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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

A vida nada mais é do que uma história repleta de som e de fúria, contada por um tolo, uma história que não significa absolutamente nada. São essas as palavras proferidas por Macbeth em determinado momento da peça homônima escrita por William Shakespeare – provavelmente um dos melhores e mais significativos trabalhos do autor inglês -, citação esta que soa aos ouvidos com familiaridade dada a importância e o impacto desse monólogo – é possível vê-lo em Birdman, por exemplo. Tudo isto para dizer: a nova adaptação de Macbeth para o cinema, nas mãos do diretor Justin Kurzel, é barulhenta, furiosa e repleta de significados.

Nas mãos deste cineasta australiano, a obra de Shakespeare ganha novos contornos: se no texto original a grande temática da obra é o poder, esta adaptação traz as nuances da ambição e da guerra (evidenciadas, sem necessidade, mas com  inteligência, pelo título brasileiro do filme). Aqui vemos guerra e sangue – além da loucura e a busca pelo poder – e é justamente isto que faz a versão de Kurzel se inscrever na história cinematográfica: ao sair do caminho das adaptações anteriores (as mais notórias sendo a brilhante adaptação de Orson Welles e a versão de Roman Polanski, nos anos setenta), Kurzel confere peso e qualidade suficiente para sua trama possuir um estilo próprio – algo de suma importância quando estamos tratando da adaptação de uma das obras mais famosas de todos os tempos.

Esta conquista pode ser verificada nas escolhas acertadas realizadas pelo diretor. No campo da trilha sonora o filme se destaca com faixas musicais arrepiantes e sombrias, compostas por Jed Kurzel, irmão do diretor e a montagem do filme evidencia a estética escolhida para esta versão, baseada fortemente na escuridão e em tonalidades escuras na maior parte da produção e, em momentos chave, a utilização de tons fortíssimos como o vermelho-sangue ou um laranja potente que tomavam conta do filme, ambientando-o quase com uma graphic novel. A estética visual é mérito, evidentemente, do trabalho realizado pelo fotógrafo Adam Arkapaw, construindo um Macbeth das planícies escocesas, lembrando, em muitas ocasiões, os vastos prados da Terra Média criada por Peter Jackson no cinema. No quesito técnico, este Macbeth é, sem dúvidas, o melhor, dos planos cuidadosamente preparados à utilização da luz, todas escolhas perfeitas para um design de produção muito interessante.

Além disso, mais dois pontos positivos chamam a atenção. O primeiro é em relação ao roteiro: os roteiristas desta versão decidiram se ater ao texto de Shakespeare – esse elemento pode incomodar alguns espectadores, por aparentar, erroneamente, diga-se de passagem, ser pouco cinematográfico. Isso quer dizer que é mais do que frequente ver Michael Fassbender ou Marion Cotillard declamarem longos monólogos montados para prescindir de qualquer ação que não a fala, um aspecto crucial nos trabalhos teatrais e na obra de Shakespeare, especificamente, uma vez que o texto do inglês é maravilhoso. Claro que por mais que os diálogos sejam incríveis, eles não funcionam se não existirem atores preparados para assumir essas linhas; ainda bem que em Macbeth: Ambição e Guerra não faltam bons atores.

David Thewlis, Paddy Considine e Sean Harris são ótimos atores e demonstram capacidades performáticas que poderiam muito bem ser mais utilizadas em outros filmes – principalmente Thewlis, conhecido por ter feito o personagem Lupin na saga Harry Potter e por ter sido a voz de Michael em Anomalisa. Suas atuações seguem o caminho liderado pelo ator principal, cheias de som e fúria, guerreiros corajosos e destemidos bradando pelo combate. Falando em Macbeth, Fassbender é, sem dúvidas, um dos melhores a interpretar o Rei. Sua atuação é visceral e sua loucura é genial – como ele mesmo diz, sua mente está cheia de escorpiões, lançando um sorriso perverso para Lady Macbeth -, muito baseada na força física, na virilidade, demonstrando poder, crueldade e perigo em movimentos e olhares, mesmo quando a fotografia o enquadra como um ser minúsculo perante o tamanho das paisagens que o cercam ou afundando em seu trono no enorme castelo.

No entanto, o grande calcanhar de Aquiles do filme reside justamente no departamento das atuações. Mais especificamente na parte da roteirização e da construção dos personagens. Se Marion Cotillard não brilha – como de costume – é porque sua Lady Macbeth não recebe atenção suficiente nem do roteiro e nem da direção. Este é um problema grave porque Lady Macbeth é, sem dúvidas, a personagem mais interessante desta peça e uma das personagens mais interessantes já criadas na história do mundo. Com o pouco que recebe, no entanto, Cotillard faz milagres e controla nossas emoções com habilidade e maestria em seus monólogos e em sua interpretação sutil, porém poderosa. É verdadeiramente uma pena que ela não tenha sido melhor aproveitada – o pecado é tão grande que ela chega a ficar “de canto” em determinada parte da narrativa.

Apesar do grave equívoco mencionado acima, Macbeth: Ambição e Guerra funciona. É um dos filmes com mais estilo de 2015, no sentido de que todos os ramos da concepção artística do filme trabalharam em uníssono para criar uma atmosfera nova para o mundo de Macbeth e, ainda assim, bastante familiar. Macbeth é considerado um “texto maldito” dada a sua dificuldade de adaptação – tanto para os palcos quanto para as telas. Portanto, repito: Justin Kurzel triunfa não só por adaptar com sucesso esta obra para o cinema; triunfa também por fazer uma versão com sua assinatura, que pode ser comparada às outras grandes versões que a precederam e, ainda assim, se manter firme. Esta é uma grande conquista.

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