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NOTA: 8 / Renato Furtado

Todos aqueles que gostam de filmes e histórias policiais conhecem, ainda que pouco, a enevoada e perigosa cidade de Boston, com céus constantemente nublado e suas ruas constantemente sangrentas. Das incríveis narrativas policiais (muitas delas adaptadas para o cinema, como Sobre Meninos e Lobos) de Dennis Lehane, mestre contemporâneo da ficção policial aos ótimos trabalhos de Ben Affleck na direção (que incluem Medo da Verdade, adaptação de um romance de Lehane e Atração Perigosa), Boston é uma cidade que sempre atraiu os olhares dos americanos e do mundo, lar de uma grande afluência de imigrantes que deram origem a notórias e cruéis gangues de italianos e irlandeses, por exemplo, que tomaram os bairros locais. É nesse contexto que surge o crimelord, James “Whitey” Bulger, um dos criminosos mais procurados de todos os tempos da história do FBI e objeto de estudo do novo filme do bom diretor Scott Cooper (responsável pelos ótimos Tudo por Justiça e Coração Louco), Aliança do Crime.

A cinebiografia de Bulger, no entanto, é muito mais sobre o mito do que sobre o homem; tratando-se de uma figura tão notória e crucial para os Estados Unidos no século vinte, não poderia ser diferente. A foto que ilustra essa resenha não foi escolhida em vão e prova esse ponto: Bulger não era um homem comum; era um fantasma, um espírito violento, um ser diferente, um demônio andando intacto e implacável pelas ruas do sul de Boston, representado em Aliança do Crime como um personagem psicótico – essa risada não me deixa mentir -, diabólico com seus olhos azuis sem vida, mas constantemente atentos e ferozes e sua pele pálida e fantasmagórica. Entra aí o talento de Cooper com o auxílio do talentoso fotógrafo japonês, Masanobu Takayanagi: para enquadrar tal personagem, é necessário ter grande habilidade e saber construir imagens com consciência e domínio total do objetivo a ser alcançado. Daí, surge um projeto de iluminação que não só enaltece Bulger, como também eleva Boston ao estado de cidade quase fantástica.

Além disso, a incrível trilha sonora de Tom Holkenborg/Junkie XL, toda construída em tons fúnebres e tensos (perfeitos para uma missa negra), prepara o terreno para que os personagens coadjuvantes do filme – quase como mariposas voando em direção à luz, fatalmente atraídas pelo calor mortal – brilhem nos instantes específicos onde devem brilhar. No elenco de apoio temos Joel Edgerton interpretando incrivelmente o agente do FBI, John Connoly, conferindo tons e camadas muito bem trabalhados para um personagem muito complexo (com sorte e com uma campanha beeem forte, Edgerton pode até ser indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).

Completando o time temos um capanga específico de Bulger, Kevin Weeks interpretado pelo ator em ascensão, Jesse Plemons (ele estrela a incrível segunda temporada de Fargo), o irmão de Bulger, Billy, um político importante do sul de Boston, é trazido à vida pelo magnífico Benedict Cumberbatch e como a namorada do mafioso temos uma boa interpetação de Dakota Johnson, que mostra que pode mostrar muito mais do que a franquia Cinquenta Tons de Cinza exige dela – que é ser, basicamente, uma personagem terrível e criada em um estado de diarreia mental por parte da criadora. Além desses nomes temos Kevin Bacon, Adam Scott, Corey Stoll, Peter Sarsgaard, Rory Cochrane, Juno Temple… Tá bom ou vocês querem mais?

O melhor ficou por último, é evidente. Para trazer esse personagem à vida, o líder da missa negra, você precisa ter um ator genial: nada mais e nada menos do que isso. Esse ator é Johnny Depp (sim, para aqueles que estão ouvindo falar desse filme agora, o homem na foto é Johnny Depp). Totalmente hipnotizante, a performance de Depp é, sem dúvidas, uma das melhores do ano e seu Bulger já está inscrito bem perto do topo na lista dos melhores gângsters da história do cinema justamente por ser a epítome, a síntese do que um gângster frio e cruel e violento e lendário deve ser. Ressurgindo das cinzas (queimado, em grande parte, por uma onda de críticos que buscou, nos últimos anos, apenas detonar os trabalhos de Depp que nem de longe foram tão ruins quanto os “especialistas” afirmaram), Depp demonstra que é um dos melhores atores de sua geração e um dos melhores atores trabalhando atualmente na indústria. Seu trabalho é magnético, pulsante: ele brilha em todos os momentos em que está em cena e, principalmente, quando Cooper dá espaço o suficiente para que o ator faça sua mágica, especialmente em planos longos e cheios de tensão (a competente montagem de David Rosenbloom ajuda bastante), onde os sorrisos assombrosos e os diálogos afiados de Bulger são como verdadeiras balas tão perigosas quanto os projéteis que voam neste filme.

Aliança do Crime é, sem sombra de dúvidas, um verdadeiro e clássico filme de gângsters. Com isso, quero dizer: não vá esperando presenciar muita ação como nos filmes de espionagem de James Bond ou de Missão Impossível. Vá, no entanto, esperando ver um profundo estudo de personagem, um filme tenso que prende a atenção de seus espectadores, um ótimo thriller, um dos melhores desse ano sem dúvidas, uma narrativa criminal que deve render algumas indicações ao Oscar (Depp tem grandes chances de ser indicado na categoria de Melhor Ator Principal e Holkenborg pode acabar ganhando uma indicação para Melhor Trilha Sonora) e que coloca, definitivamente, a cidade de Boston e Bulger nos altos escalões da história do cinema policial.

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