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NOTA: 8 / Renato Furtado

Alguns filmes surpreendem a gente, seja positiva ou negativamente. Normalmente, é quando vamos com baixas expectativas (ou altas expectativas) ou quando vamos esperando ver uma coisa que o filme acaba não nos oferecendo em momento algum. É complicado quando a surpresa é ruim, quando aquele filme muito esperado acaba não sendo nem um terço do que ele deveria/poderia ser (um salve patrocinado para o Cavaleiro das Trevas Ressurge). Porém, é extremamente gratificante quando acontece o contrário, quando o cinema faz sua magia, tira o tapete debaixo dos pés dos espectadores, dá uma grande rasteira nas expectativas e dá à luz a uma obra singular. Eu não sei exatamente o que eu estava esperando quando vi As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto – primeira parte da trilogia das “noites árabes” do ótimo diretor português Miguel Gomes – mas posso dizer seguramente que não esperava o que eu recebi: o que, nesse caso, é muito, muito bom.

Logo após um prólogo interessante, ainda que um tanto misterioso, e que nos apresenta um dos personagens cruciais para a narrativa da trilogia (o Diretor, vivido pelo próprio Miguel Gomes), começa o filme: o título aparece por volta da marca de trinta minutos, dando início, de fato, à primeira parte d’As Mil e Uma Noites. Logo em seguida, o filme nos avisa: essa não é uma adaptação do clássico. A relação guardada entre o material original e esse filme é a estrutura do livro que conta a história da bela Xerazade, uma mulher que desposa um rei sanguinário e insano, que só interrompe sua espiral de violência (que fez todas as suas esposas anteriores de vítimas) porque sua nova esposa conta uma história toda noite para o grande rei, sem contar o final da história a ele. Xerazade obriga o esposo a deixá-la viva, noite após noite, com a promessa de contar o fim da narrativa da noite anterior. Preso em uma situação semelhante, essa vai ser a estratégia que o Diretor usará para não ser executado por sua própria equipe.

É, daí vocês já podem tirar que esse não é um filme comum. Longe disso, a primeira parte de As Mil e Uma Noites (e as partes seguintes também, evidentemente) é, de fato, um filme bastante peculiar. Sua narrativa fantástica, fragmentada e episódica (além do prólogo anônimo, três contos completam a trama da primeira parte: “O Homem de Pau Feito”, “A História do Galo e do Fogo” e “O Banho dos Magníficos”) contribui bastante para isso. Aqui, metalinguagem, estranhamentos, metáforas, alegorias políticas – a política é um tema caríssimo e muito importante à trilogia, diga-se de passagem, batendo de frente à crise portuguesa dos últimos anos – e fantasias abundam em grande tamanho, formando toda uma estrutura intrincada, arriscada e complexa (cada episódio do filme, brilhantemente dirigidos por Miguel Gomes, principalmente quando ele pesa a mão na fantasia e na comédia, possuem sua própria forma, sua própria estética, configurando quase uma coletânea de contos/curtas, de autoria de diversos autores) que é, por si só, um grande trunfo do filme, um verdadeiro deleite para os olhos.

Além disso, a comédia é muito importante para a primeira parte dessa trilogia. Se Tabu é um filme contemplativo, lento, dramático e denso, As Mil e Uma Noites: Volume 1 é dinâmico, cômico, expositivo – e também, denso. As cômicas situações (principalmente do primeiro episódio) e o humor negro/involuntário presente em toda a trama – confesso ter lembrado do estilo de humor seco e politizado de Woody Allen e de alguns autores do realismo fantástico em alguns momentos – fazem com que O Inquieto seja um filme ainda mais estranho e surpreendente. Se o prólogo é documental e prevê cargas de drama e seriedade (que vamos encontrar com mais clareza no terceiro episódio, “O Banho dos Magníficos”), os dois episódios seguintes fazem questão de quebrar o padrão estabelecido pela “parte” inicial – subverter os próprios códigos é mais um trunfo deste filme.

Politicamente engajado e sem medo de apontar os culpados pela crise sócio-econômica portuguesa (e também europeia, em menor escala), o primeiro volume da trilogia das “noites árabes” de Miguel Gomes surpreende, definitivamente. Pelo humor, pelo absurdo, pelo drama, pela ousadia, pela inovação, nos mostrando, a cada episódio, uma nova face que nos traz um novo olhar e uma nova perspectiva para um problema, uma crise social (em grande parte provocada pela modernização avançada e pelas medidas de austeridade, pontos abordados pelo filme) que parece começar a se espalhar pelo Ocidente.

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