Dheepan

NOTA: 7 / Renato Furtado

Os tenebrosos tempos de guerra dão margem a todo tipo de acontecimento estranho e inesperado entre os seres humanos porque vidas são testadas no limite e na margem da própria existência em si. Por exemplo, as pessoas se unem e se inserem em alianças improváveis, só possíveis por causa da guerra e do combate. Esse é o caso de três cingaleses (ou seja, nascidos no Sri Lanka) ex-guerrilheiro, de uma mulher e de uma jovem órfã, três pessoas que nunca se viram antes e que precisam assumir as identidades de uma família para ter a chance de sair do contexto sangrento da guerra civil do Sri Lanka e buscar um novo futuro e uma nova vida na Europa. É assim que nascem Dheepan, Yalini e Illayaal, esse improvável trio que surge como o trio de protagonistas da narrativa de Dheepan: O Refúgio, filme do diretor francês Jacques Audiard, ganhador da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes desse ano.

Acompanhamos a saída de Dheepan e sua “família” do Sri Lanka e a chegada dos três à França, instalando-se logo em um bairro afastado do centro de Paris chamado Le Pré, que significa algo como pasto ou algo assim segundo o dicionário de Dheepan e que, na realidade, é um lugar super barra pesada, comandado e infestado por um bando de criminosos pertencentes a gangues perigosas. Ou seja, da frigideira direto para o fogueira, onde nenhum lugar parece ser seguro o suficiente para esses três. No entanto, eles seguem com a vida deles e Dheepan é contratado como zelador de um dos conjuntos habitacionais da região, buscando integrar-se à comunidade. Quando tudo parece ir bem, os problemas começam a vir à tona.

Antes de mais nada, vou começar pela parte mais chamativa: a Palma de Ouro. Não, esse filme realmente não é digno do tamanho da Palma de Ouro – assim como Azul é a Cor Mais Quente não merecia o prêmio. Claro que entrar no mérito do merecimento de um filme perante um prêmio é algo arriscado e que precisa de um longo tempo de debate – que, no fim das contas, provavelmente se provará infrutífero. Mas, nessa altura do campeonato, creio que seja um tópico importante para demonstrar que considero esse filme ligeiramente superestimado. Não é que Dheepan não seja um bom filme; de fato é.

Possui uma boa direção e um roteiro bem construído que permite Audiard realizar um estudo de personagens bom e aprofundado, um elenco talentoso que interpreta os seus papeis com competência e sensibilidade, criando personagens críveis e com os quais nos identificamos, além de tratar de um dos temas mais importantes da atualidade (a questão dos refugiados e dos imigrantes). Mas, no fim das contas, esses méritos não são suficientes para colocar o filme em um patamar de Palma de Ouro. No geral, Dheepan: O Refúgio é um bom filme (mesmo apresentando muitas pontas soltas e algumas subtramas interessantes não desenvolvidas e quase esquecidas) e uma boa prova de que Audiard é uma das vozes mais interessantes do cinema mundial atual, ainda que seu mais recente esforço cinematográfico não tenha a mesma qualidade dos anteriores.

Anúncios