sicario

NOTA: 8 / Renato Furtado

Há um lugar no mundo, um lugar específico onde nuvens negras de tempestade e relâmpagos parecem fazer parte da paisagem constantemente, sempre prestes a fazer o mundo todo desabar. Nesse mesmo lugar, a palavra Sicario significa matador e é por essas perigosas terras que o diretor Dennis Villeneuve (realizador de Os Suspeitos, o maravilhoso Incêndios, Politécnica e o misterioso O Homem Duplicado) e seu fotógrafo Roger Deakins nos levam para um infernal e sinistro passeio direto ao interior de um monstro vivo, direto ao coração da besta, a cidade fronteiriça de Juárez: seja bem-vindo ao México, como os créditos iniciais de Sicário: Terra de Ninguém informam.

Seguimos os passos de Kate Mercer (Emily Blunt), uma agente da divisão de sequestros do FBI que se vê no meio da gerra ao narcotráfico do seu lado da fronteira, em Phoenix, Arizona. Certo dia, um misterioso consultor do Departamento de Segurança, o peculiar Matt (Josh Brolin) a convida para uma missão cujo objetivo é fazer um estrago real nos planos do Cartel de Sonora – responsável pelos sequestros e pelas mortes no território dos Estados Unidos. Aos dois, junta-se o silencioso e perigoso Alejandro (Benicio del Toro), que logo prova para Kate que ela entrou em um jogo e um mundo muito pior do que ela poderia imaginar e é exatamente nos momentos em que Villeneuve e Deakins mergulham de cabeça nessa zona de perigo constante que Sicário se torna um filme brilhante.

O canadense Dennis Villeneuve é um mestre do cinema de suspense, construindo sequências que arrancam todo nosso fôlego de uma vez só enquanto faz seus atores interpretarem seus papeis da melhor maneira possível. Aqui, o canadense extrai performances brilhantes de seu trio de atores. Brolin – que declarou quase não ter aceitado fazer o filme, por conta da cansativa produção de Evereste (leia nossa resenha aqui), só assinando depois que Deakins praticamente o obrigou a aceitar o papel – é incrível em seu papel, misterioso na medida certa, representando tudo de podre e violento no imperialismo americano.

Como contraponto, temos Emily Blunt mais incrível do que nunca, entregando uma performance construída sobre um papel que não abria tantas possibilidades para um trabalho tão bom quanto ela faz em Sicário – um dos problemas do filme reside justamente na construção da personagem de Blunt no roteiro, escrita como uma narradora observadora quando, de fato, deveria ser uma narradora personagem. Mesmo sem espaço para brilhar, Blunt é brilhante: determinada, badass e com sede de justiça, Kate busca jogar um jogo – que sequer sabe qual é – da melhor e mais corajosa maneira que pode. No entanto, o filme é, sem sombra de dúvidas, todo de Benicio Del Toro.

Quando um ator ou uma atriz consegue, através de seu personagem, injetar medo apenas com o olhar, quando consegue, com o mínimo de palavras e com os gestos mais cautelosos e premeditados, ser a criatura mais perigosa em cena, aí sim você sabe que está diante de uma grande atuação. Del Toro parece em estado de transe, sendo simplesmente magnético como Alejandro, envolto em uma aura de mistério e suspense, nunca nos mostrando de que lado realmente está, uma ameaça constante, alarmante, violento, brutal e poderoso.

De nada adianta, entretanto, trazer à tona o melhor de seus atores se o palco não estiver pronto para tanto talento. Felizmente, como já disse anteriormente, Villeneuve é um mestre na arte do cinema. Sicário possui três atos bastante claros: um início, um meio e um fim. No início e no final, Villeneuve nos leva diretamente ao coração do perigo e caminha na linha da máxima tensão. A sequência inicial, a sequência da ponte e todo o ato final são de um extremo rigor técnico e artístico, atingidos com a grande participação e com a grande habilidade e genialidade do mestre Roger Deakins. O fotógrafo britânico – responsável por assinar grande parte da fotografia da filmografia dos Irmãos Coen – cria planos magníficos, sejam aéreos, terrestres ou subterrâneos, enquadrando tudo e mais um pouco na moldura cinematográfica, inclusive a tensão e todo o gigantesco escopo da diabólica cidade de Juárez e da infernal guerra ao narcotráfico.

Contudo, porém, entretanto, todavia, nem tudo são flores. O filme possui um problema que não o deixa ser tão espetacular quanto seu potencial permitiria ser. Quando a trama chega no ato do meio, a potência demonstrada na primeira parte e retomada na última não é atingida pois é justamente nesse ponto que o roteiro não abre caminho para que Villeneuve, Deakins e sua equipe trabalhem com a mesma habilidade e afinco demonstrados no início e no fim porque o material escrito empaca nos momentos onde deveria receber um empurrão, esfriando o a temperatura gerada pelas sequências anteriores, deixando uma barriga na linha narrativa da trama.

Fora isso, Sicário é um filmaço e deve ser indicado para alguns prêmios no fim do ano – principalmente para Benicio Del Toro na categoria de ator coadjuvante e para Deakins na categoria de fotografia – dependendo da campanha realizada pela estúdio produtor do filme. Contando com uma tensa e enérgica trilha sonora assinada pelo talentoso Johann Johansson (de A Teoria de Tudo), uma boa direção de arte e todos os grandes pontos que já enalteci anteriormente, Sicário é, definitivamente, um dos grandes filmes desse ano e só faz aumentar minha admiração por Dennis Villeneuve.

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