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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Homem versus natureza é, sem a menor sombra de dúvidas, um dos temas mais antigos de todos os tempos a serem abordados pelos autores de todos os tipos de mídias, atingindo níveis de complexidades variados; essas obras percorrem um espectro que vai da simples produção industrial de produtos culturais sobre catástrofes naturais destinados simplesmente ao consumo rápido e despreocupado até às obras de maior nível intelectual, psicológico e crítico. Da segunda categoria vem, por exemplo, o clássico – nomeado como O épico americano por Nathaniel Hawthorne – Moby Dick, a obra-prima do autor Herman Melville. O filme No Coração do Mar, de Ron Howard, conta a história real que inspirou Moby Dick.

Acompanhamos a saga do imediato Owen Chase (Chris Hemsworth) que, ao lado do Capitão George Pollard (Benjamin Walker) e do segundo imediato Matthew Joy (Cillian Murphy), luta para manter o navio Essex em boas condições para se tornar o navio baleeiro mais bem sucedido do ano, objetivando trazer 2000 barris de óleo de baleia. Mas, a certa altura, eles se deparam com uma verdadeira força da natureza: a maior baleia vista pelo homem. Enquanto isso, a montagem do filme intercala as cenas de Melville (Ben Whishaw) em  busca da verdade, entrevistando o único sobrevivente do Essex, trinta anos depois, Thomas Nickerson (quando jovem interpretado por Tom Hollard e adulto interpretado por Brendan Gleeson).

No Coração do Mar é um filme clássico de aventura. Durante a trama, encontramos todas as grandes características do gênero, os personagens, as situações, os conflitos… E é justamente esse o problema de No Coração do Mar: já vimos este filme mais de uma vez anteriormente. Obviamente, revolucionar é sempre um ato difícil de se realizar, independente do que se faça; além disso, não há problema em ver uma mesma narrativa, desde que ela seja contada com um olhar interessante, inovador. Portanto, deixemos claro logo de cara: o grande pecado de No Coração do Mar é ser mais do mesmo.

Em grande parte, a complicação vem da escrita de Charles Leavitt, que se apoia firme e unicamente em uma estrutura dramática que é mais do que batida. Ainda que uma parte significativa de bons filmes também se apoiem nessa estrutura (de ir e voltar, entre o comentário/o relato e a “reconstituição dos fatos apresentados”), as películas que triunfam possuem méritos que ultrapassam a tal estrutura – por exemplo, diálogos mais inspirados e personagens mais multifacetados dos que os que são apresentados. Aqui, temos alguns outros problemas atrás das câmeras.

Ron Howard é, sem dúvidas, um bom diretor. Vindo diretamente da escola clássica de aventura dos Estados Unidos (da onde também vem Steven Spielberg, Robert Zemeckis, George Lucas etc.), seu olhar sobre a ação é inegavelmente bom e interessante – vide Rush, seu último filme, uma trama incrível, repleta de adrenalina, tensão e drama nas medidas certas. No entanto, em No Coração do Mar, Howard também fica preso aos clichês e fórmulas do gênero, que limitam inclusive a criatividade do fotógrafo Anthony Dod Mantle (vencedor do Oscar por Quem Quer Ser um Milionário), que, apesar de demonstrar planos muito criativos, baseados em primeiros planos extremos e câmeras colocadas em ângulos não convencionais, acaba seguindo um caminho tradicional na maior parte da duração da trama.

Outro equívoco do filme é não aproveitar bem os talentos que possui. Cillian Murphy, Ben Whishaw e Brendan Gleeson recebem um tempo de tela e espaço para criação insuficientes e incompatíveis com suas capacidades, acabando em papeis coadjuvantes de pouca importância – isso sem mencionar a pobreza das personagens femininas. Por sua vez, Chris Hemsworth vai bem no filme, mas suas atuações parecem pertencer ao mesmo estilo: sempre o cara corajoso e valente (ocasionalmente inconsequente), onde, no fim das contas, só muda o cenário e o contexto, seja ele um deus do trovão, uma lenda da fórmula 1 ou um marinheiro experimentado.

Apesar das palavras acima, No Coração do Mar não é um filme ruim. Longe disso. Tudo funciona no filme, sem sombra de dúvidas. Ainda que a direção e a fotografia fiquem imobilizadas por clichês, ambos os esforços são bons – e, consequentemente, as interpretações às luzes da palheta de cores escolhidas também funcionam. A trilha sonora faz bem seu papel, assim como a montagem. O filme vale a pena, tem um  andamento funcional, sendo um entretenimento satisfatório. Contudo, o ponto é que o mais do mesmo atrapalha tanto o potencial quanto um possível melhor rendimento desse filme marítimo, divertido, porém burocrático.

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