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Cinema2Manos

Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

novembro 2015

Jessica Jones (NETFLIX, 2015)

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NOTA: 8 / Renato Furtado

A Marvel ataca novamente. Construído um verdadeiro império a começar pelos cinemas, a empresa de Stan Lee continua colocando mais e mais heróis nas telonas e nas telinhas. Depois de acertar um acordo com a Netflix e lançar a ótima série do Demolidor (que nos faz esquecer completamente daquele troço que é o filme com o Ben Affleck) em abril, agora, no fim do ano, a empresa que todos amamos lança uma de suas séries mais esperadas: Jessica Jones, a primeira super-heroína da Marvel a receber uma adaptação solo, uma detetive particular que tenta conciliar sua nova profissão, seus talentos especiais (basicamente a super-força), seu passado turbulento e um fantasma (mais real do que ela imagina) que constantemente a assombra.

Em poucas palavras, essa é a série Jessica Jones (a segunda a se passar em Hell’s Kitchen, o bairro de Nova Iorque que também é a casa do Demolidor, de Luke Cage, que é um personagem regular em Jessica Jones e do Punhos de Ferro). Em muitas palavras, a nova série da Netflix é exatamente o que não esperamos. Se você vier procurando uma série sobre superpoderes, pode desistir; se você vier procurando por uma série de ação, desista também; se procurar por uma série policial, sinto muito, mas não vai rolar. O fato é que, ainda que Jessica Jones seja uma série sobre uma super-heroína com ação e investigação, a série é realmente um drama – entretanto, não descobrimos isso até o meio da temporada.

Esse cruzamento de gêneros pode provocar um certo estranhamento, a princípio – a direção nem sempre correta e os diálogos pouco inspirados contribuem nesse aspecto negativo. Portanto, é justamente quando Jessica Jones supera todos esses problemas e acha um direcionamento justo e bem definido para si – uma série majoritariamente dramática, com elementos de super-heróis, ação e policial – que torna-se uma série do nível já conhecido e esperado das produções Netflix.

A escolha dos atores influencia bastante no bom andamento da série – que se dá por volta da metade da temporada até o seu final. Krysten Ritter (que é uma ótima atriz, para quem prevejo um ótimo futuro cinematográfico) interpreta Jessica Jones vigorosa e poderosamente, conferindo diversas tonalidades para sua personagem, brilhando justamente nos momentos mais dramáticos da série e ganhando espaço primeiro na inteligência e, em seguida – se for o caso – baixando a porrada em quem se puser no caminho para mandar uma mensagem muito clara: acabou-se o tempo, graças aos deuses da televisão, em que adaptações de super-heróis eram apenas sobre personagens masculinos. Essa é uma questão importantíssima para Jessica Jones: um show, definitivamente, feminista, sobre mulheres fortes, independentes e reais. Aliás, esse é um grande mérito do trabalho da estruturação da série, criada por Melissa Rosenberg.

Ainda que superpoderes e coisas nessa linha sejam importantes, as mulheres de Jessica Jones são bastante reais e isso é algo especial (se há algum exagero, é porque a série não almeja o realismo), já que a série gira em torno de Jessica, dessas outras personagens (o caso principal da série, inclusive). A construção das personagens é realmente muito boa (excetuando Robyn, que serve mais como uma criadora de conflitos um tanto quanto desnecessários). Destaco duas personagens em especial. Primeiro, a personagem Patricia Walker, a Trish, amiga de Jones, interpretada com grande coração e coragem por Rachael Taylor é um dos grandes trunfos da série, roubando grande parte das cenas, e nossos corações junto, nas quais aparece. Em segundo lugar, temos Carrie Anne-Moss, em uma ótima performance, interpretando a advogada Hogarth, impiedosa, incansável, inteligente, inescrupulosa e poderosa.

Apesar dos diálogos fracos, de ações mal estruturadas e de um trabalho de direção inconsistente – que, infelizmente, prejudicam a série em dados instantes cruciais -, todos os atores acreditam firmemente em seus personagens e entregam performances que são, no mínimo, sólidas. Do lado masculino, temos alguns personagens importantes. Primeiro, Luke Cage, interpretado por Mike Colter, um personagem que ganhará uma série própria, onde poderá ser mais bem desenvolvido ainda, contando com a boa interpretação de Colter, que mostra variadas nuances em poucos e contidos gestos. Depois, Malcolm (Eka Darville) e Simpson (Will Traval), dois personagens que vão ganhando importância com o passar dos capítulos. Guardei o melhor para o final, evidentemente: o grande vilão da série, Kilgrave – que tem o poder de controlar mentes e ordenar que as pessoas cumpram todas as suas vontades.

David Tennant, mais conhecido por ter sido um dos milhões de Doutores na história da série Doctor Who, cria um personagem a quem vamos odiar gostar tanto. Ele é a personificação de todos os perigos e desgostos que um homem pode representar para uma mulher; ainda assim, gostamos de Kilgrave porque a interpretação de Tennant é incrível. Soando como um asqueroso lorde inglês, Tennant se movimenta como uma serpente à caça de sua presa, surgindo e agindo de acordo com sua agenda movida pela sua psicose. Seus diálogos são de longe os melhores de toda a temporada e é interessante ver esse tipo de ator, mais conhecido por atuar em outros gêneros e interpretar personagens mais lights, fazer um vilão tão odioso e psicopata.

Excetuando os deslizes acima mencionados, Jessica Jones é uma ótima série. De fato, poderia ser sensivelmente melhor, especialmente se explorasse mais o drama, esquecendo o máximo possível superpoderes e a ação (as cenas de ação de Jessica Jones são ruins e algumas delas não fazem sentido algum), utilizando esses instrumentos apenas em momentos precisos. Entretanto, a ideia e o conceito que permeiam toda a temporada e a construção de sua heroína demonstram um potencial enorme a ser trabalhado, consolidando um elemento crucial: Jessica Jones é uma série que promete crescer muito, inaugurando um novo terreno para a Marvel. Não se enganem, as super-heroínas (e as heroínas tão super quanto aquelas que possuem dons especiais) vieram para ficar e isso é excelente.

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Lista: 10 Melhores Filmes do Ano – Críticos do Rio de Janeiro

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Renato Furtado

Todo fim de ano e início de ano seguinte são verdadeiros deleites para os cinéfilos. Chega a temporada de premiações, chegam as conversas acaloradas sobre quem deveria ganhar o que, quem deveria não ganhar, quem deveria nunca mais aparecer ou fazer um filme durante todo o resto de sua vida e por aí vai. Essa energia acaba sendo direcionada para as listas de fim de ano (as listas do C2M vem logo logo, fiquem ligados!). Ontem, divulgamos uma lista que saiu no fim do ano – mas que não é de fim de ano -, lá dos escritórios da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, o top 100 dos filmes brasileiros (que você pode conferir aqui).

Também nesse fim de semana passado, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro se movimentou e elegeu os dez melhores filmes de 2015! E – como eu já suspeitava – o filme eleito como o melhor de todos, o rei da galera nesse ano incrível – que já podia ter sido enforcado até as Olimpíadas e que parece dar mostras de não querer acabar nunca – foi Mad Max: Estrada da Fúria!

Fiquem abaixo, com o resto do top 10, em ordem alfabética:

O Abutre
Birdman
Divertida Mente
Ida
As Mil e Uma Noites – Volume 1, O Inquieto
A Pele de Vênus
Que Horas Ela Volta?
Whiplash – Em Busca da Perfeição
Winter Sleep

Achei uma seleção realmente boa, construída através de filmes bastante diversos entre si, de gêneros e nacionalidades bastante variados, todos eles de altíssima qualidade; vale a pena conferir todos. Os filmes serão exibidos especialmente no Centro Cultural Banco do Brasil aqui do Rio de Janeiro, como já é tradição. É isso, conforme novas listas surgirem, divulgaremos-nas aqui!

American Ultra: Armados e Alucinados (Nima Nourizadeh, 2015)

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NOTA: 5,5 / Renato Furtado

Quando ouvi que Nima Nourizadeh, o diretor de Projeto X, iria realizar uma comédia de ação, fiquei realmente animado – sem brincadeira. O lance é o seguinte: eu acho Projeto X um dos filmes mais hilários e loucos dos últimos anos. Gosto das maluquices que acontecem, do lança-chamas, do anão de porcelana suspeito, da festa que sai fora do controle, do incêndio e de mais um monte de coisas que eu não posso falar porque aí já configura o crime previsto em lei chamado SPOILER – se você pratica ou conhece alguém que pratica, por favor, comunique às autoridades competentes. Voltemos ao que interessa.

Entre muita desconfiança e uma possibilidade de acabar não estreando em terras tupiniquins, eis que chega, já no fim de 2015, American Ultra: Armados e Alucinados. Bom, a verdade é que não é muito lá essas coisas. O longa conta a história de Mike e Phoebe, um casal que divide seu tempo entre fumar maconha sob a luz das estrelas e trabalhar em empregos ruins. Mas, quando estranhos eventos acontecem, Mike descobre que é, na verdade, um super agente. Para resumir mais a conversa, American Ultra é um Jason Bourne bastante chapado e confuso.

Os problemas começam no título: sério, onde que alguém realmente acha que em pleno 2015 inserir um subtítulo “Armados e Alucinados” em um filme que não chega nem perto de ser uma comédia – mesmo que fosse o subtítulo não seria perdoado – é uma boa ideia? O problema – do marketing e do filme como um todo, no caso – reside justamente aí: American Ultra tem seus momentos engraçados, mas nenhum deles justifica a forma como o filme é vendido. É antes um filme de ação do que qualquer outra coisa. Alguém disse em algum lugar que American Ultra é um dos filmes mais românticos do ano – o que, estranhamente, pode ser verdadeiro. Ou seja, o filme é até mais romance do que comédia.

O romance aqui vem por causa da boa química entre Jesse Eisenberg – um dos atores mais superestimados de sua geração, representando sempre versões modificadas de um mesmo personagem, atuando em um espectro realmente curto de capacidades de interpretação que vai do bom Jesse Eisenberg, de A Rede Social ou O Duplo; ao médio Jesse Eisenberg, em Zumbilândia, por exemplo; e, por fim, ao fraco Jesse Eisenberg, a versão, infelizmente, entregue pelo ator aqui – com Kristen Stewart – que, apesar do filme e dos diálogos pouco inspirados de Max Landis, luta para acreditar em sua personagem e entrega uma performance sólida e satisfatória. O relacionamento dos dois é um dos pontos altos do filme, que, se melhor explorado e mais bem desenvolvido, melhoraria sensivelmente o nível da trama.

Os problemas do filme, no entanto, não param simplesmente na comédia e nem no fato da confusão que é a caminhada realizada entre os gêneros – que, caso seja bem feita, pode gerar resultados incríveis, como a história do cinema nos prova. O personagem de Walton Goggins (um ator realmente muito bom e pouco reconhecido) é pouco aproveitado, dramaticamente falando. Por sua vez, os papeis de Topher Grace, John Leguizamo e Tony Hale (o ótimo e divertidíssimo ator de séries como Arrested Development e Veep) são esquecíveis e completamente inúteis em suas tentativas de tornarem-se, no mínimo, os alívios cômicos da trama. Sem mencionar o fato de que Bill Pullman não precisava sequer estar no filme.

Contando com uma direção que é, no mínimo, boa; bons atores, dispostos a entregar bons personagens; e trabalhos de fotografia e trilha sonora razoáveis, o grande defeito de American Ultra é o roteiro de Max Landis, confuso e perdido, literalmente atirando para todos os lados e não acertando praticamente em nada. Cheio de pontas soltas e claros problemas de desenvolvimento, American Ultra pode até divertir em suas cenas de ação, que são bem montadas, mas, no fim das contas, não passa de um filme fraco.

Lista: 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos

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Renato Furtado

Em relação à cinema, uma das coisas que deixa todo e qualquer cinéfilo brasileiro (ou qualquer outro indivíduo, brasileiro ou não, que saiba realmente do que está falando) mais irritado do que o anúncio de um filme novo do Nicolas Cage (vamos lá Nicolau Gaiola, você pode fazer melhor) é ouvir a velha e ridícula máxima: “Filme brasileiro é uma droga”. Quando alguém diz isso, é preciso reunir forças suficientes para responder com um mínimo de delicadeza – ou reunir fôlego suficiente para simplesmente ignorar a afirmação, coisa que às vezes é o caminho mais curto para manter uma amizade nesses tempos atuais.

Para a nossa sorte, no entanto, as respostas agora podem ficar mais curtas – resumindo-se a um simples clique – e mais bem embasadas. A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) divulgou, na semana passada, uma lista definitiva sobre o cinema nacional. Após entrevistar críticos e personalidades ligadas ao cinema, a entidade preparou uma lista, um top 100 – que é o fino da bossa, o filé mignon, o fundo da lata de leite condensado – contendo, evidentemente, os melhores filmes brasileiros de todos os tempos!

O ranking traz filmes de todos os tipos. Ficções dominam, claramente, mas há espaço suficiente para os documentários (três deles de um dos maiores documentaristas de todos os tempos, Eduardo Coutinho) e para os curtas e médias-metragens (na lista, é possível encontrar o essencial Ilha das Flores, de Jorge Furtado). Além disso, tem lugar para todas as produções. Se em primeiro lugar temos Limite, o único e genial filme – inspirado pelo impressionismo francês de Abel Gance – de Mário Peixoto, lá dos idos de 1931 e em segundo Deus e o Diabo na Terra do Sol, o clássico de Glauber Rocha (que emplaca mais quatro filmes na lista), no miolo da lista logo vemos filmes dos Trapalhões e os clássicos de Zé do Caixão, mostrando que o ranking foi feito da forma mais justa e bem estruturada possível, levando em consideração não só a qualidade dos filmes, mas também a importância e o impacto culturais exercidos pelas películas.

E, é claro, que os filmes mais recentes não ficaram de fora! Dos últimos anos temos O Lobo Atrás da Porta, O Som ao Redor, Tatuagem e até mesmo o orgulho nacional e forte concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 2016, Que Horas Ela Volta? (leia mais sobre o prêmio de melhor filme estrangeiro aqui, na nossa cobertura especial de apostas para o Oscar 2016). Fiquem, abaixo, com o top 25 da lista da Abraccine:

1. Limite (1931), de Mario Peixoto

2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha

3. Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos

4. Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho

5. Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha

6. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla

7. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person

8. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles

9. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte

10. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade

11. Central do Brasil (1998), de Walter Salles

12. Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco

13. Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado

14. Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman

15. O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho

16. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho

17. Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho

18. Bye Bye, Brasil (1979), de Carlos Diegues

19. Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias

20. São Bernardo (1974), de Leon Hirszman

21. Iracema, uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodansky e Orlando Senna

22. Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri

23. Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra

24. Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro

25. Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci

Pessoalmente, creio que Elena, o maravilhoso documentário de Petra Costa, um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos é uma das ausências mais sentidas na lista. Fora isso, lista é lista, apanhado é apanhado e recortes precisam ser feitos, evidentemente.

O que é, de fato, importante é que agora temos uma lista que ajuda a preservar a memória do nosso cinema, uma matéria na qual, certamente, falhamos. No entanto, como já diria Renato Russo, ainda é cedo; ou seja, ainda temos tempo suficiente de corrigirmos nossos erros com a nossa própria cultura – e tempo suficiente também para corrigirmos nossos amigos ou revermos nossas amizades, se for o caso.

PS: O resto da lista você pode conferir aqui!

OSCAR 2016: Melhor Filme Estrangeiro – Apostas C2M

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Mais um sábado chegando e mais um apanhado de previsões para o Oscar. Dessa vez, decidimos dar uma olhada na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (estrangeiro em relação aos americanos, claramente), uma categoria que comporta filmes que são falados majoritariamente em uma língua diferente do inglês e que ajudou a apresentar e a estabelecer nas mentes dos cinéfilos de todo o globo filmes maravilhosos que contrariam tudo o que conhecemos como o cinema mais tradicional (leia-se cinema industrial de qualquer nacionalidade feito como se fosse um produto qualquer; sim, estou falando com vocês filmes de comédia, ação e terror feitos em duas semanas ou coisa parecida).

Seja por temáticas diferentes ou por maneiras narrativas inovadoras, os filmes “gringos” são um verdadeiro colírio para os olhos, alimento para a mente e uma alegria para o espírito. Vindos de uma miscelânea inacreditável de nações do mundo todo, vamos aos cinco filmes que possuem as maiores chances de entrarem no corte final da Academia.

5) O Quinto Jogador

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Todo ano, a competição nessa categoria é muito acirrada. Enquanto as primeiras colocações costumam ficar claras no decorrer do ano, as últimas posições na lista são preenchidas por um borrão. É isso que dá ter mais de oitenta filmes concorrendo por cinco vagas (podia ser pior, já que os indicados para a categoria dos documentários virão de uma lista de 124 filmes submetidos). Como temos que apostar – ao invés de colocar todos os trocentos filmes maravilhosos que estão na briga -, ficamos com O Clube (cuja resenha você pode encontrar aqui), o representante chileno que marca o retorno de Pablo Larraín na categoria (depois do ótimo No nos idos de 2012). Motivos pelos quais selecionamos O Clube: 1) é um ótimo filme; 2) Pablo Larraín é um dos grandes diretores da atualidade; 3) AMÉRICA DO SUL REPRESENTANDO!

PS: Também podem entrar aqui o infame (por causa do título) e incrível (por causa da alta qualidade da narrativa) filme do Pombo (também conhecido como Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência), representante sueco; Labyrinth of Lies, representante alemão; e o francês Cinco Graças. Pessoalmente, estou torcendo pelo representante português da lista, a parte dois da trilogia das noites árabes de Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites: Volume 2 – O Desolado.

4) O Monstro

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Filmes de gênero muito destacados normalmente não são bem aceitos na Academia (a não ser quando são destacadamente dramas, é evidente). Portanto, filmes de ação e terror, por exemplo, não tem muita chance. Contudo, as coisas parecem que vão mudar de figura nesse ano. Só a foto já dá uma tensão. O nome é Boa noite, mamãe. Mais tensão. A narrativa é sobre dois irmãos gêmeos que não reconhecem a mãe após a mesma ter realizado cirurgias estéticas que modificaram suas feições. Daí, podem surgir tantas coisas tensas e aterrorizantes que eu prefiro realmente não pensar. Goodnight Mommy é um dos filmes austríacos mais badalados dos últimos tempos e também um dos filmes mais comentados de 2015. As chances de indicação são grandes, mas a concorrência também é.

3) A Joia Oriental

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À essa altura do campeonato chamar algo de joia oriental é, no mínimo, limitador, prepotente e preconceituoso, como se o pessoal de lá fosse só responsável por essas “joias” que o Ocidente se acostumou a pegar durante os tempos. No entanto, dessa vez, vou me permitir a licença poética de utilizar o título. The Assassin é o representante de Taiwan e, provavelmente, o projeto mais ousado de Hou Hsiao-Hsien. Visualmente arrebatador e munido de um ritmo próprio – meio artes marciais, meio contemplação visual -, o filme encantou o pessoal de Cannes, onde Hou saiu vencedor do prêmio de melhor diretor no festival (um dos prêmios mais importantes do mundo para a galera das praias de Cannes e para, praticamente, todo mundo mesmo). Narrando a história de uma assassina que é contratada para matar um líder político na China do sétimo século, The Assassin é uma verdadeira joia, visual, sonora e narrativamente. Além disso, vem do Oriente. Trailer aqui.

2) A Prata da Casa, Orgulho Nacional, Melhor Filme Brasileiro de 2015

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É com muito orgulho que eu escrevo essas próximas palavras: Que Horas Ela Volta? é um dos filmes mais cotados para entrar na lista de Melhor Filme Estrangeiro. E que maravilha, que alegria é ver um filme nacional de volta a uma conversa real, a uma competição real. Se nos últimos anos fomos bombardeados com as pragas das globochanchadas, ao mesmo tempo também recebemos grandes presentes. A lista tem grandes títulos: O Lobo Atrás da Porta, Tatuagem, Elena, Olmo e a Gaivota, O Som ao Redor e mais alguns ótimos filmes. Mas, em 2015, vimos a cereja do bolo, que completou o topo desse nosso doce cinema brasileiro e é justamente Que Horas Ela Volta? (meus pensamentos sobre o filme vocês podem encontrar aqui, primeira resenha que escrevi para o site com muito orgulho).

Parece quase certo que o Brasil estará representado na lista dos cinco filmes, mas eu digo mais: afirmar que podemos ganhar esse troféu não é exagero algum, sem a menor sombra de dúvidas. Vamos precisar de sorte, mas a boa notícia é que qualidade nós temos de sobra em Que Horas e isso já é mais do que meio caminho andado.

1)  O Favorito (A.K.A. Sucesso em Cannes, badalado com a galera toda)

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O provável sucessor de Ida vem lá dos altos da Europa igualmente – da Polônia para a Hungria é um pulo, segundo o Google Maps dá só umas cento e trinta e três horas de caminhada, aproximadamente. O Filho de Saul é um filme sobre os horrores da Segunda Guerra. Ok, vocês vão dizer: mais um filme sobre os horrores da Segunda Guerra, meu deus, pra que isso, chega, move on produtores. Vamos por partes: antes de mais nada, não sei se vocês perceberam, mas o filme é húngaro; isso significa dizer que veremos uma nova perspectiva sobre a guerra. Além disso, a narrativa gira em torno de um prisioneiro húngaro (o Saul do título) que é responsável pela brigada crematória de Auschwitz – só de escrever esse parágrafo eu já sinto uma carga dramática enorme.

Conquistando plateias, cinéfilos e, principalmente, críticos em todo o mundo, o Filho de Saul é um dos filmes mais esperados de 2016, ganhador do Prêmio do Júri em Cannes e mais uma penca de prêmios e conquistas pelo mundo todo. O trailer é emocionante, silencioso, grandioso e devastador e vocês podem conferi-lo aqui. Ainda, Geza Rohrig é um ator de primeira viagem nas telonas e fez um trabalho tão bom, mas tão bom que está até cotado para uma das vagas para a categoria de Melhor Ator Principal. Se esse não é um filme favorito, eu não sei o que é.

Master of None (NETFLIX, 2015)

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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

À essa altura do campeonato já não é mais segredo para ninguém que a Netflix – A.K.A. empresa que todos nós amamos – não brinca em serviço. Desde que começou a produzir conteúdo original – sejam séries ou filmes, ficcionais ou documentais -, a galera lá buscou sempre atingir novas zonas com narrativas diferentes, sempre ousadas. É assim com House of Cards, Orange is The New Black, Demolidor, BoJack Horseman e por aí vai. Portanto, não é de se espantar que mesmo uma série aparentemente comum abordando um tema aparentemente batido seja (a vida de um grupo de amigos vivendo em Nova Iorque), também, ousada: assim é Master of None, série criada por Aziz Ansari e Alan Yang, ambos vindos da incrivelmente engraçada e inteligente Parks and Recreations.

Em Master of None, Ansari interpreta o papel principal: Dev é um americano-indiano nos seus quase trinta anos que precisa “sobreviver” em um mundo onde tomar decisões é um dos maiores problemas – uma vez que somos constantemente bombardeados com informações, opções, caminhos dos mais diversos, tecnologicamente ou não, e, claramente, com a pressão de escolher corretamente em meio a essa confusão de alternativas (e aplicativos). Como ator, Ansari não é dos mais brilhantes. Dev Shah é uma versão exagerada de si mesmo (que pode ser vista nos stand-ups disponíveis na Netflix e na internet) e uma versão menos insana que Tom Haverford (o ótimo e hilário personagem do descendente de indianos em Parks and Recreation). O maior mérito de Ansari em Master of None é, justamente, na área da escrita.

A criação da série como um todo é, de fato, a grande genialidade da produção. Das mentes de Ansari e Yang surgem os personagens que giram em torno de Dev, divertidos e cativantes, roubando todas as cenas em que aparecem – e são várias, graças aos deuses – e afloram comentários ácidos, irônicos, ora com imenso bom humor, ora com uma comédia bastante afiada sobre os mais variados temas em voga no mundo. Feminismo, amor, filhos, relacionamentos, discriminações raciais, problemas de representação, étnicos e de gênero, nas mídias e na cultura pop, meios dominados por engravatados brancos; um grupo insano de nova-iorquinos pelos quais você acaba gostando mais e mais a cada episódio; uma trilha sonora incrivelmente bem estruturada que vai de Iggy Pop e Lou Reed a Spandau Ballet em questão de segundos; e uma boa dose de drama na medida certa: jogue tudo isso em um caldeirão e você terá Master of None.

A miscelânea de temas abordados e o humor crítico com os quais são atingidos e destrinchados só é tão produtiva por causa dos personagens de Master of None; são eles que vão levando a série para níveis mais altos de qualidade conforme os episódios passam (o episódio sobre o feminismo e os dois últimos são especialmente importantes em relação ao elenco). Contracenando com Ansari temos Nöel Wells como Rachel (interesse amoroso de Dev e de todo mundo porque ela é linda e incrível e demais), Lena Waithe como Denise (A.k.a DeNICE de tão cool que ela é, a personagem que mais rouba as cenas durante toda a temporada), Eric Wareheim como Arnold (o único personagem branco e homem do grupo é o cara estranho do entourage, o que diz bastante sobre a ótima política em defesa da diversidade empreendida por Master of None) e Kelvin Yu como Brian. Esses quatro personagens não são em nenhum momento meros coadjuvantes. São personagens que brilham aos poucos e conquistam seus espaços de formas peculiares.

A estrutura cômico-dramática da série é fundamentada pela ótima direção de Eric Wareheim, do próprio Ansari, James Ponsoldt e Lynn Shelton que conferem, cada um a sua maneira, formas de construção para uma estética própria do seriado, que valoriza longos planos, sem buscar pela montagem mais fácil e padronizado no momento de estabelecer os momentos cômicos. Ainda, a ótima fotografia de Mark Schwartzbard captura Nova Iorque com lentes que ficam à metade do caminho entre a tradição e a estética indie, auxiliando a conferir uma continuidade tanto visual quanto narrativa para a série, apesar do fato de que cada episódio aborda um tema diferente. Ainda, o estabelecimento dessa unidade que liga cada capítulo – além das ligações narrativas naturais, como o tema do relacionamento de Dev e o filme no qual ele está trabalhando, dois assuntos recorrentes durante a temporada – faz com que Master of None consiga atingir uma voz própria – que a coloca como um show independente e que invalida a simplificação de que Master é um Louie para pessoas mais jovens.

É possível assistir Master of None de duas maneiras. A primeira é a maneira despojada: uma boa série para maratonar, episódios rápidos e divertidos, personagens cativantes, trilha sonora incrível, elementos que unidos deixam uma sensação de “quero mais” para a segunda temporada. Já a segunda maneira diz respeito a um modo de ver mais aprofundando, onde se pode estudar cada episódio e cada tema, onde todo um espaço de reflexão de nossas próprias ações se abre. De uma forma ou de outra, ver a primeira temporada de Master of None é, no mínimo, muito cool.

Victor Frankenstein (Paul McGuigan, 2015)

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NOTA: 6,5 / Esperanza Mariano

Acho que 2015 no cinema pode ser resumido como um ano de altas expectativas e muitas decepções no universo cinematográfico. Foram prometidos filmes e adptações magníficos, com trailers e jogadas de marketing que deixaram o público ansioso e cultivando grandes esperanças. Mas, infelizmente, não foram muitos os filmes que cumpriram essas promessas.

Dirigido por  Paul McGuigan, Victor Frankenstein é mais uma adaptação do clássivo livro inglês. Seu diferencial? Contar a  história de Victor (James Mcavoy), e não o monstro que ele criou, a partir do ponto de vista de seu assistente Igor (Daniel Radcliffe). A proposta parece ser interessante e nos primeiros minutos de filme realmente acreditei que fosse funcionar. O relacionamento entre Igor e Victor é bastante convincente: Mcavoy e Radcliffe trabalham muito bem juntos, em uma sincronia satisfatória, que agrada o espectador. Suas atuações também merecem destaque. Para Daniel, nos primeiros 30 minutos de filme. Seu personagem, corcunda, exigia certo esforço físico e ele cumpriu seu papel de maneira quase impecável. E James interpreta o médico louco e obssessivo com facilidade. Sua atuação é um dos pontos altos do filme, mas não demora para a história começar a ficar bagunçada e cheia de inconsistências.

O roteiro de Max Landis começa promissor, mas não demora muito para se tornar confuso e repleto de ideias que não tiveram tempo e atenção suficiente para se desenvolver. Foram jogadas várias informações, mas não senti que alguma delas realmente foi explicada devidamente. O papel de Lorelei (Jessica Brown Findlay), interesse amoroso de Igor, é um tanto quanto desnecessário. E o policial Turpin (Andrew Scott), que tem uma apresentação intrigante, é esquecido em meio a tantas invenções. O desenvolvimento do personagem e sua história não acontece em momento algum.

O destaque do longa vai mesmo para a parte visual, feita com maestria. As imagens chegam a ser hipnotizantes, uma mistura de beleza e horror que deixam o espectador com os olhos vidrados na tela do cinema. Outra estratégia que aparece com frequência, é a mistura de elementos gráficos e ilustrações, técnica também utilizada por McGuigan na adpatação da BCC de Sherlock Holmes. Inclusive, para os que acompanham a série, é impossível não identificar grande semelhança nos dois trabalhos do diretor.

Victor Frankenstein poderia ter sido um filme bacana, mas pecou com inconsistências em seu roteiro e se perdeu na própria grandiosidade e ambição.

 

Oscar 2016: APOSTAS C2M – Divertida Mente (Pete Docter, 2015)

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Este post faz parte do especial Oscar 2016: Apostas C2M para melhor animação. 

NOTA: 10 / Por Caio César

Durante algum tempo, Renato e eu discutimos sobre o sistema que iríamos usar neste site para conferir notas aos filmes dos quais fizéssemos resenhas. Decidimos então usar números de 1 a 10, e não estrelas, como a maior parte dos sites que acompanhamos. Desde então, não tive a oportunidade (quiçá jamais terei) de dar 0 para alguma produção. Mas eis que para este Inside Out (no original) me vejo obrigado a empregar a nota máxima.

Há muito uma animação não me tocava tanto. Talvez este gap tenha uma data: desde Toy Story 3, também da Pixar, um dos maiores filmes do ano em que foi lançado. Desde então, a empresa que era conhecida por jamais entregar projetos menos que ótimos, deu umas vaciladas com os insossos Carros 2, Valente e Universidade Monstros (gente, me doi falar isso porque eu sou o maior fã do filme original, mas esse é beeeem chatinho).

Eis que, quando tudo parecia perdido, surge este Divertida Mente! E tudo é sensacional. A começar pelo roteiro, escrito por Pete Docter e mais dois colaboradores, que é uma mistura de ideia mais que original com conceitos da psicologia que juntos resultam em um diálogo íntimo e mais que tocante para o espectador. A história em si é bem simples. Riley é uma menina que se vê obrigada à mudar de sua casa e cidade natal para acompanhar a trajetória profissional dos pais.

Poderia ser um filme normal de amadurecimento, mas nós somos levados para dentro da mente da garotinha, onde conhecemos as suas emoções – seres com personalidades que controlam toda a engenharia sentimental da mocinha. São eles: Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva. Quando algo dá errado, Alegria e Tristeza terão de consertar o que causaram antes que todos os sentimentos de Riley fiquem comprometidos.

Uma grande fábula sobre autoconhecimento e personalidade, o filme é, além de tudo, visualmente deslumbrante. Em uma das sequências, uma das mais ousadas da história do estúdio, os personagens sofrem mudanças em suas estruturas corporais – assumindo formas inspiradas por diversas vertentes do mundo da arte. O design dos cenários também é muito eficaz em sua estratégia de fazer tudo parecer um grande sonho.

E se nos aspectos técnicos tudo em Divertida Mente é sensacional, é quando o filme para investir no drama interno da personagem que todos os espectadores são fisgados. E não tem como não falar do personagem Bing Bong, amigo imaginário de Riley quando menor, que vive esquecido nos cantos de sua mente, mas que ainda mantém seu amor por sua melhor amiga. Todas as cenas do elefante são sensacionais, culminando em um clímax de fazer vergonha à muitos filmes live-action por aí.

Um dos melhores filmes do ano, Divertida Mente é, sem dúvida nenhuma, o vencedor da categoria no Oscar 2016. Difícil será para a Pixar continuar no embalo com a próxima estreia: “O Bom Dinossauro”. Até lá, vamos nos relembrando da genialidade do estúdio que fez parte da nossa infância, mas que ainda agora insiste em nos fazer lembrar que crescer é uma tarefa difícil demais para ser encarada sozinho. Sempre precisaremos descansar com um pouco de Pixar.

OSCAR 2016: APOSTAS C2M – Anomalisa (Charlie Kaufman e Duke Johnson, 2015)

anomalisa

 

Este post faz parte do especial Oscar 2016: Apostas C2M para melhor animação. 

NOTA: 8 / Renato Furtado

Senhoras e senhores, Charlie Kaufman está de volta. Sete anos após realizar seu primeiro filme como diretor e sexto como escritor, nos dando o maravilhosamente esquisito e o loucamente bonito Sinédoque, Nova Iorque, neste ano ele retorna em um caminho diferente mas com a mesma mente alucinada e genial de sempre: Anomalisa, uma peculiar (sério? não diga, é um filme do Kaufman, só pode ser peculiar), divertida, inquietante e densa animação dirigida em parceria com o estreante Duke Johnson. Indicado ao Leão de Ouro e vencedor do Prêmio do Júri em Veneza, Anomalisa conta a história de Michael Stone, um palestrante motivacional desmotivado especialista na área de serviço de atendimento ao cliente. Por ser inglês, Stone é um peixe fora d’água por natureza na cidade de Cincinatti e o constante estado de espírito deprimido dele não o ajuda muito. Mas, quando tudo parece ser igual (quando todos os rostos e vozes parecem ser iguais), Stone encontra uma pessoa nova que pode iluminar o seu mundo: Lisa.

Uma sinopse curta para um filme curto (Anomalisa tem uma hora e meia de duração) é também, neste caso específico, usar poucas palavras e, portanto, dizer muito pouco sobre um filme rápido que pode ter muito a dizer em cada canto de suas pequenas esquisitices e momentos cômicos e nervosismos e trejeitos – ainda que o próprio filme afirme que não exista necessariamente uma mensagem. Menor em escopo mas quase igual em ambição se comparado à Sinédoque, Nova Iorque, Anomalisa é uma animação (aliás, vale notar que a escolha pela animação em stop-motion foi perfeita; o formato é ótimo para narrar essa peculiar trama) que não esconde nada, mas que também não dá pistas fáceis.

É preciso desvendar aos poucos o caminho de Stone durante sua estadia na cidade de Cincinatti e ver além dos momentos cômicos do filme (que, apesar de inúmeros, não chegam a qualificar o filme como uma comédia propriamente dita) para arranhar alguma superfície desse filme. A densidade de Anomalisa é grande pois o filme, simplesmente, almeja falar sobre a vida e sobre o amor; em resumo, sobre o ser humano atual. Mas acalmem-se, não se assustem: a narrativa de Anomalisa é dinâmica o suficiente para não deixar ninguém impaciente com o andamento do filme.

Quanto mais tempo passamos diante de uma obra de Charlie Kaufman, menos entendemos e mais queremos entender, mais queremos perceber. Aqui, a história (aparentemente) simples de um homem desgostoso com a vida já parece ter sido contada inúmeras vezes; contudo, tanto as atuações (Anomalisa é brilhantemente dublado por David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan) quanto o roteiro (baseado em uma peça de Kaufman), a direção, a fotografia e a trilha sonora nos apresentam o algo a mais e, no caso, esse “algo a mais” é o fantástico.

Os temas de Kaufman são tão reais e tão presentes em nossas vidas que o tamanho disso tudo parece ser tratável apenas como aquilo que escapa à nossa percepção, aquilo que supera nossos entendimentos. É assim desde Quero Ser John Malkovich; é assim em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças; e é assim aqui. Kaufman opera no território do realismo mágico para narrar coisas, eventos e, acima de tudo, sentimentos que são mais do que realistas, mas que, justamente por serem tão realistas, só podem ser vistas sob o olhar da mente, da imaginação, sob a ótica da fantasia: truque de gênio, emprestado da literatura, evidentemente.

Tendo dito tudo isto, repito: Anomalisa é universal, mas não é filme fácil. Sem os toques de Jonze ou de Gondry – dois cineastas bem mais populares, ainda que não muito populares – dirigindo seus roteiros, as narrativas de Kaufman perdem um pouco de apelo com o público em geral, é verdade. Foi assim com Sinédoque, Nova Iorque e eu imagino que será assim com esse novo filme.

No entanto, a verdade é que a partir do momento em que começou a dirigir seus próprios escritos (em Anomalisa ele tem a companhia na direção do estreante em longas, Duke Johnson), colocando em prática toda completude de sua visão ao deter a maior parte do controle sobre sua narrativa, Kaufman achou uma nova rota e se colocou no mesmo jogo de sempre usando suas próprias regras, de fato, pela primeira vez. Com sensibilidade, humor, realidade e fantasia, Kaufman nos apresenta a Vida (ou, pelo menos, sua visão sobre ela), tão estranha, tão grande – ora maravilhosa e ora cruel – e tão direta do jeito que só a Vida sabe ser.

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