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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Segundo o mestre Jorge Luis Borges, o livro O Coração das Trevas, do britânico Joseph Conrad, é o relato mais intenso já concebido pela imaginação humana. Escrito em 1902, o livro serviu de inspiração, mais de setenta anos depois, para o clássico de Coppola, Apocalypse Now, uma narrativa intensa, crua, sombria e magistral que levou o coração das trevas do continente africano (como Conrad escreveu) para o continente asiático, contando a história da Guerra do Vietnã – de toda as guerras em si, na realidade – e dos humanos nela envolvidos. O motivo pelo qual introduzo Beasts of No Nation – baseado no romance de Uzodinma Iweala, produzido, dirigido, escrito e fotografado pelo excelente Cary Joji Fukunaga e estrelado por Idris Elba – dessa maneira é para afirmar que o coração das trevas retornou à África.

O jovem Agu (o estreante Abraham Attah) vive no complexo contexto das guerras civis que assolam o interior do continente africano e os combates e batalhas aproximam-se cada vez mais de sua realidade; logo, Agu é brutalmente separado de sua mãe e de sua irmã mais nova e, em seguida, de seu pai e de seu irmão mais velho. O rapaz consegue fugir da guerra para a mata, mas a guerra o encontra novamente, personificada na imagem poderosa do Comandante (Idris Elba), homem que oferece apenas uma saída à Agu: juntar-se à guerrilha. Morte a morte, bala a bala, sangue a sangue, acompanhamos a jornada de Agu, lado a lado, com esse menino que se transforma em um verdadeiro predador, uma besta da selva.

Outra razão pela qual comecei este texto através da literatura é que há um inegável componente literário presente em toda a narrativa de Beasts of No Nation. Ao contrário da grande maioria das produções, Beasts não é, exatamente, um filme realista. A fantasia literária marca presença neste filme justamente através do “sobrenatural”, das sensações e acontecimentos que parecem ser maiores do que nossos entendimentos e nossas consciências podem apreender, no caso, da guerra, da violência, das trevas. Através de lentes confiantes e um pulso firme para dirigir seu próprio roteiro, Fukunaga sabe exatamente o que fazer: o controle total que o cineasta possui aqui é marcante, conferindo uma intensa característica autoral à história de Agu, tendo plena consciência de onde colocar seus atores, como iluminá-los e que sentimento tirar de cada sequência – e, normalmente, ainda conseguindo nos arrancar o fôlego.

A realidade é que ver Beasts of No Nation, um filme, sobretudo, vindo da imaginação e da fantasia – a linda cena da televisão logo no início não me deixa mentir – é como um ler um livro que captura nossa atenção, não deixando nossos olhos procurarem qualquer outra coisa que não a próxima cena e a próxima cena e por aí vai, guiados pela narração de Agu, que compartilha seus sentimentos e pensamentos conosco em instantes-chave da película. É crucial falar sobre esse jovem personagem. O estreante Abraham Attah (vencedor do prêmio de atuação Marcello Mastroiani, em Veneza e cotado para o Oscar de Melhor Ator Principal na próxima edição) coloca tanta emoção nesse jovem guerreiro que é quase impossível não se emocionar com Agu; Attah é uma verdadeira força da natureza, um espírito da floresta, nos concedendo uma atuação tão poderosa, fantástica, imaginativa e com enorme potencial quanto Quvenzhané Wallis (meu deus, esse nome é impossível de escrever, só no control c control v mesmo), interpretação que Dan Romer, o compositor da trilha sonora tanto das bestas sem nação quanto das bestas do southern wild, ajuda a construir com toques ora delicados e ora epicamente cruéis.

O contrapeso da inocência roubada de Agu é, justamente, o homem que ajuda a roubar sua inocência, retirando-o do mágico mundo das crianças. Assim que Idris Elba (também cotado para o Oscar, em seu caso de Melhor Ator Coadjuvante) entra em cena, saído das profundezas da selva como o implacável e quase mítico Comandante, percebemos que estamos diante de uma atuação brilhante. Desde a sua maneira de andar até o jeito como fala, Elba transmite o perigo e o horror da guerra em cada gesto e em cada ação seus, movimentando-se como um verdadeiro deus da violência, um ser mitológico e fantástico que habita não só o coração da selva, como o coração das trevas. Sua atuação é perfeita para esse papel e para essa narrativa pois Beasts of No Nation é um filme que trata mais da fé do que da guerra.

Ainda que o combate e a guerrilha sejam o assunto principal, a religiosidade e a fé estão presentes em cada cena, correndo subterrâneas durante toda a trama. Enquanto Agu conversa com seu Deus, os rituais e códigos das religiões africanas são cruciais para entender não só o bando liderado pelo Comandante (cuja cerimônia de iniciação envolve um ritual, uma das melhores sequência de todo o filme), como também o próprio líder, uma figura que funciona quase como um ídolo divino para todas as bestas sem nação que comanda e inspira com seus discursos e com seus cânticos e rituais de guerra, convocando os espíritos da floresta para acompanhar seus guerreiros.

Como um verdadeiro e potente filme de guerra que é, Beasts of No Nation não é um filme para todos os estômagos. Ainda que a violência visual esteja presente, esta não é tão marcante e nem tão aparente quanto a violência psicológica, a violência subliminar a qual os seres humanos são submetidos em tempos como esses, tão pesados e dramáticos que só podem ser contados da forma como foram contados com o talento que esse filme reúne, capitaneados por Cary Joji Fukunaga (também diretor do ótimo Sin Nombre e da maravilhosamente genial primeira temporada de True Detective), um diretor que cada vez mais prova que é o cineasta perfeito para contar histórias hipnotizantes, reais e fantásticas, tudo ao mesmo tempo.

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