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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Logo no ínicio da narrativa, há uma cena onde um professor de filosofia dá uma aula sobre os afetos, principalmente sobre a paixão. O professor cita Platão e Charlie (personagem principal do filme, papel de Joséphine Japy) rebate com Nietzsche, mas o que importa reter dessa primeira cena é definir a paixão, sendo ela algo incontrolável e que pode muito bem machucar, quando se encontrar excedendo e transbordando os corpos que ocupa. É daí que parte Respire, segundo filme de Mélanie Laurent também conhecida como o amor da minha vida, um esforço de direção dotado de talento, força e mostrando-se em franca ascensão (Respire é bem melhor que o primeiro filme de Laurent, Les adoptés), que conta com um bom trabalho de fotografia, meio indie meio realista e uma trilha sonora digna dos melhores filmes de suspense.

A narrativa gira em torno da formação da amizade de Charlie e Sarah (meu deus do céu, Lou de Lâage toma meu coração). A primeira, uma boa e tranquila aluna vivendo uma vida sem grandes complicações – fora os problemas conjugais dos pais – e a segunda, uma verdadeira força da natureza que chega para abalar a visão de mundo que Charlie possuía do mundo e acompanhamos o desenrolar desse relacionamento através da incrível performance dessas duas jovens e lindas e talentosas atrizes, que colocam com maestria vários níveis de nuances em suas interpretações, tornando-o trabalho de Laurent muito mais fácil.

Digo isso porque as duas atrizes principais parecem dançar uma música, jogar um jogo que só elas sabem qual é – e, às vezes, nem elas mesmas sabem qual é. Suas expressões e o modo como seus corpos reagem às situações nos quais são colocados – mais um ponto positivo para o roteiro assinado por Laurent, que compreende o instante da juventude, em geral – fornecem caminhos para interpretar e decifrar a natureza crua e pulsante do relacionamento das duas jovens, fonte de mistério e de tensão palpável e subterrânea, muito presente durante toda a trama onde Laurent, ao criar belas imagens e planos muito bem executados, demonstra um grande amadurecimento técnico e artístico (essa deusa ainda é cantora além de ser uma das melhores atrizes que vi surgirem nos últimos cinco anos) e uma grande certeza de quais caminhos seguir durante a montagem de seu filme.

Ter certeza e pulso firme sobre essa narrativa em questão é muito importante porque esse filme é muito, mas muito delicado. Esse é o tipo de história que de tão frágil e delicada que é, quando mal contada, se estilhaça logo nos primeiros minutos de duração. Felizmente, é justamente o oposto que Laurent consegue alcançar aqui. Criando uma nervosa atmosfera de incertezas que tira o fôlego – o título do filme, que remete ao problema asmático de Charlie, às vezes, parece até irônico, pois respirar é a última coisa que conseguimos fazer em determinadas sequências -, a diretora embute diversos tons e subtons que se aglutinam como camadas aglutinam para formar o panorama geral, nos entregando um filme que não é apenas um drama, mas também um thriller de grande eficiência, construído sobre dois destinos em processo de escrita conjunta, sobre duas personagens que precisam lutar e nadar contra as perigosas correntes de situações das quais não podem fugir e para as quais são, inevitavelmente, levadas.

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