cla

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Como todas as ditaduras, aquela que manchou a história da Argentina foi violenta e marcou as gerações que vivenciaram o período e também as gerações que nasceram após a redemocratização com um toque inegavelmente perverso. Naqueles anos, inúmeras barbaridades e violências foram cometidas de maneiras sem precedentes, aterrorizando para sempre um povo já sofrido. Um dos grandes episódios foi escrito pelo Clã Puccio, uma família de argentinos ligados a uma série de sequestros na década de 80. Esta é a história narrada – brilhantemente, diga-se de passagem – pelo diretor argentino Pablo Trapero em “O Clã”.

O líder do chamado clã é Arquimedes Puccio, um funcionário do governo ditatorial que, com a ajuda de seu filho Alex, um famoso jogador de rúgbi na Argentina, tendo estampado até capas de revistas, e de mais dois capangas, realiza os sequestros primeiro para se manter bem em relação à ditadura e, em seguida, após a queda da mesma, para manter o padrão de vida confortável que leva, sustentando sua mulher e mais outros três filhos (além de um filho que mora no exterior). Dentro do núcleo familiar, a relação mais interessante é a que acompanhamos no decorrer do filme: entre Arquimedes e Alex.

Interpretados, respectivamente, por Guillermo Francella (o assistente do personagem de Ricardo Darin em Segredo de Seus Olhos), um dos melhores atores argentinos de todos os tempos e por Peter Lanzani, estreando em longas, os dois personagens travam um verdadeiro combate: o poder do pai, trazido à vida pelos olhos azuis penetrantes e o jeito suave que Francella confere ao seu personagem versus o filho que quer agradar o pai, mas não consegue por não concordar com os atos cometidos pelo progenitor, características colocadas na telona pela ótima performance de Lanzani, construída através das hesitações e das dúvidas de Alex, evidentes em cada passo que dá, em cada palavra que profere. Toda a dinâmica de trabalho entre os dois atores é muito boa e, sem sombra de dúvidas, são uma das grandes duplas do cinema em 2015.

Além das ótimas atuações e de uma trilha sonora fortemente baseada em rocks da época, o grande trunfo de O Clã é o seu diretor. Pablo Trapero é certamente um dos melhores diretores latino-americanos da atualidade e demonstra um potencial que pode elevar seu nome a um dos grandes do cinema, pelo menos no período em que continuar realizando filmes. O argentino possui um exímio controle de sua narrativa e não tem receio algum de nos mostrar a violência (tanto objetiva quanto subjetiva) da família Puccio e do regime ditatorial (utilizando, inclusive, imagens de arquivos dos ditadores argentinos da década de 80), criando planos visualmente belos e cinematograficamente bem construídos, destacando planos-sequência de tirar o fôlego, que chamam a atenção tanto pela proeza técnica quanto pela importância narrativa – é impossível não citar o último e sensacional plano do filme, que coroa de forma impecável os incríveis vinte minutos finais da película, fiquem atentos.

Ainda que possua alguns erros aqui e acolá, O Clã rendeu, merecidamente, a estatueta de Melhor Diretor no Festival de Veneza para Trapero e acabou sendo a escolha oficial da Argentina para o Oscar, um filme que mistura suspense e drama político – estudando a sociedade argentina tanto macro quanto micropoliticamente – nas doses certas para prender e cativar seu espectador, evidenciando os excessos e as insanidades cometidas em períodos de extrema violência como as ditaduras que assolaram não só a América Latina entre as décadas de 60 e 80, como também inúmeros outros países do mundo.

Anúncios