menino

Este post faz parte do especial Oscar 2016: Apostas C2M para melhor animação. 

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Há uma magia inerente à visão de mundo que as crianças possuem. Seja por causa da inocência ou pela corrupção geral da vida que ainda não as atingiu, as crianças traduzem e percebem as atmosferas nas quais estão envolvidas de jeitos muito singulares, únicos e, frequentemente, fantásticos. É em um terreno sem preocupações, sem medos e sem inseguranças que a imaginação tem carta branca para fluir e trabalhar livremente, produzindo visões que parecem saídas de verdadeiros sonhos. Assim é, do início ao fim, a narrativa de O Menino e o Mundo: direta, poética, fantástica, surreal, explodindo em cores que só podem ter vindo de mentes verdadeiramente sonhadoras.

O longa conta a história de um menino que sai perambulando o mundo em busca de seu pai, que saiu de casa e partiu em um trem para um local não especificado e por razões não especificadas. Aliás, o que não é especificado no filme contribui bastante para o sucesso da trama. A partir do momento em que o diretor e roteirista Alê Abreu e sua equipe de animadores começam a preencher a tela em branco (o filme começa e termina nessa tela; aqui, não existem fades to black, não existem fundos pretos, existem apenas espaços para colorir e para criar) com traços simples, porém maravilhosos, somos capturados pelo Mundo visto pelos olhos do Menino e corremos atrás dele em sua jornada, buscando completar as lacunas das coisas não ditas enquanto nos encantamos pelo que é mostrado.

Em uma miscelânea de técnicas de animação (que vão do mais simples e tradicional traço de desenho às colagens), a equipe do filme deixa fluir criatividade e inventividade para traduzir a jornada. Dos momentos mais simples na vida do Menino aos momentos mais complicados, onde ele percebe que nem tudo na vida são flores e que o Mundo é um lugar bem mais complexo do que se pode ver a princípio, o esforço de animação realizado nesta obra mostra que há muito mais em jogo: além da narrativa principal, há uma subtrama pulsante em O Menino e o Mundo: a crítica ao way-of-life capitalista/ocidental, fortemente fundada nas bases de uma sociedade de consumo voraz, socialmente opressora, bases estas demonstradas com muita perspicácia e objetividade por alguns dos momentos mais pesados e criativos do filme, como o embate das forças policias (semi-fascistas) com o povo, que marchava livremente em um belíssimo ritmo pacífico e musical.

Por falar em música, a trilha sonora é extremamente crucial para o desenvolvimento do filme. Reunindo um grupo estelar de músicos que inclui nomes como os Barbatuques, o veterano Naná Vasconcelos e o genial Emicida, as faixas e as canções de O Menino e o Mundo, compostas com o lindo espírito que só a música brasileira possui, tornam-se objetos das narrativas nas notas musicais que saem flutuando pelos céus como pequenas partículas de energia, primeiro como guias para o Menino tentar encontrar o pai (um flautista) e depois preenchendo os espaços da folha em branco até unirem-se em uma fênix multicolorida – a criatura fantástica mais perfeita para representar um povo verdadeiramente unido, capaz de renascer sempre, independente do adversário -, uma das cenas mais emblemáticas, simbólicas e belas de toda a película.

O Menino e o Mundo é, portanto, feito de muitas coisas e de muitas coisas “antagônicas”. É poesia e política; dureza e ternura; crítica e delicadeza; drama e comédia; alegria e tristeza; crueldade e amor; peso e leveza. No entanto, é justamente por ser formado por tantas duplicidades que parecem andar em caminhos postos que O Menino e o Mundo triunfa tanto quanto o faz. É uma verdadeira peça cinematográfica da mais alta qualidade, que emociona, faz rir, chorar, se encantar, pensar, criticar e não desistir; é, sem dúvidas, uma das melhores animações (principalmente por toda a criatividade técnica) e um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos.

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