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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

O ditado “uma foto vale mais do que mil palavras” cabe muito bem na fotografia que ilustra esta resenha. No entanto, algumas palavras não machucam ninguém; neste caso, elas inclusive são uma boa companhia para o que os olhos não acreditam ver e o que os ouvidos não acreditam escutar em uma exibição de Going Clear: Scientology and the Prison Belief, o novo filme do veterano e vencedor do Oscar Alex Gibney. Isto se deve ao fato de que a mais nova narrativa de Gibney beira, em diversos momentos, o status do inacreditável, do impossível. Aqui, justamente, entram as palavras: apesar dos pesares, tudo que está no documentário é verdade e é real.

Entrevistando antigos praticantes da cientologia (os “auditores”) e o homem que escreveu o livro que expôs definitivamente os podres do culto criado por L. Ron Hubbard – a controversa figura que serviu de inspiração para o personagem principal de O Mestre, de Paul Thomas Anderson -, Gibney cria um verdadeiro conto de terror baseado na coragem dessas pessoas que tomaram um passo à frente para denunciar ao mundo algo que as fez de prisioneiras (literalmente, em muitos casos) durante anos: a “religião” da Cientologia.

Baseada em uma filosofia de aperfeiçoamento pessoal através do auto-conhecimento – adquirido durante as “sessões” com os “auditores” – dos pontos traumáticos de sua vida e a consequente eliminação dos mesmos para que a vida de um indivíduo possa seguir em frente sem amarras ao passado, a Cientologia foi criada por um homem que vendia contos de ficção científica para as revistas pulp americanas das décadas de 30 e 40 e rapidamente ganhou vários adeptos, encantando as pessoas com promessas vazias que, a princípio, pareciam ser cumpridas conforme os novos auditores começavam a crescer na vida. O poder de persuasão da “religião” é tamanho que famosas celebridades aderem e aderiram ao culto (mais sobre isso daqui a pouco).

No entanto, conforme os corajosos depoimentos das pessoas que conseguiram se libertar das amarras da Cientologia, as coisas começam a desmoronar conforme um indivíduo avança na escala de esclarecimento do culto. Como consequência, no decorrer dos anos, o que era para ser uma forma de religião passou a ser um dos maiores impérios do mundo, através de técnicas de coerção psicológicas, coerção, subornos, extorsões, intimidação e por aí vai.

Utilizando um dispositivo cinematográfico antigo (o famoso estilo ¨talking heads¨ onde entrevistados contam suas percepções sobre o tema em questão), Gibney consegue criar uma montagem dinâmica o suficiente que corta rapidamente entre depoimentos e imagens de arquivos para estruturar o painel aterrorizante que a Cientologia lhe fornece. Mais do que uma denúncia, Going Clear é um filme sobre superação, sobre revolução, sobre pessoas que tiveram a coragem de dizer “basta!” e lutar pelo que de fato acreditam; é uma trama simultaneamente assombrosa, surreal e inspiradora.

Sem deixar de atacar ponto algum e com uma clareza de argumentos impressionante, o diretor constrói seu ataque com paciência e habilidade de modo a não deixar pedra sobre pedra no fim das contas: a Cientologia não é uma religião; é máfia. Isto fica provado quando é abordado o tema das celebridades. Neste ponto, as relações de dois indivíduos com o culto são cruciais para entender a Cientologia: John Travolta e Tom Cruise. Ainda que nenhum dos dois tenha concordado em conceder entrevistas, os depoimentos de conhecidos e imagens de arquivo dão conta do que os dois não concordaram (ou não foram permitidos) em contar.

Contando com uma estética longe de ser inovadora, mas com coragem e objetividade revigorantes, Alex Gibney trabalha bem o dispositivo sempre com fôlego de sobra e entrega Going Clear como um filme que vai muito além das convenções dos documentários: esta é uma narrativa sobre as próprias ficções que alimentamos para lidarmos com a realidade, um registro documental de uma história tão irreal, mas tão irreal que só poderia mesmo ser a mais pura verdade. Filmaço.

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