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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Completamente afastado das grandes produções e com dificuldades para obter financiamentos, o grande gênio Orson Welles enfrentava dificuldades em sua vida profissional e em sua vida pessoal. Desacreditado e frustrado, o cineasta, um dos maiores de todos os tempos, só tinha uma única saída: extravasar seus problemas e suas angústias em um filme, coisa que sabia fazer como ninguém. Por isso, Welles decidiu recorrer ao seu velho mestre, William Shakespeare, para construir uma colagem de personagens e peças criados pelo dramaturgo inglês, uma miscelânea  que deu origem ao filme Falstaff – O Toque da Meia-Noite, protagonizado pelo próprio Welles no papel título (uma espécie de alter-ego do diretor neste filme).

Contudo, porém, entretanto, todavia, creio que os problemas do filme – apesar dos baixos recursos e da dificuldade de produção, Welles possuía grande habilidade em driblar esses tipos de contratempos, adquirida nos anos de prática longe dos grandes estúdios, realizando filmes das maneiras que eram possíveis e neste filme não foi diferente; Welles construiu seu filme cuidadosamente, utilizou seus atores principais de costas para que estes virassem figurantes, sem nunca perder seu estilo visual, ora preenchendo a tela com enormes e desfigurados rostos e ora utilizando a profundidade de campo dos vastos cenários escolhidos, como castelos e campos para tirar o máximo da ação com o máximo de realismo possível – residam justamente em sua mixagem de histórias e personagens.

A trama, ao apresentar um sem-número de pessoas diferentes e, certas vezes, pouco interessantes torna-se enfadonha em alguns momentos e, em outros, é ligeiramente confusa em seus recortes: a única coisa que podemos ter certeza sobre a narrativa é que acompanhamos Falstaff em suas aventuras como ladrão, como bebedor profissional e, até mesmo, como cavaleiro do reino em uma guerra – aqui, Welles mostra todas suas habilidades: a sequência da guerra é impressionante e épica, construída totalmente em contrastes e chiaroscuros para montar uma cena que, apesar de parecer possuir todos os extras e figurantes do mundo, na verdade, possuía um número muito abaixo do necessário para fazer uma sequência de guerra, apenas 100 pessoas; a cena, que durou 10 minutos completos, veio a ser estudada por muitos teóricos do cinema e por Mel Gibson para realizar seu Coração Valente.

Portanto, confiram Falstaff, se assim for possível. Pode não ser uma aula de como se fazer um roteiro (para isso, assistam qualquer um dos outros grandes filmes de Welles, e são muitos), mas definitivamente é uma aula de cinema, de como fazer um filme, de como pensar cinematograficamente e de como trazer à vida imagens desconexas. Um filme verdadeiramente essencial para cinéfilos e, claro, para os fãs de Welles.

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