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Renato Furtado

Assim que a Netflix passou de empresa de aluguel de dvds e blu-rays para gigante do streaming, ficou fácil perceber o objetivo da empresa que todos nós amamos: dominar o mundo – pelo menos o do entretenimento. Logo, vieram as séries originais como House of Cards (reunindo os talentos estelares de David Fincher, Kevin Spacey, Robin Wright e Beau Willimon), Orange is the New Black e a recente Narcos: séries extremamente conceituadas e premiadas em diversos festivais e premiações. Em seguida, veio a primeira indicação ao Oscar e o primeiro filme original Netflix: o incrível documentário A Praça Tahir, sobre a primavera árabe. Além de continuar produzindo documentários originais (o indicado ao Oscar, Virunga e ótimo What Happened Miss Simone?, por exemplo), o próximo grande passo da empresa foi assinar um contrato de parceria com a toda poderosa Marvel, que deu origem a mais uma série incrivelmente incrível (Demolidor) e uma que parece ser igualmente incrível (Jessica Jones). Mas, eles não pararam por aí e, mais cedo neste ano, anunciaram seu primeiro filme de ficção original: Beasts of No Nation, de Cary Joji Fukunaga (leia nossa resenha aqui).

A primeira reação (e a segunda e a terceira e etc.) do mundo do cinema foi entrar em pânico. As majors (os grandes estúdios) e, principalmente, as grandes cadeias de cinema começaram, quase imediatamente, com o mimimi, com o medinho, com a típica atitude reacionária e conservadora: boicotar o lançamento de Beasts of No Nation. O motivo? Diminuir o impacto do lançamento mundial em streaming do filme para todos os usuários da Netflix assistirem quando, como e onde quiserem, sem ter que pagar nada mais por isso. Os dias antes do lançamento – 16 de outubro – foram tensos e repletos de ansiedade: fora das grandes redes de exibição, a Netflix fechou parceria com cadeias pequenas e independentes de cinema para colocar o filme nas telonas (com o objetivo de tornar o filme elegível para o Oscar, segundo as regras da Academia). Com todos os territórios cobertos da melhor maneira possível pela empresa que todos nós amamos, o dia 16 chegou e Beasts of No Nation foi lançado mundialmente via Netflix.

Como de costume, a Netflix não liberou os dados de audiência do filme, muito bem falado nas redes sociais e pelos críticos, que viram o filme nos festivais por onde a película passou durante o ano. Dez dias se passaram e, de repente, Ted Sarandos, líder supremo da Netflix, liberou os dados: segundo os cálculos de sua equipe, mais de três milhões de pessoas assistiram ao filme nesse período, um número realmente impressionante que, segundo Sarandos, surpreendeu as próprias projeções e expectativas da Netflix como um todo. Mas, vamos ao que interessa: depois dessa aula de história toda, a pergunta que fica é o que significa o lançamento de um filme original Netflix?

A resposta simples é: uma penca de coisas. A resposta complicada é enorme e não cabe em um único post. Portanto, vamos tentar achar um meio-termo e chegar à resposta mais ou menos de boas, mais ou menos complexa que é: o jogo está mudando. Nos meses seguintes ao anúncio da compra de Beasts of No Nation, a Netflix anunciou quatro produções com Adam Sandler (Ridiculous Six sai em dezembro dese ano), um filme de guerra com Brad Pitt e mais alguns filmes com Eddie Murphy. O que todos esses nomes tem em comum é que são nomes de peso, extremamente famosos na indústria cinematográfica que, simplesmente, deixaram a indústria cinematográfica, ainda que temporariamente. Isso é um fator claro de que as regras que valiam anteriormente não valem mais hoje em dia. O argumento principal para o funcionamento da Netflix é a liberdade que os seus assinantes possuem de poder assistir o que quiserem, quando, onde e como quiserem, como já dito anteriormente. Levando filmes originais para seus consumidores, isso significa que as pessoas não precisam mais sair de casa para ver filmes inéditos e de altíssima qualidade: em alguns toques de controle, elas tem tudo isso e mais um pouco.

Obviamente, isso faz com que os chefões dos grandes estúdios (tanto de cinema quanto de tv) comecem a arrancar seus cabelos. Não é como se as pessoas começassem a parar de ir ao cinema de repente, mas o número de assinantes Netflix (e de outros sistemas de streaming e on demand) crescem cada vez mais. O que há de pior para um executivo, um chefão, um tubarão financeiro, um xeique das Arábias é a mudança: os espíritos conservadores simplesmente não aguentam mudanças porque mudanças tiram o controle das mãos desses humanos, compulsivos controladores por natureza. Além disso, é comum supor que mudanças significam que o dinheiro desviou-se do seu caminho tradicional. No caso, esse dinheiro que antes seguia fielmente um único caminho, agora começa a querer caminhar por outros lados: o do streaming e o da Netflix.

Nada disso quer dizer, é claro, que os cinemas vão morrer – nem que os grandes estúdios parem de fazer dinheiro; isso não vai acontecer. Acho quase impossível que os cinemas morram (talvez só daqui a muuuuuito tempo); os livros ainda estão por aí, guardadas as devidas proporções. Mas, o aparecimento de filmes originais produzidos pela Netflix transforma o status da empresa e a realoca para o setor e para o alto nível de jogo dos grandes estúdios, o que obriga os seus concorrentes, tanto na internet quanto na indústria tradicional, a começarem a levar seus jogos para competir com a ascensão vertiginosa da Netflix. Eu não quero (na verdade quero sim, quero ver o circo pegar fogo) nem ver o pânico que vai dar nos estúdios quando a Netflix lançar um filme universal que será um verdadeiro estouro (talvez o filme do Brad Pitt ou as comédias do Adam Sandler, já que Beasts of No Nation é um filme definitivamente não recomendado para todos os públicos) ou quando a empresa que todos nós amamos ganhar um Oscar (que pode vir a acontecer com Beasts).

Não vou entrar no mérito dos contras do sistema Netflix e como, na verdade na verdade, o que a empresa que todos nós amamos não é uma revolução de fato em relação aos consumidores e na indústria (até porque o domínio que ela começa a exercer assemelha-se ao modelo industrial dos grandes estúdios); mas eu vou, sim, entrar no mérito de que as coisas no mundo do cinema serão bem diferentes (só a história nos dirá, como sempre, se serão melhores ou piores) daqui pra frente – e, espero, que isso se traduza no aumento da produção de filmes incríveis, com o selo de qualidade da Netflix.

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