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NOTA: 6 / Renato Furtado

Durante os anos 60, esteve “na moda” um subgênero cinematográfico bastante específico: os dramas românticos de arte, os romances burgueses. Desse nicho, saíram inúmeros filmes e diretores que permanecem na história até os tempos atuais. Provavelmente os melhores vieram do genial italiano Michelangelo Antonioni, um dos maiores diretores de todos os tempos, sem a menor sombra de dúvidas, que sabia evitar exatamente a armadilha apresentada pela própria essência desses filmes: o risco da narrativa soar pretensiosa, carregada de momentos que pretendem ser muito mais do que são, na verdade.

De fato, julgar a pretensão de uma obra é uma pretensão, em si – isso é inegável. Mas, para efeitos críticos, esta licença é, frequentemente, permitida; portanto, é possível classificar À Beira-Mar, o novo filme de Angelina Jolie (agora Angelina Jolie-Pitt) como uma trama pretensiosa – que narra a história de um casal, um escritor (Brad Pitt como Roland) e sua mulher (Jolie como Vanessa), que sai de férias para os belos mares da costa sul da França, ele em busca de inspiração para novos escritos e ela em busca de algo que não sabe o que é ao certo, em um constante estado de fuga, principalmente do casamento dos dois, que beira as ruínas.

Antes de prosseguir, é preciso deixar claro que À Beira-Mar não é um filme ruim. A cada filme que passa, Jolie-Pitt demonstra melhorar suas habilidades na direção; as performances são boas no filme – apesar de Pitt ser um pouco mais canastrão do que o necessário -, incluindo a boa presença Mélanie Laurent (amor eterno por ela); a fotografia certeira de Christian Berger (colaborador frequente de Michel Haneke) é muito inteligente e cria planos repletos de beleza e tensão trabalhando uma paisagem linda e os imensos espaços vazios do quarto de hotel em que o casal está hospedado, assim como o imenso deserto que é o mar que banha a cidade costeira; a trilha sonora e a edição são competentes e não comprometem; e, ainda assim, algo parece ficar alienado durante todo a duração da película.

O roteiro de Jolie-Pitt é, certamente, o maior problema da trama. A diretora e roteirista cai frequentemente na armadilha mencionada acima, criando uma narrativa que se movimenta de maneira complicada através de diálogos melodramáticos e carregados e um argumento onde as sequências são mal estruturadas – culminando em um final previsível -, confiando muito mais no estilo e na estética dos filmes nos quais À Beira-Mar é inspirado (talvez o filme funcione mais como uma homenagem do que outra coisa) do que na criação de um estilo e de uma estética própria – é precisamente nas sequências e nas cenas em que À Beira-Mar demonstra uma estrutura criada especialmente para o seu contexto que o filme consegue criar bons momentos, como a cena da banheira ou a cena em que o casal se reaproxima ao espiar o casal ao lado.

O terceiro filme de Angelina Jolie-Pitt demonstra que ela ainda tem muito a nos mostrar estando no comando. Em seus melhores momentos, o filme torna evidente um potencial escondido e, em certos instantes, um potencial já realizado cinematograficamente em belas sequências, interpretadas com coração; no entanto, a dificuldade encontrada pela narrativa em descobrir sua própria voz faz com que À Beira-Mar fique aquém do que poderia ser, caindo, na maior parte do tempo, no buraco armado pela pretensão de “complicar” algo que poderia ser mais simples e, no caso, mais eficiente.

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