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NOTA: 8 / Renato Furtado

A política de guerra às drogas nos Estados Unidos é antiga; a criminalização da maconha, por exemplo, data da primeira metade do século vinte. Com a criação de novas drogas mais potentes, sintéticas ou não, a guerra foi declarada, oficial e claramente, no governo Nixon, que levantou essa bandeira com veemência. O conservador Reagan com seu estilo político tresloucado aumentou ainda mais o conflito, agravado, obviamente, nos governos de Bush pai e Bush filho. Atualmente, o cenário da guerra às drogas pode ser visto retratado em filmes como Traffic e Sicário: Terra de Ninguém (nossa crítica aqui), obras com 15 anos de diferença que provam que a situação e o inimigo para os Estados Unidos continuam sendo os mesmos: o México e a atuação de seus cartéis.

Para ir direto ao coração da problemática, o cineasta Matthew Heineman não pensou duas vezes e embarcou com sua equipe para o México e para a região fronteiriça do país latino com os Estados Unidos na área do Arizona para tentar entender a questão da melhor forma possível. É desta missão que surge o documentário vencedor de Sundance, Cartel Land, uma narrativa assustadora sobre o derramamento de sangue e o terror envolvidos nos embates entre os cartéis e as milícias formadas por cidadãos – tanto no lado mexicano quanto no americano. O que parece ser, no entanto, mais um documentário tenso ganha contornos dramáticos com a atuação de Heineman: ao invés de apenas entrevistar e analisar, o documentarista parte para a ação e o resultado é um dos filmes mais impressionantes do ano.

Como se não bastasse evidenciar todos os horrores do conflito, Heineman nos coloca no coração da guerra ao literalmente filmar tudo pelo lado de dentro. Seja acompanhando as tropas das milícias americanas ou mexicanas, a câmera de Heineman nos leva para lugares nunca antes visitados, posicionando o espectador em um local privilegiado: como se nós mesmos fôssemos parte dessas milícias. Tal estrutura narrativa (que mais se assemelha a uma ficção) aliada ao peso dramático inerente ao tema faz com que Cartel Land seja um dos documentários mais corajosos de todos os tempos pois, de fato, coragem é a palavra-chave para definir os esforços dessa equipe.

Valendo-se de um grande controle estético e narrativo – o que é impressionante, já que a equipe se encontrava em meio a uma guerra real – e criando planos dignos dos melhores diretores de fotografia da atualidade (o filme tem chances de concorrer na categoria de Melhor Fotografia no Oscar), o diretor não mede esforços para apresentar a violência e retratar, o mais verdadeiramente possível, uma narrativa que por si só possui traços surrealistas, onde caravanas repletas homens armados até os dentes empunhando fuzis e entonando gritos de guerra passam de cidade em cidade e de vilarejo em vilarejo buscando informações para desentocar os membros dos cartéis e executar sua vingança sobre eles e tropas formadas por americanos comuns vasculha a fronteira do país com o único objetivo de proteger a terra uma vez que (segundo eles) o governo não fornece a ajuda necessária para isso. O Oeste pode ser Velho, mas não dá mostras de sua idade avançada.

Ainda que em sua segunda parte o filme perca um pouco de fôlego (a narrativa perde muito tempo na figura de um dos líderes da milícia mexicana, esquecendo um pouco da temática principal), vale reforçar: esse é um dos esforços cinematográficos mais incríveis dos últimos anos. Isso porque Cartel Land não tem medo de colocar o dedo na ferida, revelando os lados mais podres (não existem outros lados que não esses, de fato) da já falida “guerra às drogas” – a gestação do ódio e do preconceito, a corrupção e a degradação do espírito humano, a violência, o sangue, o descaso das autoridades, o ridículo planejamento político que fomentou ainda mais a criação dos cartéis e o sofrimento do povo, o único “agente” violentado no meio dos grandes interesses governamentais e para-governamentais – e retratando, portanto, um conflito que parece ter sido extraído diretamente dos filmes de faroeste onde a lei é escrita pelas bala e pela força bruta. Uma narrativa de extrema potência, uma trama aterrorizante e amedrontadora, especialmente por ser tão real e próxima.

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