Renato Furtado

É difícil não relembrar a célebre frase de Jean-Luc Godard – já escrita anteriormente nesse mesmo blog – ao falar de documentários (difícil não lembrar de pelo menos uma frase do mestre francês ao falar sobre Cinema); portanto, vamos lá: “todo grande filme de ficção tende ao documentário e todo grande documentário tende à ficção”. Isso porque toda excelente ficção contem aquela ponta de realidade – por mais louca que sua representação seja – e porque todo ótimo material documental contem um registro de irrealidade, de situação inscrita no surrealismo absurdo do tipo de coisa que dizemos “isso não pode ser verdade”.

Só que é. Da lista de 124 documentários nomeados ao Oscar, passando pela lista que cortou o número de nomeados para 15 até as nossas apostas para os indicados finais contendo apenas 5 títulos, é certo dizer que grandes narrativas estão aí neste meio, prontas para nos assombrar, encantar e surpreender. Portanto, vamos lá aos 5 filmes que nós acreditamos que serão os escolhidos finais no corte definitivo no dia 14 de janeiro de 2016!

5) O Estrangeiro

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Parte “sequência espiritual” e parte complemente de O Ato de Matar, O Peso do Silêncio é o primeiro filme na lista que entra na categoria do além da realidade. Se no “primeiro” filme o diretor Joshua Oppenheimer foi atrás dos torturadores do regime ditatorial que mergulhou a Indonésia em anos de violência e escuridão, agora ele busca os parentes das vítimas e faz de seu guia um oculista que perdeu o irmão. O Peso do Silêncio é um estudo minucioso, brutal e poderoso de um dos períodos mais atrozes e aterrorizantes da história da humanidade – como é narrado, quase com alegria, pelos monstros torturadores que sobreviveram ao serem confrontados pelo personagem principal. Não é um filme para estômagos fracos e nem para pessoas em estados de tristeza e afins; O Peso do Silêncio corta e corta fundo na carne.

Nossa resenha do filme, direto do Festival do Rio, aqui!

4) O Poeta

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Segundo Bill Nichols, um dos maiores estudiosos do mundo documental de todos os tempos, existem várias formas de documentários: uma delas é a forma do ensaio. Buscando mais uma visão poética e afetiva do que uma resposta ou uma análise científica sobre um tema qualquer, os documentários ensaísticos são, normalmente, associados aos filmes experimentais. É deste experimentalismo que surge A Verdade Sobre Marlon Brando, um dos melhores filmes que vi neste ano e, sem sombra de dúvidas, o meu documentário favorito da lista. Utilizando imagens de arquivos de Brando e incontáveis horas de gravações pessoais realizadas pelo ator durante toda sua carreira, somos guiados pela vida de Marlon Brando pelo próprio Marlon Brando em um mergulho ao centro da existência do ator, da natureza do cinema e dos sonhos e desejos humanos, como um todo. Uma narrativa forte, afetiva, belíssima e emocionante que narra a história de um dos maiores da história do Cinema.

3) O Guerreiro

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Poucas vezes na história cinematográfica foi demonstrada uma coragem tão grande em cena como a coragem demonstrada por Matthew Heineman em sua equipe ao filmar Cartel Land. De uma maneira quase inacreditável, o diretor nos coloca no centro da guerra dos cartéis que toma todo o território do México e parte da fronteira dos Estados Unidos, nos levando para um passeio perverso em meio às drogas, armas, guerrilheiros, milícias, sangue, terror e uma guerra que parece entranhar-se cada vez mais no coração dos locais, da região – e, invariavelmente, nos corações do mundo todo. Um documentário filmado com tanto controle narrativo – os planos do filme são lindos e uma indicação para o Oscar de Melhor Fotografia não está descartada – e tratando um tema tão complexo da forma como o fez não é possível ver sempre por aí.

2) O Favorito – Parte 1

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Going Clear, o novo filme do veterano e premiado diretor Alex Gibney, é um verdadeiro conto de terror baseado na fé cega. Narrando a história da Cientologia, “religião” (que busca liberar as pessoas para o seu máximo potencial, algo, de fato, interessante à princípio) criada por L. Ron Hubbard – figura que serviu de inspiração para o personagem principal de O Mestre, o ótimo filme de Paul Thomas Anderson -, o filme vai direto ao ponto e não pega leve em momento algum: a cientologia não é apenas um culto, é uma tribo perigosa, com intenções beligerantes e perversas. Através dos depoimentos corajosos de pessoas que fizeram parte da “prisão da crença” da cientologia durante anos – os “auditores” -, Gibney fornece um olhar interno sobre um dos cultos mais polêmicos de todos os tempos, um verdadeiro império, fundamentado em loucuras, dinheiro e coerção que reúne e reuniu nomes famosos em meio às suas fileiras como Tom Cruise, John Travolta e Isaac Hayes – este último já falecido. Going Clear: mais um filme da série histórias inacreditáveis, porém reais.

1 ) O Favorito – Parte 2

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Em pouquíssimas palavras: favorito máximo ao Oscar neste ano. Em poucas palavras: a vida e a trajetória meteórica de uma das maiores cantoras dos últimos tempos. Em muitas palavras: um documentário devastador – também na forma de ensaio -, uma narrativa pungente e emocionante sobre auto-destruição, o retrato de uma das maiores artistas de sua geração, de seu tempo, de sua época e, provavelmente, da história, um filme quase ficcional de tão potente devido à força de sua trama, uma homenagem tardia, uma elegia, uma canção final, uma carta de amor. Amy, o novo filme de Asif Kapadia, é tudo isso e mais um pouco. Um dos melhores filmes do ano, um soco na boca do estômago de tamanha e inacreditável força, uma verdadeira peça cinematográfica do mais alto calibre – e a provável segunda estatueta do diretor, que venceu o prêmio pela primeira vez por Senna.

É isso, semana que vem tem mais previsões. Vamos seguindo que o Oscar tá vindo (tentativa de bordão detectada)!

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