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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Você pode superar o passado, mas o passado não supera você. Esse é um ditado, uma sabedoria popular, uma máxima que corre por aí e que já apareceu, certamente, em muitas narrativas – Magnolia, certamente meu filme favorito de todos os tempos, também se utiliza desse provérbio. No caso, esse também é um dos temas principais de O Presente, filme de estreia do ator e roteirista Joel Edgerton, onde um casal (Jason Bateman e Rebecca Hall) se muda para a Califórnia, lugar onde Simon (o marido) passou sua infância e sua adolescência. No entanto, o retorno idílico e aparentemente destinado ao sucesso será abalado pela presença de um estranho e peculiar ex-colega de Simon: Gordo, papel do diretor.

O Presente é um filme de suspense, sem dúvidas, um filme de gênero, contando com todas as grandes características e tonalidades inerentes às narrativas pertencentes a essa categoria; o que O Presente não é, no entanto, é um filme genérico. Grande parte desse mérito de se erguer sobre a média, principalmente dentro de um gênero que é explorado à exaustão através de tramas mal executadas e películas muito fracas, vem da direção firme de Edgerton. Em seu primeiro filme como comandante, o australiano mostra que sabe bem o que está fazendo e que aprendeu o máximo que pôde com os bons diretores com quem trabalhou (Scott Cooper, David Michôd).

Sem deixar o ritmo cair em nenhum momento e mantendo o foco em entregar uma narrativa seca, direta, sem grandes floreios e extremamente eficiente, Edgerton estreia com o pé direito, nos mostrando e nos escondendo as coisas certas nos momentos certos, criando uma atmosfera de tensão que gera grandes sustos – o diretor é auxiliado pela montagem certeira de Luke Doolan, pela fotografia pálida de Eduard Grau e por toda a cenografia e ambientação feita por uma direção de arte competente que transforma a grande casa e seus espaços vazios em um quarto personagem principal assustador. Por conta desse alinhamento criativo da produção, alguns dos melhores momentos do filme vem justamente do que Edgerton escolhe mostrar.

Acompanhamos, em grande parte, a personagem de Rebecca Hall, Robyn, vagando sozinha pelos grandes cômodos de uma casa solitária no topo de uma das colinas da Califórnia e, a todo momento, sentimos que há algo espreitando atrás dos cantos, além de vidros embaçados, além de reflexos nos espelhos. Ainda, é frequente vermos a reação de Robyn à maioria das interações realizadas no filme; a câmera constantemente busca seu rosto e isso – contando, claramente, com a ótima interpretação de Hall, que prova, filme atrás de filme, ser uma atriz que merece melhores papeis cada vez mais – constrói sua personagem de uma maneira ímpar.

O roteiro de Edgerton também é ótimo, estruturalmente falando. Seus diálogos acertam os pontos certos e o encadeamento das ações nos mostra, ao mesmo tempo, inevitabilidade e imprevisibilidade – como o genial Sidney Lumet diria, um bom filme nos leva a crer, no fim das contas, que tudo aquilo foi inevitável; porém, a chegada até lá não precisa ser previsível. O grande confronto do filme baseia-se nessa ideia. Tanto Jason Bateman quanto Joel Edgerton – principalmente este – entregam boas performances enquanto travam uma verdadeira e violenta batalha psicológica – da onde vem “O”(s) Presente(s) do título -, que vem a ser o principal tema do filme: como uma ideia pode ser tão venenosa a ponto de ser mais perigosa e até mesmo fatal que uma violência física.

Com grandes sustos, bastante suspense, sombras, luzes estranhas, cômodos vazios, macacos assustadores e boas performances, O Presente é um ótimo filme que promete deixar unhas roídas e corações disparados. Ótima estreia de Joel Edgerton.

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