar o tema através de um modo de superexposição que, muito provavelmente, trairia os enquadramentos fechados e o isolamento dos cenários e dos personagens.

O Clube – vencedor do Urso de Prata em Berlim, o melhor filme do júri – é a nomeação chilena para o Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro e deve ter grandes chances de entrar no corte final de cinco indicados em janeiro (veja aqui a lista completa dos filmes nomeados, junto de seus respectivos países e diretores), caso a Academia não demonstre medo perante o tema – o que sabemos ser bem possível, infelizmente. E que fique anotado: Larraín é um diretor a se prestar atenção (seu filme sobre o brilhante poeta chileno e Nobel da Literatura, Pablo Neruda, se encontra em fase de pós-produção e deve estrear já no ano que vem) cuja voz política ainda ressoará e muito por aí.

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