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Renato Furtado

Em relação à cinema, uma das coisas que deixa todo e qualquer cinéfilo brasileiro (ou qualquer outro indivíduo, brasileiro ou não, que saiba realmente do que está falando) mais irritado do que o anúncio de um filme novo do Nicolas Cage (vamos lá Nicolau Gaiola, você pode fazer melhor) é ouvir a velha e ridícula máxima: “Filme brasileiro é uma droga”. Quando alguém diz isso, é preciso reunir forças suficientes para responder com um mínimo de delicadeza – ou reunir fôlego suficiente para simplesmente ignorar a afirmação, coisa que às vezes é o caminho mais curto para manter uma amizade nesses tempos atuais.

Para a nossa sorte, no entanto, as respostas agora podem ficar mais curtas – resumindo-se a um simples clique – e mais bem embasadas. A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) divulgou, na semana passada, uma lista definitiva sobre o cinema nacional. Após entrevistar críticos e personalidades ligadas ao cinema, a entidade preparou uma lista, um top 100 – que é o fino da bossa, o filé mignon, o fundo da lata de leite condensado – contendo, evidentemente, os melhores filmes brasileiros de todos os tempos!

O ranking traz filmes de todos os tipos. Ficções dominam, claramente, mas há espaço suficiente para os documentários (três deles de um dos maiores documentaristas de todos os tempos, Eduardo Coutinho) e para os curtas e médias-metragens (na lista, é possível encontrar o essencial Ilha das Flores, de Jorge Furtado). Além disso, tem lugar para todas as produções. Se em primeiro lugar temos Limite, o único e genial filme – inspirado pelo impressionismo francês de Abel Gance – de Mário Peixoto, lá dos idos de 1931 e em segundo Deus e o Diabo na Terra do Sol, o clássico de Glauber Rocha (que emplaca mais quatro filmes na lista), no miolo da lista logo vemos filmes dos Trapalhões e os clássicos de Zé do Caixão, mostrando que o ranking foi feito da forma mais justa e bem estruturada possível, levando em consideração não só a qualidade dos filmes, mas também a importância e o impacto culturais exercidos pelas películas.

E, é claro, que os filmes mais recentes não ficaram de fora! Dos últimos anos temos O Lobo Atrás da Porta, O Som ao Redor, Tatuagem e até mesmo o orgulho nacional e forte concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 2016, Que Horas Ela Volta? (leia mais sobre o prêmio de melhor filme estrangeiro aqui, na nossa cobertura especial de apostas para o Oscar 2016). Fiquem, abaixo, com o top 25 da lista da Abraccine:

1. Limite (1931), de Mario Peixoto

2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha

3. Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos

4. Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho

5. Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha

6. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla

7. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person

8. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles

9. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte

10. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade

11. Central do Brasil (1998), de Walter Salles

12. Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco

13. Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado

14. Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman

15. O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho

16. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho

17. Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho

18. Bye Bye, Brasil (1979), de Carlos Diegues

19. Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias

20. São Bernardo (1974), de Leon Hirszman

21. Iracema, uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodansky e Orlando Senna

22. Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri

23. Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra

24. Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro

25. Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci

Pessoalmente, creio que Elena, o maravilhoso documentário de Petra Costa, um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos é uma das ausências mais sentidas na lista. Fora isso, lista é lista, apanhado é apanhado e recortes precisam ser feitos, evidentemente.

O que é, de fato, importante é que agora temos uma lista que ajuda a preservar a memória do nosso cinema, uma matéria na qual, certamente, falhamos. No entanto, como já diria Renato Russo, ainda é cedo; ou seja, ainda temos tempo suficiente de corrigirmos nossos erros com a nossa própria cultura – e tempo suficiente também para corrigirmos nossos amigos ou revermos nossas amizades, se for o caso.

PS: O resto da lista você pode conferir aqui!

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