45

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Uma planície tão plana quanto uma folha de papel. É – mais ou menos – assim que Kate (Charlotte Rampling) define os arredores de sua casa para o seu marido, Geoff (Tom Courtenay). Na pradaria, Kate passeia com o cachorro do casal, Max, faz seus exercícios e segue a rotina de uma vida pacata, retornando a casa para mais um dia com o homem com o qual está casada há 45 anos (opa, olha o título do filme aí), que serão comemorados em alguns dias. Contudo, em um dia que parece ser como outro qualquer, Kate entra em casa e descobre que Geoff recebeu uma carta que o faz lembrar de um passado que mostra que os planos campos contem um pouco mais do que o vasto horizonte enevoado da Inglaterra. Esse é 45 Anos, ótimo filme do inglês Andrew Haigh.

Construído lentamente com o auxílio de planos longos, 45 Anos possui uma estrutura realista que nos leva quase para assistir a uma peça de teatro passada em sete dias. Desde a segunda, dia em que Geoff recebe a carta até o sábado, data da comemoração dos 45 anos de casamento, acompanhamos a intimidade do casal como se estivéssemos presentes nos cômodos da casa, perto deles, ansiosos por desvendar cada vez mais as personalidades desses dois seres humanos. Buscando sempre os melhores planos para favorecer a emoção de seus personagens sem soar cafona e apoiado em um roteiro bem escrito que empresta muitas estratégias literárias (principalmente nos diálogos), Haigh monta (o inglês começou sua carreira como assistente de montagem em Gladiador, de Ridley Scott) 45 Anos com grande inteligência e paciência o suficiente para nos conquistar, apesar da dinâmica (aparentemente) lenta do filme. Seu grande trunfo, porém, é o seu pequeno, mas mais do que suficiente, elenco.

Enquanto o veterano Tom Courtenay – duas vezes indicado ao Oscar por seu papel em Doutor Jivago e em O Fiel Camareiro – cria um sedutor e (apesar dos pesares) cativante personagem assombrado pelos fantasmas do passado, vivendo em um estado mental completamente dissociado da temporalidade presente ocupada por seu corpo, o filme é, sem dúvidas, todo de Charlotte Rampling. 45 Anos só é tão bom porque Rampling é verdadeiramente destruidora. Ancorado na personagem de Kate Mercer, a narrativa ganha sempre um novo peso, uma nova camada, um novo valor, uma nova tonalidade a cada vez que andamos lado a lado com essa mulher. O tipo de interpretação de Rampling é aquele tipo de atuação forte e milimetricamente planejada bem o suficiente para que cada olhar e cada gesto nos coloque não só na presença da personagem, mas também diretamente em seus pensamentos e em suas memórias, quase como em um livro, exercitando e estimulando nossos olhos e nossa mente. Rampling deve (e merece enormemente) ganhar, ao menos, uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Principal nessa próxima edição.

Contando com um projeto de fotografia realista e com uma trilha sonora que faz um bom uso dos elementos presentes em cena (o tique-taque de relógios, o badalar de sinos, o latido do cachorro, o ruído de um projetor de slides no sótão) como forma de incrementar os sentimentos transmitidos pelas interpretações de Courtenay e Rampling, 45 Anos é um filme verdadeiramente bom, que possui uma trama bem construída, duas performances maravilhosas, uma direção competente e sensível e uma cena final de tirar o fôlego – sim, até tirar o fôlego esse filme “tranquilo” consegue.

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