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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

O que direi a seguir já foi dito antes por outras pessoas e já foi dito melhor do que direi, mas aí vai, de qualquer forma: cinema é magia, é sonho. Nada mais nada menos que isso. Até quando busca o mais cru e bruto realismo, o cinema é sonho (vai que a própria realidade é um sonho também né? Mas não vamos inventar, sem papo cabeça). Há algo de muito bonito e especial no escuro da sala, no barulho de pacotes abrindo e das mãos mexendo no saco da pipoca e nas risadas. Nas risadas, incríveis. Nas lágrimas também, especiais. E, quando um filme coloca todo um grupo de desconhecidos, com gostos diferentes, com histórias diferentes, com olhares diferentes a rir e a chorar, todos juntos, há algo de especial nesse filme: esse é o caso Eu, você e a garota que vai morrer do talentoso (e extremamente promissor) diretor Alfonso Gomez-Rejon.

Adaptando o romance de Jesse Andrews com base em um roteiro do próprio Andrews, Rejon nos apresenta a história de Greg (o divertido Thomas Mann, do incrivelmente hilário Projeto X), um jovem no último ano do ensino médio que se especializou em passar desapercebido, parecendo pertencer a todos os grupos da escola – dos maconheiros aos atores, dos esportistas aos demais excluídos – e não pertencendo, de fato, a nenhum; no fim das contas, seu único amigo (a quem ele se refere como colega de trabalho já que os dois jovens realizam paródias de famosos filmes juntos) é o carismático Earl (interpretado pelo também carismático RJ Cyler). Greg vive sua vida preguiçosamente, esperando para que o ano acabe o mais rápido possível, mas algo quebra sua rotina: Rachel (a encantadora Olivia Cooke, de Bates Motel e escalada como protagonista do vindouro Jogador Número 1, adaptação do best-seller de Ernie Cline por Steven Spielberg), uma garota da escola de Greg, é diagnosticada com câncer e será praticamente forçado a ser amigo da moça.

Produzido pela companhia do mestre Wes Anderson, Eu, você e a garota que vai morrer é um filme que tem todas as qualidades para parecer ser apenas mais uma dramédia (putz, como eu odeio esse termo) indie; o que, graças aos deuses do cinema e à direção de Rejon, não é. O ótimo material de Andrews (tanto o original quanto sua adaptação) nos entregam personagens sólidos e bem construídos, que crescem durante o filme, principalmente em nossos corações porque um dos maiores sentimentos que essa narrativa nos dá é felicidade. Há amor nesse filme, há uma vida, há uma alma, há um coração, há talento, há uma sinceridade forte e uma simplicidade tão direta que é impossível sentir diferente. Mas, vamos por partes.

Primeiramente, vou falar de Rejon. Falar sobre e homenagear o cinema tão belamente em apenas seu segundo filme é coisa para poucos. Aqui estão Os Incompreendidos, Taxi Driver, A Conversação, Aguirre, Fitzcarraldo, Werner Herzog, Polanski, Godard e muitos, muitos outros mestres. Ainda, tratar de um tema tão complexo quanto esse com a delicadeza e com a leveza que trata é algo que já coloca Rejon em uma lista junto de outros bons nomes que vem surgindo nos últimos tempos. Sua direção é inteligente e dinâmica e seus planos são muito bem construídos (há um longo plano, mais para o fim do filme, que prende o nosso olhar em uma conversa entre Greg e Rachel de uma maneira simplesmente incrível) criados através de espelhos, falsas continuidades, profundidade de campo e, é claro, das referências aos filmes citados e parodiados pelos dois amigos.

Entender o cinema é crucial para entender o espírito de Eu, você e a garota que vai morrer. Não, não estou falando de conhecer teoria, conhecer técnicas ou coisas do tipo, não, nada disso é preciso. O que é preciso é sentir o cinema e sentir seu poder, a magia que eu falei no início. As cenas de Eu, você e a garota que vai morrer se misturam às cenas parodiadas pelos dois amigos (alguns dos momentos mais hilários e genuinamente cômicos do filme inteiro estão nessas cenas, o que também me fez lembrar dos divertidos filmes suecados de Jack Black e Mos Def em Rebobine, Por Favor de Michel Gondry) que, por sua vez, se misturam às cenas dos filmes referenciados em momentos belíssimos e certeiros, seja pelo próprio filme estar passando em alguma tevê ou em algum computador dos personagens, seja pela trilha sonora que ouvimos aqui, “roubada” diretamente desses clássicos (o famoso tema de A Conversação e Street Hassle de Lou Reed estão incluídas) ou até mesmo pelas faixas selecionadas especialmente para o filme e todas essas homenagens e truques e esses inteligentes momentos contribuem para somente uma coisa: tornar esse filme tão bom quanto ele é.

As fortes e competentes atuações do trio principal e do elenco de apoio (que conta com nomes como Nick Offerman e Jon Bernthal) apenas servem para a atmosfera cool, indie, divertida, cômica, palhaça, séria, dramática, inteligente que esse filme possui, essa atmosfera que nos cativa, nos faz rir e chorar, nos emocionando como todo ótimo filme o faz. Espero que chegue aos cinemas logo, que vocês vejam logo e que vocês gostem dele tanto quanto (ou mais do que) eu.

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