anomalisa

 

Este post faz parte do especial Oscar 2016: Apostas C2M para melhor animação. 

NOTA: 8 / Renato Furtado

Senhoras e senhores, Charlie Kaufman está de volta. Sete anos após realizar seu primeiro filme como diretor e sexto como escritor, nos dando o maravilhosamente esquisito e o loucamente bonito Sinédoque, Nova Iorque, neste ano ele retorna em um caminho diferente mas com a mesma mente alucinada e genial de sempre: Anomalisa, uma peculiar (sério? não diga, é um filme do Kaufman, só pode ser peculiar), divertida, inquietante e densa animação dirigida em parceria com o estreante Duke Johnson. Indicado ao Leão de Ouro e vencedor do Prêmio do Júri em Veneza, Anomalisa conta a história de Michael Stone, um palestrante motivacional desmotivado especialista na área de serviço de atendimento ao cliente. Por ser inglês, Stone é um peixe fora d’água por natureza na cidade de Cincinatti e o constante estado de espírito deprimido dele não o ajuda muito. Mas, quando tudo parece ser igual (quando todos os rostos e vozes parecem ser iguais), Stone encontra uma pessoa nova que pode iluminar o seu mundo: Lisa.

Uma sinopse curta para um filme curto (Anomalisa tem uma hora e meia de duração) é também, neste caso específico, usar poucas palavras e, portanto, dizer muito pouco sobre um filme rápido que pode ter muito a dizer em cada canto de suas pequenas esquisitices e momentos cômicos e nervosismos e trejeitos – ainda que o próprio filme afirme que não exista necessariamente uma mensagem. Menor em escopo mas quase igual em ambição se comparado à Sinédoque, Nova Iorque, Anomalisa é uma animação (aliás, vale notar que a escolha pela animação em stop-motion foi perfeita; o formato é ótimo para narrar essa peculiar trama) que não esconde nada, mas que também não dá pistas fáceis.

É preciso desvendar aos poucos o caminho de Stone durante sua estadia na cidade de Cincinatti e ver além dos momentos cômicos do filme (que, apesar de inúmeros, não chegam a qualificar o filme como uma comédia propriamente dita) para arranhar alguma superfície desse filme. A densidade de Anomalisa é grande pois o filme, simplesmente, almeja falar sobre a vida e sobre o amor; em resumo, sobre o ser humano atual. Mas acalmem-se, não se assustem: a narrativa de Anomalisa é dinâmica o suficiente para não deixar ninguém impaciente com o andamento do filme.

Quanto mais tempo passamos diante de uma obra de Charlie Kaufman, menos entendemos e mais queremos entender, mais queremos perceber. Aqui, a história (aparentemente) simples de um homem desgostoso com a vida já parece ter sido contada inúmeras vezes; contudo, tanto as atuações (Anomalisa é brilhantemente dublado por David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan) quanto o roteiro (baseado em uma peça de Kaufman), a direção, a fotografia e a trilha sonora nos apresentam o algo a mais e, no caso, esse “algo a mais” é o fantástico.

Os temas de Kaufman são tão reais e tão presentes em nossas vidas que o tamanho disso tudo parece ser tratável apenas como aquilo que escapa à nossa percepção, aquilo que supera nossos entendimentos. É assim desde Quero Ser John Malkovich; é assim em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças; e é assim aqui. Kaufman opera no território do realismo mágico para narrar coisas, eventos e, acima de tudo, sentimentos que são mais do que realistas, mas que, justamente por serem tão realistas, só podem ser vistas sob o olhar da mente, da imaginação, sob a ótica da fantasia: truque de gênio, emprestado da literatura, evidentemente.

Tendo dito tudo isto, repito: Anomalisa é universal, mas não é filme fácil. Sem os toques de Jonze ou de Gondry – dois cineastas bem mais populares, ainda que não muito populares – dirigindo seus roteiros, as narrativas de Kaufman perdem um pouco de apelo com o público em geral, é verdade. Foi assim com Sinédoque, Nova Iorque e eu imagino que será assim com esse novo filme.

No entanto, a verdade é que a partir do momento em que começou a dirigir seus próprios escritos (em Anomalisa ele tem a companhia na direção do estreante em longas, Duke Johnson), colocando em prática toda completude de sua visão ao deter a maior parte do controle sobre sua narrativa, Kaufman achou uma nova rota e se colocou no mesmo jogo de sempre usando suas próprias regras, de fato, pela primeira vez. Com sensibilidade, humor, realidade e fantasia, Kaufman nos apresenta a Vida (ou, pelo menos, sua visão sobre ela), tão estranha, tão grande – ora maravilhosa e ora cruel – e tão direta do jeito que só a Vida sabe ser.

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