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NOTA: 9 / Renato Furtado

Cinebiografias, sejam elas ficcionais ou documentais, são sempre traiçoeiras. Há um perigo enorme em retratar uma personalidade de grande mérito ou fama – ruim ou boa – ou talento, quase uma daquelas armadilhas para ursos pronta para fechar seus dentes sobre pernas desavisadas. O motivo é muito simples: toda biografia é um resumo e todo resumo, toda síntese deixa escapar, por sua própria natureza, algum ângulo ou algum ponto. Resumir é reduzir a essência de algo ou alguém, um ato tão complexo que, quando mal feito, pode trazer resultados desastrosos. Auto-biografias, no entanto, nem sempre resolvem a problemática: quando se fala sobre si próprio, reduzir é um risco ainda maior. O que fazer diante deste dilema? Pergunte a Stevan Riley, o diretor de A Verdade Sobre Marlon Brando.

Se tanto uma primeira pessoa quanto uma terceira pessoa tem dificuldades em narrar a vida de um indivíduo de tamanho calibre como Marlon Brando, a saída mais viável parece ser também a mais improvável: unir forças, uma vez que nem o guia e nem o relator externo podem fazer esse trabalho sozinhos. No entanto, mais um problema se apresenta: Marlon Brando já deixou essa vida há mais de dez anos. Só que, como todo bom ilusionista, todo bom mago, ainda havia uma última carta na manga do ator: horas e horas e mais horas de gravações pessoais realizadas durante toda sua carreira, um verdadeiro museu erguido pela e para a voz e a persona de Marlon Brando. Utilizando este vasto material pessoal e imagens de arquivos e trechos de filmes, Stevan Riley criou a montagem de seu filme. E o resultado é extremamente próximo ao melhor cenário possível.

A Verdade Sobre Marlon Brando é um documentário, um ensaio sobre a vida e a morte de uma das maiores estrelas de todos os tempos, a biografia de um ícone e um verdadeiro poema. Guiados pela característica voz de Marlon Brando, caminhamos em meio aos seus desejos, suas conquistas, seus medos e seus demônios e que passeio insano e maravilhoso é este. O filme não deixa (quase) nada ficar para trás, desde os primórdios da vida de Brando até seus últimos dias, passando por seus filmes de sucessos, pelos maiores fracassos de sua carreira e pelos grandes regressos às telas de cinema com Apocalypse Now, por exemplo, vemos a trajetória de um ser humano comum – com todas as vantagens e desvantagens de um ser humano comum – que tornou-se um dos maiores de todos os tempos – também com todas as vantagens e desvantagens atreladas a esse novo status.

Através de uma trilha sonora composta da maneira mais bela casada à narração maravilhosamente poética e afetiva de Brando retirada das fitas gravadas pelo ator, onde estão suas memórias e suas tentativas de auto-hipnose, a montagem de Stevan Riley corta caminhos sinuosamente entre os filmes, entrevistas, fotografias e imagens de arquivo que contem Brando, de uma forma ou de outra, e se conecta às singelas, impressionantes e assombrosas imagens captadas pela direção de fotografia do filme, assinada por Ole Bratt Birkeland, reconstituindo a casa vazia do ator enquanto suas imagens captadas digitalmente para um dos primeiros filmes do Super-Homem se demoram fantasmagoricamente em uma televisão antiga criando uma obra cinematográfica que é como um grande fluxo de consciência literário, evocando imagens tão belas que poderiam ter saído de um dos quentes e tensos verões sulistas das obras de William Faulkner ou das lentas e trágicas tardes colombianas dos lindos trabalhos de Gabriel García Márquez.

Para um filme tão afetivo e tão emocional, a dificuldade em escrever uma crítica analítica se prova tamanha que o texto acima provavelmente está mais fundamentado nas impressões e nos sentimentos do que nas técnicas – ainda que a técnica ensaística de Riley e o dispositivo criado pelo diretor e sua equipe para narrarem sua trama sejam das mais altas inteligência e perspicácia, qualidades evidenciadas tanto no ritmo quanto na pulsação do filme. Tomada esta licença poética, a única coisa que resta dizer é que A Verdade Sobre Marlon Brando é um dos melhores filmes do ano e, provavelmente, um dos melhores documentários dos últimos tempos.

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