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#FALARENATO

NOTA: 7 / Renato Furtado

Quando Sam Mendes foi anunciado como o novo diretor dos filmes de James Bond, ninguém, à época, poderia sequer imaginar o que aconteceria. Mendes, cineasta respeitado de filmes incríveis como Beleza Americana (um dos meus favoritos de todos os tempos) e Estrada para a Perdição, entraria em terreno novo em sua carreira: os filmes de ação. Os fãs e a comunidade de espectadores e críticos cinematográficos em geral, veriam, pela primeira vez, um diretor de verdade, não os caras pés-de-chinelo que filmaram os antigos James Bonds conhecido por filmes de peso comandando uma nova entrada da saga James Bond. Em meio às incertezas e algumas baixas expectativas, surgiu Skyfall, um verdadeiro tiro na cara dos haters filme dramático de espionagem de altíssima qualidade, com uma grande atuação de Daniel Craig e uma das melhores atuações da carreira (e, obviamente, daquele distante ano de 2012) do magnífico Javier Bardem. Tinha um roteiro ótimo, uma música incrível da igualmente incrível Adele e o belíssimo toque do deus da fotografia, Roger Deakins.

O grande sucesso do filme começou a atrair nomes de peso para a sequência, 007 Contra Spectre – que coloca James Bond para finalmente enfrentar os demônios de seu passado cara a cara, além de lutar contra uma perigosa, brutal e cruel organização secreta que dá nome ao filme. Logo foram confirmados Christoph Waltz como vilão principal, o retorno de Ralph Fiennes e dos novos nomes que surgiram na franquia 007 em Skyfall e a adição de Léa Seydoux e Monica Bellucci. Sam Smith, um dos músicos mais requisitados e prestigiados da atualidade, foi chamado para criar a música-tema. Sam Mendes retornou, a equipe de roteiristas de Skyfall retornou e Deakins foi substituído pelo excelente fotógrafo Hoyte Van Hoytema (responsável pela fotografia de Ela e Interstelar, por exemplo). E aí, deu tudo certo, não é mesmo, Renato? Eu respondo para vocês: não, não deu tudo certo mesmo.

Apesar de todos os nomes, currículos e credenciais envolvidos no projeto, 007 Contra Spectre falha por um simples motivo: por retornar às raízes. Todo o progresso feito em Skyfall – onde vemos a franquia 007 ganhar, pela primeira vez, uma profundidade dramática de verdade, um roteiro respeitável, com pouquíssimas falhas e zero cenas viajadas de ação, uma direção competente e um James Bond muito mais humano e gentleman com as mulheres – é desfeito em Spectre. O drama bem construído foi para o espaço, as cenas viajadas de ação voltam a tomar conta (me fazendo lembrar dos anos tenebrosos de Pierce Brosnan no papel principal) e Bond volta a ser só mais um cara que, no fundo, no fundo, realmente não respeita muito as mulheres (a relação dele com a personagem de Seydoux é terrível e os dois começam a se amar com a mesma velocidade que as coisas acontecem em filmes pornô), seduzindo e usando-as ao seu bel prazer.

Contudo, porém, entretanto, todavia, 007 Contra Spectre não é só falhas; o filme tem, obviamente, seus méritos. O plano sequência-inicial e todo o primeiro ato do filme (que funciona quase como uma introdução, uma ótima sequência de ação para ser colocada na categoria de melhores cenas de ação do ano, sem dúvidas), passado no México, são realmente muito, muito bons – demonstrando que Mendes e Hoytema poderiam ter feito um filme muito melhor do que fizeram em relação à construção das imagens. Quando o filme vai para Roma, as coisas ainda vão bem e ainda animam público o suficiente (novamente com boas cenas de ação, principalmente a perseguição de carro à beira do Rio Tibre). No entanto, assim que pisamos em Londres com James Bond, as coisas degringolam.

Concluindo: no fim das contas, descontando algumas coisas e alguns pontos bem estranhos no roteiro e apesar dos pesares, 007 Contra Spectre diverte e entretém (a mim, me irritou mais do que outra coisa e eu, sinceramente, prefiro rever Missão Impossível 5 que faz muito melhor todo o lance de organização secreta e tem um personagem bem mais divertido em Ethan Hunt do que em James Bond), mas é um retorno aos tempos onde as coisas eram muito um pouco desorganizadas lá na Terra da Rainha.

#FALA CAIO

NOTA: 8 / Caio César

Existe uma forte corrente em Hollywood que prega que, para um filme ter uma relevância maior do que o status de puro entretenimento, ele precisa ser sombrio, lidar com dramas pessoais e envolver uma jornada de crescimento pessoal do seu heroi. Lembre-se, por exemplo, da trilogia Batman, de Christopher Nolan, do novo Homem de Aço, de Zack Snyder, ou sim… de 007 – Skyfall, de Sam Mendes. Todos esses são pautados por essa máxima. A questão principal é saber adequar a sobriedade do tom dos filmes às características de cada personagem para extrair dele o melhor resultado. Por favor, Spectre não é um filme ruim. Longe disso. Mas os avanços vistos na aventura anterior de James Bond não encontram eco no novo longa.

Embora seja o caminho comum, comparar este filme à Skyfall não é um erro. Assim, é possível confirmar que falta a carga dramática da entrada anterior do espião nos cinemas. Daniel Craig permanece um baita ator de ação e um competente Bond, mas a carga dramática de seu personagem jamais é assimilada pelo espectador como foi em 2012. A começar pela própria música-tema, uma balada sem sal e com muito açúcar cantada pelo ótimo, mas aqui ineficiente, Sam Smith. E se o drama do agente secreto nunca empolga, suas relações amorosas muito menos. Aqui, ambas as “bond girls” não tem qualquer função no roteiro e o seu romance com a personagem de Léa Seydoux é forçado guela abaixo do espectador.

O que justifica então a nota alta desta resenha? Embora com erros de roteiro, um vilão pouco ameaçador por mais que se auto intitule o dono de toda a dor de bond, jamais vemos ele levantar a mão pra ele, e um encerramento burocrático, o filme continua divertido. Sam Mendes de volta à direção, confere uma incomum classe para longas de ação – não que seja uma novidade, dado o seu tratamento com o longa anterior. Principalmente os quinze primeiros minutos são de tirar o fôlego. Lindo e muito bem fotografado, o filme parece gastar cada centavo do seu orçamento estimado em U$ 300 milhões para desbancar todos blockbusters do ano nos quesitos técnicos.

No fim das contas, 007 Contra Spectre precisará lutar no cinema não só contra os seus erros, que nunca chegam a prejudicar a experiência cinematográfica do filme, mas também contra a grande expectativa criada pelo buzz gerado pelas notícias de que este seria o último filme de Daniel Craig como Bond. Além disso, a expectativa de qualquer fã após um filme como Skyfall estará nas alturas.  Diversão de qualidade e assunto pra discussões com amigos cinéfilos você terá. Spectre é um 007 clássico, travestido de mundo real.

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