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NOTA: 6 / Renato Furtado

A conclusão épica, o filme mais esperado, o final antecipado, a ansiedade crescente, os fãs em polvorosa, desejosos de assistir a última entrada da quadrilogia/tetralogia e esperando, com receio, o golpe da nostalgia que certamente atingirá as pessoas quando os personagens que aprenderam a gostar, amar e se importar (algumas pessoas, inclusive, cresceram junto com essa saga) dizerem o último e derradeiro adeus. Apagam-se as luzes, começa o filme, o filme corre, estão lá todas (ou quase todas) as cenas presentes no livro, no texto-base, termina o filme, sobem os créditos, acendem-se as luzes e a sensação que fica é que todo um esforço de produção e adaptação não foi honrado, no fim das contas. Esse é o sentimento que o último filme da amada saga Jogos Vorazes deixa após acabar: a sensação de que podia e deveria ter sido muito melhor.

A segunda parte do último filme (por que inventaram isso, sério?) retoma o drama iniciado na (ADIVINHEM) primeira parte do último filme. Agora, é hora da pancadaria comer solta porque a guerra real não pode mais esperar. A hora de comerciais e jogos políticos ficou para trás e agora Katniss e seus amigos precisarão enfrentar altas confusões e grandes vilões (essa turminha do barulho não é fácil, realmente) na hora da verdade. A segunda parte do livro é frenética, corrida e tão repleta de adrenalina que certos momentos chegam a ficar mal explicados e/ou desenvolvidos (o talento literário de Suzanne Collins não é infinito, é preciso lembrar). Quando as primeiras cenas de A Esperança: O Final tomam a tela do cinema, no entanto, adrenalina é a última coisa sentida.

Vamos à parte difícil, ao ponto em que o sarrafo é descido, no momento da porrada: a última parte de Jogos Vorazes não é boa. De fato, é fraca e é a pior das quatro partes que compõem a saga. Não empolga e não emociona. A montagem é brusca e equivocada e nossos olhos são guiados entre sequências e cenas como tivessem sido sequestrados da maneira mais bruta. Sério, simplesmente tem coisas que não fazem sentido no filme e grande parte desse desmérito é do roteiro, que simplesmente não respeita nem o espectador geral nem o fã que vai assistir ao filme com todo o seu coração. Contando com diálogos e interações mal construídos (nossa, esse triângulo amoroso é ruim demais, meu pai do céu) dignos de novelas mexicanas da programação vespertina do SBT, personagens que não causam emoção NENHUMA em nós e parecem estar por ali só por estar, cenas completamente inúteis que poderiam estar facilmente em uma novela da globo e uma tendência absurda a querer explicar e mastigar tudo para nós, o roteiro parece uma amplificação da colcha de retalhos que o livro já é.

O filme se salva nos poucos momentos em que arrisca. A sequência de ação no miolo e todo o componente político – os dois únicos lados decentes da história são completamente inexplorados – são realmente bons e, não por acaso, são os únicos momentos onde Francis Lawrence, diretor do filme, mostra algum valor. Chega a dar pena de como ele é tratado como uma presença supérflua no filme. Ainda que seus atores salvem sua pele (e o filme, aliás, só não é pior porque o timaço salva a narrativa, reunindo nomes brilhantes já conhecidos na franquia como Woody Harrelson, Julianne Moore e Philip Seymour Hoffman), Lawrence é sabotado pela montagem, pelo roteiro, pela trilha sonora e, no fim das contas, pela própria produção.

Após tantos esforços e tantos anos empreendidos na produção de uma saga amada pelos fãs, terminar desse jeito é, no mínimo, desrespeitoso. Conversei com várias pessoas que leram os livros e que acompanharam a saga e, no fim das contas, as respostas não foram muito diferentes: em resumo, ninguém ficou muito empolgado com o final de Jogos Vorazes. O final de uma saga com tanto potencial deveria, pelo menos, empolgar. No entanto, ainda espero que os fãs consigam se encantar e se emocionar com esse filme e que fiquem felizes porque é o que importa, no fim das contas.

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