jj

NOTA: 8 / Renato Furtado

A Marvel ataca novamente. Construído um verdadeiro império a começar pelos cinemas, a empresa de Stan Lee continua colocando mais e mais heróis nas telonas e nas telinhas. Depois de acertar um acordo com a Netflix e lançar a ótima série do Demolidor (que nos faz esquecer completamente daquele troço que é o filme com o Ben Affleck) em abril, agora, no fim do ano, a empresa que todos amamos lança uma de suas séries mais esperadas: Jessica Jones, a primeira super-heroína da Marvel a receber uma adaptação solo, uma detetive particular que tenta conciliar sua nova profissão, seus talentos especiais (basicamente a super-força), seu passado turbulento e um fantasma (mais real do que ela imagina) que constantemente a assombra.

Em poucas palavras, essa é a série Jessica Jones (a segunda a se passar em Hell’s Kitchen, o bairro de Nova Iorque que também é a casa do Demolidor, de Luke Cage, que é um personagem regular em Jessica Jones e do Punhos de Ferro). Em muitas palavras, a nova série da Netflix é exatamente o que não esperamos. Se você vier procurando uma série sobre superpoderes, pode desistir; se você vier procurando por uma série de ação, desista também; se procurar por uma série policial, sinto muito, mas não vai rolar. O fato é que, ainda que Jessica Jones seja uma série sobre uma super-heroína com ação e investigação, a série é realmente um drama – entretanto, não descobrimos isso até o meio da temporada.

Esse cruzamento de gêneros pode provocar um certo estranhamento, a princípio – a direção nem sempre correta e os diálogos pouco inspirados contribuem nesse aspecto negativo. Portanto, é justamente quando Jessica Jones supera todos esses problemas e acha um direcionamento justo e bem definido para si – uma série majoritariamente dramática, com elementos de super-heróis, ação e policial – que torna-se uma série do nível já conhecido e esperado das produções Netflix.

A escolha dos atores influencia bastante no bom andamento da série – que se dá por volta da metade da temporada até o seu final. Krysten Ritter (que é uma ótima atriz, para quem prevejo um ótimo futuro cinematográfico) interpreta Jessica Jones vigorosa e poderosamente, conferindo diversas tonalidades para sua personagem, brilhando justamente nos momentos mais dramáticos da série e ganhando espaço primeiro na inteligência e, em seguida – se for o caso – baixando a porrada em quem se puser no caminho para mandar uma mensagem muito clara: acabou-se o tempo, graças aos deuses da televisão, em que adaptações de super-heróis eram apenas sobre personagens masculinos. Essa é uma questão importantíssima para Jessica Jones: um show, definitivamente, feminista, sobre mulheres fortes, independentes e reais. Aliás, esse é um grande mérito do trabalho da estruturação da série, criada por Melissa Rosenberg.

Ainda que superpoderes e coisas nessa linha sejam importantes, as mulheres de Jessica Jones são bastante reais e isso é algo especial (se há algum exagero, é porque a série não almeja o realismo), já que a série gira em torno de Jessica, dessas outras personagens (o caso principal da série, inclusive). A construção das personagens é realmente muito boa (excetuando Robyn, que serve mais como uma criadora de conflitos um tanto quanto desnecessários). Destaco duas personagens em especial. Primeiro, a personagem Patricia Walker, a Trish, amiga de Jones, interpretada com grande coração e coragem por Rachael Taylor é um dos grandes trunfos da série, roubando grande parte das cenas, e nossos corações junto, nas quais aparece. Em segundo lugar, temos Carrie Anne-Moss, em uma ótima performance, interpretando a advogada Hogarth, impiedosa, incansável, inteligente, inescrupulosa e poderosa.

Apesar dos diálogos fracos, de ações mal estruturadas e de um trabalho de direção inconsistente – que, infelizmente, prejudicam a série em dados instantes cruciais -, todos os atores acreditam firmemente em seus personagens e entregam performances que são, no mínimo, sólidas. Do lado masculino, temos alguns personagens importantes. Primeiro, Luke Cage, interpretado por Mike Colter, um personagem que ganhará uma série própria, onde poderá ser mais bem desenvolvido ainda, contando com a boa interpretação de Colter, que mostra variadas nuances em poucos e contidos gestos. Depois, Malcolm (Eka Darville) e Simpson (Will Traval), dois personagens que vão ganhando importância com o passar dos capítulos. Guardei o melhor para o final, evidentemente: o grande vilão da série, Kilgrave – que tem o poder de controlar mentes e ordenar que as pessoas cumpram todas as suas vontades.

David Tennant, mais conhecido por ter sido um dos milhões de Doutores na história da série Doctor Who, cria um personagem a quem vamos odiar gostar tanto. Ele é a personificação de todos os perigos e desgostos que um homem pode representar para uma mulher; ainda assim, gostamos de Kilgrave porque a interpretação de Tennant é incrível. Soando como um asqueroso lorde inglês, Tennant se movimenta como uma serpente à caça de sua presa, surgindo e agindo de acordo com sua agenda movida pela sua psicose. Seus diálogos são de longe os melhores de toda a temporada e é interessante ver esse tipo de ator, mais conhecido por atuar em outros gêneros e interpretar personagens mais lights, fazer um vilão tão odioso e psicopata.

Excetuando os deslizes acima mencionados, Jessica Jones é uma ótima série. De fato, poderia ser sensivelmente melhor, especialmente se explorasse mais o drama, esquecendo o máximo possível superpoderes e a ação (as cenas de ação de Jessica Jones são ruins e algumas delas não fazem sentido algum), utilizando esses instrumentos apenas em momentos precisos. Entretanto, a ideia e o conceito que permeiam toda a temporada e a construção de sua heroína demonstram um potencial enorme a ser trabalhado, consolidando um elemento crucial: Jessica Jones é uma série que promete crescer muito, inaugurando um novo terreno para a Marvel. Não se enganem, as super-heroínas (e as heroínas tão super quanto aquelas que possuem dons especiais) vieram para ficar e isso é excelente.

Anúncios