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NOTA: 8 / Renato Furtado

Se este filme chega neste momento do ano e nesta altura do campeonato como o favorito dos favoritos para vencer em uma das disputas mais acirradas dos últimos tempos na categoria de Melhor Documentário não é por acaso. Longe disso. Amy, o novo filme do diretor Asif Kapadia é quase uma clássica tragédia grega. Acompanhamos a trajetória de sua personagem principal, a genial cantora Amy Winehouse, desde os primórdios de sua carreira e dos primeiros despontamentos de seu talento inesgotável até o momento em que a cantora atingiu a espiral de desventuras que a levou para o seu inevitável final.

Montando – a edição de Amy é crucial para seu sucesso, intercalando cenas em estúdios de gravação, no banco de trás de táxis e em passeios despretensiosos com as demos das músicas da cantora ou suas primeiras gravações de seus maiores sucessos – seu filme como um ensaio baseado fortemente nas imagens de arquivo de celulares, filmagens realizadas pelos amigos da cantora que a capturaram nos seus momentos mais íntimos e mais pessoais e nos depoimentos de grande parte dos indivíduos que participaram da caminhada de Amy, Kapadia torce e manipula um gênero – o documentário biográfico musical – com habilidade suficiente e controle estético tamanho até criar o brilhante filme que criou.

Kapadia já tinha demonstrado sua técnica em Senna, filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Documentário alguns anos atrás, mas Amy foi um desafio de outro nível. Enquanto Senna era um ótimo personagem sem a menor sombra de dúvidas, Amy Winehouse foi escrita pela vida, pelo destino, pelo universo, pelo cosmos ou seja lá pelo que você quiser como a heroína trágica perfeita destinada a morrer de amor, impossibilitada de fugir do final de sua jornada. E estar diante de um personagem (real, ainda por cima) desta magnitude – bigger than life, como diriam os americanos – não é tarefa simples. Muito pelo contrário.

Mas, o diretor, inteligente como é, soube ir direto ao ponto. Muito mais do que um documentário brilhantemente técnico e de ritmo perfeitamente musical, triste e dinâmico, Amy é um filme afetivo e emocionante: esse é o grande trunfo. É muito mais do que uma cinebiografia ou uma denúncia do mal que as drogas fazem aos seres humanos ou do que a exposição do caráter predatório da mídia e do capitalismo voraz direcionado ao mercado fonográfico; é muito mais do que um drama real, do que a história da queda de uma cantora ou do que a trajetória de um ícone. Amy – assim como A Verdade Sobre Marlon Brando – é poesia em forma de cinema.

Acima de qualquer coisa, o que mais chama a atenção nesse filme é o coração que pulsa em cada cena, impossível de esconder que faz com que Amy seja uma carta de amor emocionante e perturbadora, um relato devastador, uma narrativa selvagem, uma trama enlouquecedora, uma homenagem, um tributo, o retrato de uma artista no topo de suas qualidades e de seu talento e a celebração definitiva daquela que será, provavelmente, lembrada – que talvez já seja – como uma das maiores cantoras que o mundo já viu. Capturar essa essência não é feito para muitos. É mérito de um grande diretor, de verdade.

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