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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

À essa altura do campeonato já não é mais segredo para ninguém que a Netflix – A.K.A. empresa que todos nós amamos – não brinca em serviço. Desde que começou a produzir conteúdo original – sejam séries ou filmes, ficcionais ou documentais -, a galera lá buscou sempre atingir novas zonas com narrativas diferentes, sempre ousadas. É assim com House of Cards, Orange is The New Black, Demolidor, BoJack Horseman e por aí vai. Portanto, não é de se espantar que mesmo uma série aparentemente comum abordando um tema aparentemente batido seja (a vida de um grupo de amigos vivendo em Nova Iorque), também, ousada: assim é Master of None, série criada por Aziz Ansari e Alan Yang, ambos vindos da incrivelmente engraçada e inteligente Parks and Recreations.

Em Master of None, Ansari interpreta o papel principal: Dev é um americano-indiano nos seus quase trinta anos que precisa “sobreviver” em um mundo onde tomar decisões é um dos maiores problemas – uma vez que somos constantemente bombardeados com informações, opções, caminhos dos mais diversos, tecnologicamente ou não, e, claramente, com a pressão de escolher corretamente em meio a essa confusão de alternativas (e aplicativos). Como ator, Ansari não é dos mais brilhantes. Dev Shah é uma versão exagerada de si mesmo (que pode ser vista nos stand-ups disponíveis na Netflix e na internet) e uma versão menos insana que Tom Haverford (o ótimo e hilário personagem do descendente de indianos em Parks and Recreation). O maior mérito de Ansari em Master of None é, justamente, na área da escrita.

A criação da série como um todo é, de fato, a grande genialidade da produção. Das mentes de Ansari e Yang surgem os personagens que giram em torno de Dev, divertidos e cativantes, roubando todas as cenas em que aparecem – e são várias, graças aos deuses – e afloram comentários ácidos, irônicos, ora com imenso bom humor, ora com uma comédia bastante afiada sobre os mais variados temas em voga no mundo. Feminismo, amor, filhos, relacionamentos, discriminações raciais, problemas de representação, étnicos e de gênero, nas mídias e na cultura pop, meios dominados por engravatados brancos; um grupo insano de nova-iorquinos pelos quais você acaba gostando mais e mais a cada episódio; uma trilha sonora incrivelmente bem estruturada que vai de Iggy Pop e Lou Reed a Spandau Ballet em questão de segundos; e uma boa dose de drama na medida certa: jogue tudo isso em um caldeirão e você terá Master of None.

A miscelânea de temas abordados e o humor crítico com os quais são atingidos e destrinchados só é tão produtiva por causa dos personagens de Master of None; são eles que vão levando a série para níveis mais altos de qualidade conforme os episódios passam (o episódio sobre o feminismo e os dois últimos são especialmente importantes em relação ao elenco). Contracenando com Ansari temos Nöel Wells como Rachel (interesse amoroso de Dev e de todo mundo porque ela é linda e incrível e demais), Lena Waithe como Denise (A.k.a DeNICE de tão cool que ela é, a personagem que mais rouba as cenas durante toda a temporada), Eric Wareheim como Arnold (o único personagem branco e homem do grupo é o cara estranho do entourage, o que diz bastante sobre a ótima política em defesa da diversidade empreendida por Master of None) e Kelvin Yu como Brian. Esses quatro personagens não são em nenhum momento meros coadjuvantes. São personagens que brilham aos poucos e conquistam seus espaços de formas peculiares.

A estrutura cômico-dramática da série é fundamentada pela ótima direção de Eric Wareheim, do próprio Ansari, James Ponsoldt e Lynn Shelton que conferem, cada um a sua maneira, formas de construção para uma estética própria do seriado, que valoriza longos planos, sem buscar pela montagem mais fácil e padronizado no momento de estabelecer os momentos cômicos. Ainda, a ótima fotografia de Mark Schwartzbard captura Nova Iorque com lentes que ficam à metade do caminho entre a tradição e a estética indie, auxiliando a conferir uma continuidade tanto visual quanto narrativa para a série, apesar do fato de que cada episódio aborda um tema diferente. Ainda, o estabelecimento dessa unidade que liga cada capítulo – além das ligações narrativas naturais, como o tema do relacionamento de Dev e o filme no qual ele está trabalhando, dois assuntos recorrentes durante a temporada – faz com que Master of None consiga atingir uma voz própria – que a coloca como um show independente e que invalida a simplificação de que Master é um Louie para pessoas mais jovens.

É possível assistir Master of None de duas maneiras. A primeira é a maneira despojada: uma boa série para maratonar, episódios rápidos e divertidos, personagens cativantes, trilha sonora incrível, elementos que unidos deixam uma sensação de “quero mais” para a segunda temporada. Já a segunda maneira diz respeito a um modo de ver mais aprofundando, onde se pode estudar cada episódio e cada tema, onde todo um espaço de reflexão de nossas próprias ações se abre. De uma forma ou de outra, ver a primeira temporada de Master of None é, no mínimo, muito cool.

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