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Renato Furtado

Esta é de, longe, uma das minhas categorias favoritas. Através de planos bem estudados, bem construídos, de uma estruturação perfeita da iluminação e de uma incrível sincronia com a montagem, os diretores de fotografia são os grandes visionários – técnicos e artísticos – responsáveis por colocar a mão na massa e trazer para este humilde mundo algumas das imagens mais belas que nossos olhos verão em suas existências.

A introdução tem que ser poética mesmo para uma categoria que premia aqueles que vão fundo na poesia e que investem pesado na jornada em busca da beleza escondida – seja em cenas naturalmente belas ou em cenas aterrorizantes, em cenas suaves e sensíveis e em cenas obscuras e violentas – em cada canto do mundo criado especialmente para os filmes em questão.

Esta é uma categoria em que os apostadores e especialistas lá dos estrangeiros concordam – ainda que não na ordem certa – sobre os indicados. Nós, humildemente, concordamos com eles. Vamos às nossas apostas!

5) O Combatente: John Seale – Mad Max: A Estrada Fúria

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John Seale explicou, certa vez, que buscou centralizar tudo que estava na tela em Mad Max. O motivo disso é que nossos olhos são naturalmente atraídos para o que está no meio da imagem e, depois, é que, uma vez acostumados, começamos a vasculhar os outros cantos do quadro. Em meio a toda ação verdadeiramente insana de Mad Max, Seale preocupou-se em não deixar a narrativa sair do seu controle e nem do controle do diretor George Miller. Portanto, desenvolveu essa aproximação em relação ao material. Além de nos manter focados nas partes importantes no meio da loucura e do caos, as lentes de Seale acompanharam toda a movimentação megalomaníaca de carros e pessoas no filme com competência, sem deixar cair o ritmo em momento algum e criaram um dos mais belos mundos pós-apocalípticos da história do cinema com belíssimas e perturbadoras paisagens todas em tons muito fortes e saturados, criando um estilo único e especial para aquele que foi um dos melhores filmes de 2015 e também dos últimos anos.

4) O Elegante: Edward Lachmann – Carol

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Através de tonalidades pasteis e de nuances cinzentas, conferindo um tom pouco saturado e pouco contrastado, utilizando mais a luz do que as sombras, Edward Lachmann cria a atmosfera perfeita para Carol, nos colocando diretamente no forte romance de época que a narrativa é – um caso amoroso entre duas mulheres na década de 50, algo impensável para o período. Construindo planos plasticamente belos baseados no grande jogo de interpretação entre as duas maravilhosas atrizes principais do filme (Cate Blanchett e Rooney Mara), aproveitando seus silêncios, seus momentos e seus sentimentos com o máximo potencial artístico possível, a fotografia de Lachmann é a elegância personificada em trabalho cinematográfico.

3) O Pistoleiro: Robert Richardson – Os Oito Odiados

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Dando prosseguimento a incrivelmente bem sucedida parceria com Quentin Tarantino (o fotógrafo em questão trabalhou com o diretor em todos seus filmes desde Kill Bill, exceto em À Prova de Morte), Robert Richardson conseguiu mais uma vez trazer à vida o estilo cinematográfico de Tarantino. Fortemente baseado em influências da cultura pop e em filmes antigos da onde Tarantino retira muitas referências e rimas para suas narrativas, o estilo do diretor encontrou o parceiro ideal no trabalho fotográfico de Richardson (duas vezes ganhador do Oscar, por JFK e A Invenção de Hugo Cabret). Em Os Oito Odiados, o tema é um faroeste tarantinesco-fordiano onde oito seres humanos extremamente perigosos presos em uma cabana no meio do nada durante uma nevasca, com bastante sangue e bastante paisagens de tirar o fôlego. Além disso, Os Oito Odiados foi filmado como um épico no “glorioso” formato de 70mm, utilizado nos clássicos do cinema de faroeste e em narrativas como Ben-Hur e Lawrence da Arábia. Se Tarantino aposta tão alto quanto aposta é porque é tão bem apoiado por Richardson na direção de fotografia.

2) O Gênio: Roger Deakins – Sicário: Terra de Ninguém

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Grande parte dos fotógrafos pode citar Gordon Willis (o homem por trás das lentes de O Poderoso Chefão e Manhattan) como um dos maiores diretores de fotografia de todos os tempos. Outra grande parte pode citar Roger Deakins. E com toda a razão; passam os anos e Deakins continua no topo do jogo. 12 vezes indicado ao Oscar – merecidamente -, o britânico consegue em Sicário: Terra de Ninguém um feito impressionante: tornar ainda mais aterrorizante um verdadeiro filme de terror disfarçado de filme policial baseado em uma história real. A sequência da ponte, por exemplo, só tira tanto nosso fôlego porque Deakins, sempre almejando uma fotografia naturalista, cria planos e compõe sequências como ninguém. Deakins é um gênio, um maestro, um guru da fotografia, um fotógrafo que não é nem de perto humano; é, sim, sobrenatural. Ainda, a dupla formada por Deakins com o diretor Dennis Villeneuve é uma das grandes parcerias artísticas-técnicas do cinema na atualidade.

1) O Favorito/O Mestre: Emmanuel Lubezki – O Regresso

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O problema para Deakins é que há um outro grande fotógrafo em seu caminho, um artista que está se encaminhando para escrever seu nome na história do cinema; não será surpresa alguma, inclusive, se este começar a ser colocado junto a Deakins e Willis na categoria de melhor diretor de fotografia de todos os tempos. Estamos falando, é claro, do mexicano Emanuel Lubezki. Seus trabalhos falam por si: é o fotógrafo de Alfonso Cuarón (o plano-sequência de Os Filhos da Esperança é, com certeza, um dos planos-sequência mais famosos do cinema e um dos mais engenhosos e a linda captura do espaço realizada em Gravidade, trabalho que rendeu o primeiro Oscar ao mexicano), de Terrence Malick (Lubezki fez a surrealmente bela fotografia de A Árvore da Vida e fez de Amor Pleno um veículo perfeito para demonstrar todos os seus talentos, uma vez que esta narrativa de Malick é a pior de sua carreira) e, agora, de Iñarritu (a proeza técnica da fotografia sem cortes de Birdman já entrou para a história cinematográfica e rendeu o segundo Oscar seguido do mexicano).

Em O Regresso, a dupla decidiu filmar a trama inteiramente utilizando apenas luz natural – um desafio enorme em termos cinematográficos, raramente realizado por causa dos requisitos técnicos requeridos pelo projeto; além disso, as cena batalha tiram todo e qualquer fôlego. Para completar a defesa do caso para o terceiro Oscar seguido de Lubezki, O Regresso só é a verdadeira obra de arte que é por causa do trabalho deste fotógrafo.

PS: Lubezki registrou as gravações de O Regresso em seu Instagram, verdadeiros diários fotográficos da mais extrema beleza. Confira aqui!

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