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NOTA: 8 / Renato Furtado

Um filme sobre guerra fria e espionagem – ainda que seja um tema meio batido -, escrito pelos Irmãos Coen, estrelado por Tom Hanks e dirigido por Steven Spielberg. Sério, o que poderia dar errado? Calma, calma, não deu nada errado; muito pelo contrário, tá tudo certo, tá tudo de boa porque Ponte dos Espiões é o melhor filme de Spielberg desde O Terminal (descontando, é claro, As Aventuras de Tintim) e é um bom retorno à forma desse consagrado e veterano diretor que a gente tanto gosta. Narrando a história de James Donovan, um advogado responsável por defender um espião soviético capturado em solo americano perante à Corte Americana temos o melhor do diretor: o Spielberg da grandiosidade, o Spielberg clássico.

Vejam bem, existem três tipos de Spielberg: o dramático, o aventureiro e o de boas (Terminal e Prenda-me se For Capaz). Aqui temos o primeiro tipo, claramente. Trazendo referências dos filmes noir e dos filmes policiais e de espionagem das décadas de 40 e 50 com muitas cenas noturnas e sombras de homens sombrios nas paredes e nas ruas e também com cenas diurnas e congelantes passadas no frio inverno europeu – tudo isso graças à ótima fotografia do polonês Janusz Kaminski, colaborador de mais de vinte anos de Spielberg, tempo no qual recebeu dois Oscars pelo trabalho em A Lista de Schindler e em O Resgate do Soldado Ryan e recebeu mais três indicações por trabalhos conjuntos com o americano -, o diretor nos apresenta um mundo de medo e de perigo constantes e a ótima e silenciosamente tensa sequência inicial (escrita de forma incrível pelos irmãos Coen, que, apesar da falta de sangue ou de humor negro ou de grandes ironias no roteiro, também deixam sua marca nos diálogos afiados e nas poucas, porém boas, situações cômicas da narrativa) dá o tom para o resto da trama: há uma incerteza debaixo da pele dessa história, debaixo dos olhares das pessoas nas ruas e nos metrôs que nos deixa em estado de alerta, acompanhando atentamente os passos de Tom Hanks.

Aliás, vale a pena falar de Tom Hanks, sem sombra de dúvidas um dos melhores atores de todos os tempos. Em uma atuação que provavelmente e infelizmente será esnobada nas premiações de fim de ano, Hanks nos dá um personagem que, ao mesmo tempo, entra na categoria de personagens que o Tom Hanks normalmente interpreta e na categoria de personagens que saem da primeira categoria. O que quero dizer é o seguinte: há uma sensação de que já vimos Hanks interpretar esse personagem antes, mas ele o faz de maneira tão encantadora, divertida e (ainda assim) inovadora que parece ser uma face completamente nova do ator que vemos, colocando vários detalhes a cada momento do filme – provavelmente nas mãos de um melhor diretor de atores, Hanks seria, definitivamente, indicado; a direção de atores é, na minha opinião, o único ponto fraco de Spielberg. O elenco de apoio, do qual surge como ponto mais forte a interpretação de Mark Rylance para o estoico espião soviético, também é bastante competente, ainda que os papeis coadjuvantes sejam pouco dimensionais e que talentos como Alan Alda e Amy Ryan sejam muito pouco utilizados.

Creio que o único problema de Ponte dos Espiões esteja no terceiro ato do filme. Adaptar uma história real para a ficção é entrar em território traiçoeiro: o que colocar, o que deixar de fora para contar a história da melhor forma e da maneira mais fiel possível, esse é o ponto complexo e é o ponto no qual Ponte vacila um pouco, parecendo esticar o filme um pouco mais do que o necessário, “gastando” tempo em cenas e sequências em (ainda que importantes) subtramas que não adicionam valor real ao filme como um todo, não o deixando particularmente melhor. Concluindo: fora esse problema da parte final, Ponte dos Espiões é um grande filme de espionagem, um drama de alto nível que traz Spielberg de volta à sua boa forma e uma ótima e carismática atuação de Tom Hanks em uma trama realmente interessante.

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