Busca

Cinema2Manos

Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

dezembro 2015

#VISÃO DOS MANOS – Star Wars: O Despertar da Força (JJ Abrams, 2015)

Confira as críticas sem spoilers dos nossos manos.

stfa.png

#FALA CAIO

Nota: 9,5

Em determinado momento, após o fim da exibição deste O Despertar da Força, me lembro de ter olhado para o meu mano Renato e ter dito para ele que: “se eu desse a nota agora, seria 13″. Esta constatação era apenas o reflexo de um jovem exposto ao frisson de ter acabado de assistir a um dos filmes mais poderosos do ano. E por poderosos, eu digo não apenas pela indiscutível qualidade da produção, mas por toda a atmosfera criada pelo verdadeiro império da saga, que foi se tornando mais relevantes durante os seus quase 40 anos. Nesta resenha, nada de spoilers. Mas vamos falar um pouco sobre o filme.

Primeiramente, todas as honras para J.J. Abrahams. Visionário, o diretor é o maior dos responsáveis pelo sucesso do novo longa. Ele entrega talvez o mais bem dirigido filme da franquia. Com ele, esquecemos a baboseira digitalizada que foram os filmes da segunda trilogia – com a leve exceção de A vingança dos Sith. O comandante tem todo o controle da loucura de outro planeta que é colocar milhares de naves em uma corrida na galáxia. Simplesmente sensacional. J.J. é um dos maiores diretores de sua geração e merece cada parte do seu sucesso.

Tecnicamente impecável, Star Wars – O Despertar da Força não evidencia em momento algum o quanto a produção foi corrida. Durante a press conference do elenco e equipe, semana passada, em Los Angeles, o ator Andy Serkis confidenciou que começou os trabalhos no filme sem saber o visual de seu personagem. De nada atrapalhou. Talvez em alguns momentos meu coração pedisse um pouco mais de tempo para digerir situações do roteiro. Mas, ok. NADA DE SPOILERS.

Uma das maiores dúvidas sobre a produção destes novos filmes, o elenco “mata a cobra e mostra o sabre de luz”. Daisy Ridley é a melhor dos novatos. Sensacional. Boa atriz de ação, dá conta do drama de sua misteriosa personagem – além de ser muito bonita aka minha futura esposa. perdão bruna marquezine. Enquanto isso, John Boyega, Oscar Isaac e Adam Driver correm atrás, bem de perto, entregando excelentes atuações – embora Oscar sofra com o desenvolvimento irregular de seu personagem. Já dos veteranos, Harrison Ford supera as expectativas e retorna ao manto de Han Solo como se o tempo não tivesse passado. Beeeeeem diferente de quando interpretou um cansado e descaracterizado Indiana Jones. Carrie Fisher e o restante do elenco clássico também esbanja identificação com seus personagens – e cada cena com eles, é um deleite para os fãs.

Eu poderia falar aqui pra sempre, se eu tivesse a liberdade de começar a dar spoilers para vocês, queridos leitores. Mas esse momento virá. Até lá, posso dar um spoiler do meu coração. Que Bing Bong não me ouça, mas acho que o BB-8 conquistou o lugar de coisa inanimada preferida do Caio.

Um filme espetacular, um espetáculo sensacionalmente orquestrado e pronto para ser apreciado por seu público. Longa vida a Star Wars 🙂

#FALA RENATO

Nota: 9

Para começo de conversa: o sétimo episódio da franquia Star Wars é tudo o que você espera e mais um pouco. Está tudo lá e quando chegamos à já célebre cena mostrada no trailer onde Han Solo diz “Chewie, estamos em casa”, é assim que o espectador se sente também. A casa está um pouco diferente, é verdade, mas, no fim das contas, ela é a mesma de antes, sua essência está lá, suas fundações são as mesmas e o seu espírito de “lar, doce lar” é mais forte do que nunca. Tudo isto faz com que O Despertar da Força seja, sem sombra de dúvidas, o melhor filme da franquia desde a década de 80.

O mote do novo episódio é simples: acompanhamos a saga de Poe Dameron (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), Rey (Daisy CASA COMIGO POR FAVOR NOVA PAIXÃO DA MINHA VIDA Ridley) e todos os outros personagens que já amamos como Han Solo e Chewbacca versus as forças do lado sombrio de Kylo Ren (Adam Driver) e do General Hux (Domnhall Gleeson), enquanto nossos heróis precisam completar uma missão de busca que é o principal objetivo deles na trama (objetivo explicado logo nos lindos e clássicos créditos iniciais). Logo, fiquem tranquilos: tudo que está aí acima está nos trailers – já que este maravilhoso texto está livre da praga dos spoilers.

Portanto, falarei mais do que senti vendo o filme. Antes de mais nada, se você é um alienígena e está realmente considerando NÃO ver este filme, reconsidere sua vida. Além disso, se você está realmente considerando NÃO ver este filme nos cinemas, ponha a mão na consciência. A experiência de ver um episódio da saga Star Wars é indescritível, ainda mais quando todo a plateia está com o mesmo espírito – o de amar e de se emocionar com todo o coração e alma – é verdadeiramente incrível. Pessoas que não se conhecem, que nunca se viram na vida, que vieram de histórias, juntas para assistir e amar com tanta vontade um filme. Talvez por isso o cinema seja tão mágico e tão encantador.

Obviamente, ajuda quando toda sua equipe é tão talentosa quanto a equipe deste episódio. A direção de JJ Abrams é mais do que competente e toda a dinâmica construída pelo seu trabalho confere uma unidade narrativa crucial à trama – talvez este seja o melhor filme do diretor. Claramente, a trilha sonora de John Williams dispensa comentários, sendo genial como sempre. O que vale destacar, especialmente, é a fotografia de Dan Mindel – colaborador de Abrams nos dois Star Treks. Os planos criados por Mindel são muito belos, utilizando a iluminação com grande inteligência e as paisagens como se fossem retiradas de filmes de faroeste de John Ford, os personagens diminutos em relação ao tamanho esmagador dos cenários à sua volta.

Além disso, outro grande trunfo do filme é o elenco – infinitamente melhor em relação aos elencos dos outros episódios -, perfeitamente sintonizado e consciente dos limites e trunfos de seus papeis. Daisy Ridley é uma das revelações do ano; John Boyega e Oscar Isaac enchem a tela com carisma; Adam Driver e Domnhall Gleeson – ainda que este seja subutilizado – conferem maldade suficiente a seus papeis para que possamos temer de verdade pelas vidas de nossos heróis; Max von Sydow é sempre uma presença incrível em cena; e, é claro, ver Harrison Ford ao papel que o consagrou e que – juntamente a Indiana Jones – o colocou na história do cinema, é simplesmente maravilhoso.

Ainda que algumas coisas não sejam novidade para os fãs da série em termos de narrativa e de tramas, o sétimo episódio de Star Wars é novidade por todos os méritos mencionados acima, sendo muito superior em termos técnicos a todos os outros episódios. A técnica aliada à emoção e a grande capacidade de JJ Abrams como um verdadeiro e competente narrador fazem com que O Despertar da Força seja um dos melhores filmes de 2015, um dos melhores filmes da saga e motivo mais do que suficiente para continuarmos acreditando que a série Star Wars ainda tem magia suficiente para nos encantar por gerações e gerações. Um filme que já é um clássico.

À esquerda, Renato Furtado. Do ladin, Caio César.
À esquerda, Renato Furtado. Do ladin, Caio César.
Anúncios

A Força desperta hoje, nos cinemas do Brasil!

Episode_VII_Logo

Por Caio César

O décimo sétimo dia do mês de dezembro, no ano dois mil e quinze é, sem dúvida nenhuma, um dos mais aguardados dias da história do cinema. Isso porque, talvez nunca antes um filme foi recebido em meio à um frisson e buzz tão grande quanto este novo Star Wars – O Despertar da Força. Dirigido por JJ Abrahams, o filme segue as aventuras de Han Solo e companhia no espaço, em uma continuação direta da trilogia clássica de Guerra nas Estrelas.

Estreando em mais de 1.300 salas em todo o país, o filme está esgotado em várias praças – que acusam apenas ter ingresso para sessões da próxima semana. Nos EUA, onde estreia na sexta, avaliasse que o filme arrecadará uma das maiores rendas de abertura para um filme, de todos os tempos.

Nós, do C2M vamos assistir ao filme nesta manhã, e em seguida, lançar a Visão dos Manos, comentando o longa. E pra você, que talvez possa ter se perdido em sua organização, segue uma playlist montada com tudo o que você deve saber sobre a trilogia original antes de assistir ao novo filme.

Que a força esteja com você.

Oscar 2016: APOSTAS C2M – Amy (Asif Kapadia, 2015)

amy-winehouse-doc-2

NOTA: 8 / Renato Furtado

Se este filme chega neste momento do ano e nesta altura do campeonato como o favorito dos favoritos para vencer em uma das disputas mais acirradas dos últimos tempos na categoria de Melhor Documentário não é por acaso. Longe disso. Amy, o novo filme do diretor Asif Kapadia é quase uma clássica tragédia grega. Acompanhamos a trajetória de sua personagem principal, a genial cantora Amy Winehouse, desde os primórdios de sua carreira e dos primeiros despontamentos de seu talento inesgotável até o momento em que a cantora atingiu a espiral de desventuras que a levou para o seu inevitável final.

Montando – a edição de Amy é crucial para seu sucesso, intercalando cenas em estúdios de gravação, no banco de trás de táxis e em passeios despretensiosos com as demos das músicas da cantora ou suas primeiras gravações de seus maiores sucessos – seu filme como um ensaio baseado fortemente nas imagens de arquivo de celulares, filmagens realizadas pelos amigos da cantora que a capturaram nos seus momentos mais íntimos e mais pessoais e nos depoimentos de grande parte dos indivíduos que participaram da caminhada de Amy, Kapadia torce e manipula um gênero – o documentário biográfico musical – com habilidade suficiente e controle estético tamanho até criar o brilhante filme que criou.

Kapadia já tinha demonstrado sua técnica em Senna, filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Documentário alguns anos atrás, mas Amy foi um desafio de outro nível. Enquanto Senna era um ótimo personagem sem a menor sombra de dúvidas, Amy Winehouse foi escrita pela vida, pelo destino, pelo universo, pelo cosmos ou seja lá pelo que você quiser como a heroína trágica perfeita destinada a morrer de amor, impossibilitada de fugir do final de sua jornada. E estar diante de um personagem (real, ainda por cima) desta magnitude – bigger than life, como diriam os americanos – não é tarefa simples. Muito pelo contrário.

Mas, o diretor, inteligente como é, soube ir direto ao ponto. Muito mais do que um documentário brilhantemente técnico e de ritmo perfeitamente musical, triste e dinâmico, Amy é um filme afetivo e emocionante: esse é o grande trunfo. É muito mais do que uma cinebiografia ou uma denúncia do mal que as drogas fazem aos seres humanos ou do que a exposição do caráter predatório da mídia e do capitalismo voraz direcionado ao mercado fonográfico; é muito mais do que um drama real, do que a história da queda de uma cantora ou do que a trajetória de um ícone. Amy – assim como A Verdade Sobre Marlon Brando – é poesia em forma de cinema.

Acima de qualquer coisa, o que mais chama a atenção nesse filme é o coração que pulsa em cada cena, impossível de esconder que faz com que Amy seja uma carta de amor emocionante e perturbadora, um relato devastador, uma narrativa selvagem, uma trama enlouquecedora, uma homenagem, um tributo, o retrato de uma artista no topo de suas qualidades e de seu talento e a celebração definitiva daquela que será, provavelmente, lembrada – que talvez já seja – como uma das maiores cantoras que o mundo já viu. Capturar essa essência não é feito para muitos. É mérito de um grande diretor, de verdade.

Oscar 2016: APOSTAS C2M – Going Clear: Scientology and the Prison of Belief (Alex Gibney, 2015)

sc.jpg

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

O ditado “uma foto vale mais do que mil palavras” cabe muito bem na fotografia que ilustra esta resenha. No entanto, algumas palavras não machucam ninguém; neste caso, elas inclusive são uma boa companhia para o que os olhos não acreditam ver e o que os ouvidos não acreditam escutar em uma exibição de Going Clear: Scientology and the Prison Belief, o novo filme do veterano e vencedor do Oscar Alex Gibney. Isto se deve ao fato de que a mais nova narrativa de Gibney beira, em diversos momentos, o status do inacreditável, do impossível. Aqui, justamente, entram as palavras: apesar dos pesares, tudo que está no documentário é verdade e é real.

Entrevistando antigos praticantes da cientologia (os “auditores”) e o homem que escreveu o livro que expôs definitivamente os podres do culto criado por L. Ron Hubbard – a controversa figura que serviu de inspiração para o personagem principal de O Mestre, de Paul Thomas Anderson -, Gibney cria um verdadeiro conto de terror baseado na coragem dessas pessoas que tomaram um passo à frente para denunciar ao mundo algo que as fez de prisioneiras (literalmente, em muitos casos) durante anos: a “religião” da Cientologia.

Baseada em uma filosofia de aperfeiçoamento pessoal através do auto-conhecimento – adquirido durante as “sessões” com os “auditores” – dos pontos traumáticos de sua vida e a consequente eliminação dos mesmos para que a vida de um indivíduo possa seguir em frente sem amarras ao passado, a Cientologia foi criada por um homem que vendia contos de ficção científica para as revistas pulp americanas das décadas de 30 e 40 e rapidamente ganhou vários adeptos, encantando as pessoas com promessas vazias que, a princípio, pareciam ser cumpridas conforme os novos auditores começavam a crescer na vida. O poder de persuasão da “religião” é tamanho que famosas celebridades aderem e aderiram ao culto (mais sobre isso daqui a pouco).

No entanto, conforme os corajosos depoimentos das pessoas que conseguiram se libertar das amarras da Cientologia, as coisas começam a desmoronar conforme um indivíduo avança na escala de esclarecimento do culto. Como consequência, no decorrer dos anos, o que era para ser uma forma de religião passou a ser um dos maiores impérios do mundo, através de técnicas de coerção psicológicas, coerção, subornos, extorsões, intimidação e por aí vai.

Utilizando um dispositivo cinematográfico antigo (o famoso estilo ¨talking heads¨ onde entrevistados contam suas percepções sobre o tema em questão), Gibney consegue criar uma montagem dinâmica o suficiente que corta rapidamente entre depoimentos e imagens de arquivos para estruturar o painel aterrorizante que a Cientologia lhe fornece. Mais do que uma denúncia, Going Clear é um filme sobre superação, sobre revolução, sobre pessoas que tiveram a coragem de dizer “basta!” e lutar pelo que de fato acreditam; é uma trama simultaneamente assombrosa, surreal e inspiradora.

Sem deixar de atacar ponto algum e com uma clareza de argumentos impressionante, o diretor constrói seu ataque com paciência e habilidade de modo a não deixar pedra sobre pedra no fim das contas: a Cientologia não é uma religião; é máfia. Isto fica provado quando é abordado o tema das celebridades. Neste ponto, as relações de dois indivíduos com o culto são cruciais para entender a Cientologia: John Travolta e Tom Cruise. Ainda que nenhum dos dois tenha concordado em conceder entrevistas, os depoimentos de conhecidos e imagens de arquivo dão conta do que os dois não concordaram (ou não foram permitidos) em contar.

Contando com uma estética longe de ser inovadora, mas com coragem e objetividade revigorantes, Alex Gibney trabalha bem o dispositivo sempre com fôlego de sobra e entrega Going Clear como um filme que vai muito além das convenções dos documentários: esta é uma narrativa sobre as próprias ficções que alimentamos para lidarmos com a realidade, um registro documental de uma história tão irreal, mas tão irreal que só poderia mesmo ser a mais pura verdade. Filmaço.

Oscar 2016: APOSTAS C2M – Cartel Land (Matthew Heineman, 2015)

cland.jpg

NOTA: 8 / Renato Furtado

A política de guerra às drogas nos Estados Unidos é antiga; a criminalização da maconha, por exemplo, data da primeira metade do século vinte. Com a criação de novas drogas mais potentes, sintéticas ou não, a guerra foi declarada, oficial e claramente, no governo Nixon, que levantou essa bandeira com veemência. O conservador Reagan com seu estilo político tresloucado aumentou ainda mais o conflito, agravado, obviamente, nos governos de Bush pai e Bush filho. Atualmente, o cenário da guerra às drogas pode ser visto retratado em filmes como Traffic e Sicário: Terra de Ninguém (nossa crítica aqui), obras com 15 anos de diferença que provam que a situação e o inimigo para os Estados Unidos continuam sendo os mesmos: o México e a atuação de seus cartéis.

Para ir direto ao coração da problemática, o cineasta Matthew Heineman não pensou duas vezes e embarcou com sua equipe para o México e para a região fronteiriça do país latino com os Estados Unidos na área do Arizona para tentar entender a questão da melhor forma possível. É desta missão que surge o documentário vencedor de Sundance, Cartel Land, uma narrativa assustadora sobre o derramamento de sangue e o terror envolvidos nos embates entre os cartéis e as milícias formadas por cidadãos – tanto no lado mexicano quanto no americano. O que parece ser, no entanto, mais um documentário tenso ganha contornos dramáticos com a atuação de Heineman: ao invés de apenas entrevistar e analisar, o documentarista parte para a ação e o resultado é um dos filmes mais impressionantes do ano.

Como se não bastasse evidenciar todos os horrores do conflito, Heineman nos coloca no coração da guerra ao literalmente filmar tudo pelo lado de dentro. Seja acompanhando as tropas das milícias americanas ou mexicanas, a câmera de Heineman nos leva para lugares nunca antes visitados, posicionando o espectador em um local privilegiado: como se nós mesmos fôssemos parte dessas milícias. Tal estrutura narrativa (que mais se assemelha a uma ficção) aliada ao peso dramático inerente ao tema faz com que Cartel Land seja um dos documentários mais corajosos de todos os tempos pois, de fato, coragem é a palavra-chave para definir os esforços dessa equipe.

Valendo-se de um grande controle estético e narrativo – o que é impressionante, já que a equipe se encontrava em meio a uma guerra real – e criando planos dignos dos melhores diretores de fotografia da atualidade (o filme tem chances de concorrer na categoria de Melhor Fotografia no Oscar), o diretor não mede esforços para apresentar a violência e retratar, o mais verdadeiramente possível, uma narrativa que por si só possui traços surrealistas, onde caravanas repletas homens armados até os dentes empunhando fuzis e entonando gritos de guerra passam de cidade em cidade e de vilarejo em vilarejo buscando informações para desentocar os membros dos cartéis e executar sua vingança sobre eles e tropas formadas por americanos comuns vasculha a fronteira do país com o único objetivo de proteger a terra uma vez que (segundo eles) o governo não fornece a ajuda necessária para isso. O Oeste pode ser Velho, mas não dá mostras de sua idade avançada.

Ainda que em sua segunda parte o filme perca um pouco de fôlego (a narrativa perde muito tempo na figura de um dos líderes da milícia mexicana, esquecendo um pouco da temática principal), vale reforçar: esse é um dos esforços cinematográficos mais incríveis dos últimos anos. Isso porque Cartel Land não tem medo de colocar o dedo na ferida, revelando os lados mais podres (não existem outros lados que não esses, de fato) da já falida “guerra às drogas” – a gestação do ódio e do preconceito, a corrupção e a degradação do espírito humano, a violência, o sangue, o descaso das autoridades, o ridículo planejamento político que fomentou ainda mais a criação dos cartéis e o sofrimento do povo, o único “agente” violentado no meio dos grandes interesses governamentais e para-governamentais – e retratando, portanto, um conflito que parece ter sido extraído diretamente dos filmes de faroeste onde a lei é escrita pelas bala e pela força bruta. Uma narrativa de extrema potência, uma trama aterrorizante e amedrontadora, especialmente por ser tão real e próxima.

Oscar 2016: APOSTAS C2M – A Verdade Sobre Marlon Brando (Stevan Riley, 2015)

29LISTEN-facebookJumbo-v2

NOTA: 9 / Renato Furtado

Cinebiografias, sejam elas ficcionais ou documentais, são sempre traiçoeiras. Há um perigo enorme em retratar uma personalidade de grande mérito ou fama – ruim ou boa – ou talento, quase uma daquelas armadilhas para ursos pronta para fechar seus dentes sobre pernas desavisadas. O motivo é muito simples: toda biografia é um resumo e todo resumo, toda síntese deixa escapar, por sua própria natureza, algum ângulo ou algum ponto. Resumir é reduzir a essência de algo ou alguém, um ato tão complexo que, quando mal feito, pode trazer resultados desastrosos. Auto-biografias, no entanto, nem sempre resolvem a problemática: quando se fala sobre si próprio, reduzir é um risco ainda maior. O que fazer diante deste dilema? Pergunte a Stevan Riley, o diretor de A Verdade Sobre Marlon Brando.

Se tanto uma primeira pessoa quanto uma terceira pessoa tem dificuldades em narrar a vida de um indivíduo de tamanho calibre como Marlon Brando, a saída mais viável parece ser também a mais improvável: unir forças, uma vez que nem o guia e nem o relator externo podem fazer esse trabalho sozinhos. No entanto, mais um problema se apresenta: Marlon Brando já deixou essa vida há mais de dez anos. Só que, como todo bom ilusionista, todo bom mago, ainda havia uma última carta na manga do ator: horas e horas e mais horas de gravações pessoais realizadas durante toda sua carreira, um verdadeiro museu erguido pela e para a voz e a persona de Marlon Brando. Utilizando este vasto material pessoal e imagens de arquivos e trechos de filmes, Stevan Riley criou a montagem de seu filme. E o resultado é extremamente próximo ao melhor cenário possível.

A Verdade Sobre Marlon Brando é um documentário, um ensaio sobre a vida e a morte de uma das maiores estrelas de todos os tempos, a biografia de um ícone e um verdadeiro poema. Guiados pela característica voz de Marlon Brando, caminhamos em meio aos seus desejos, suas conquistas, seus medos e seus demônios e que passeio insano e maravilhoso é este. O filme não deixa (quase) nada ficar para trás, desde os primórdios da vida de Brando até seus últimos dias, passando por seus filmes de sucessos, pelos maiores fracassos de sua carreira e pelos grandes regressos às telas de cinema com Apocalypse Now, por exemplo, vemos a trajetória de um ser humano comum – com todas as vantagens e desvantagens de um ser humano comum – que tornou-se um dos maiores de todos os tempos – também com todas as vantagens e desvantagens atreladas a esse novo status.

Através de uma trilha sonora composta da maneira mais bela casada à narração maravilhosamente poética e afetiva de Brando retirada das fitas gravadas pelo ator, onde estão suas memórias e suas tentativas de auto-hipnose, a montagem de Stevan Riley corta caminhos sinuosamente entre os filmes, entrevistas, fotografias e imagens de arquivo que contem Brando, de uma forma ou de outra, e se conecta às singelas, impressionantes e assombrosas imagens captadas pela direção de fotografia do filme, assinada por Ole Bratt Birkeland, reconstituindo a casa vazia do ator enquanto suas imagens captadas digitalmente para um dos primeiros filmes do Super-Homem se demoram fantasmagoricamente em uma televisão antiga criando uma obra cinematográfica que é como um grande fluxo de consciência literário, evocando imagens tão belas que poderiam ter saído de um dos quentes e tensos verões sulistas das obras de William Faulkner ou das lentas e trágicas tardes colombianas dos lindos trabalhos de Gabriel García Márquez.

Para um filme tão afetivo e tão emocional, a dificuldade em escrever uma crítica analítica se prova tamanha que o texto acima provavelmente está mais fundamentado nas impressões e nos sentimentos do que nas técnicas – ainda que a técnica ensaística de Riley e o dispositivo criado pelo diretor e sua equipe para narrarem sua trama sejam das mais altas inteligência e perspicácia, qualidades evidenciadas tanto no ritmo quanto na pulsação do filme. Tomada esta licença poética, a única coisa que resta dizer é que A Verdade Sobre Marlon Brando é um dos melhores filmes do ano e, provavelmente, um dos melhores documentários dos últimos tempos.

OSCAR 2016: Melhor Documentário – Apostas C2M

Renato Furtado

É difícil não relembrar a célebre frase de Jean-Luc Godard – já escrita anteriormente nesse mesmo blog – ao falar de documentários (difícil não lembrar de pelo menos uma frase do mestre francês ao falar sobre Cinema); portanto, vamos lá: “todo grande filme de ficção tende ao documentário e todo grande documentário tende à ficção”. Isso porque toda excelente ficção contem aquela ponta de realidade – por mais louca que sua representação seja – e porque todo ótimo material documental contem um registro de irrealidade, de situação inscrita no surrealismo absurdo do tipo de coisa que dizemos “isso não pode ser verdade”.

Só que é. Da lista de 124 documentários nomeados ao Oscar, passando pela lista que cortou o número de nomeados para 15 até as nossas apostas para os indicados finais contendo apenas 5 títulos, é certo dizer que grandes narrativas estão aí neste meio, prontas para nos assombrar, encantar e surpreender. Portanto, vamos lá aos 5 filmes que nós acreditamos que serão os escolhidos finais no corte definitivo no dia 14 de janeiro de 2016!

5) O Estrangeiro

lsi.jpeg

Parte “sequência espiritual” e parte complemente de O Ato de Matar, O Peso do Silêncio é o primeiro filme na lista que entra na categoria do além da realidade. Se no “primeiro” filme o diretor Joshua Oppenheimer foi atrás dos torturadores do regime ditatorial que mergulhou a Indonésia em anos de violência e escuridão, agora ele busca os parentes das vítimas e faz de seu guia um oculista que perdeu o irmão. O Peso do Silêncio é um estudo minucioso, brutal e poderoso de um dos períodos mais atrozes e aterrorizantes da história da humanidade – como é narrado, quase com alegria, pelos monstros torturadores que sobreviveram ao serem confrontados pelo personagem principal. Não é um filme para estômagos fracos e nem para pessoas em estados de tristeza e afins; O Peso do Silêncio corta e corta fundo na carne.

Nossa resenha do filme, direto do Festival do Rio, aqui!

4) O Poeta

1638832 001

Segundo Bill Nichols, um dos maiores estudiosos do mundo documental de todos os tempos, existem várias formas de documentários: uma delas é a forma do ensaio. Buscando mais uma visão poética e afetiva do que uma resposta ou uma análise científica sobre um tema qualquer, os documentários ensaísticos são, normalmente, associados aos filmes experimentais. É deste experimentalismo que surge A Verdade Sobre Marlon Brando, um dos melhores filmes que vi neste ano e, sem sombra de dúvidas, o meu documentário favorito da lista. Utilizando imagens de arquivos de Brando e incontáveis horas de gravações pessoais realizadas pelo ator durante toda sua carreira, somos guiados pela vida de Marlon Brando pelo próprio Marlon Brando em um mergulho ao centro da existência do ator, da natureza do cinema e dos sonhos e desejos humanos, como um todo. Uma narrativa forte, afetiva, belíssima e emocionante que narra a história de um dos maiores da história do Cinema.

3) O Guerreiro

lan

Poucas vezes na história cinematográfica foi demonstrada uma coragem tão grande em cena como a coragem demonstrada por Matthew Heineman em sua equipe ao filmar Cartel Land. De uma maneira quase inacreditável, o diretor nos coloca no centro da guerra dos cartéis que toma todo o território do México e parte da fronteira dos Estados Unidos, nos levando para um passeio perverso em meio às drogas, armas, guerrilheiros, milícias, sangue, terror e uma guerra que parece entranhar-se cada vez mais no coração dos locais, da região – e, invariavelmente, nos corações do mundo todo. Um documentário filmado com tanto controle narrativo – os planos do filme são lindos e uma indicação para o Oscar de Melhor Fotografia não está descartada – e tratando um tema tão complexo da forma como o fez não é possível ver sempre por aí.

2) O Favorito – Parte 1

Scientology.jpeg

Going Clear, o novo filme do veterano e premiado diretor Alex Gibney, é um verdadeiro conto de terror baseado na fé cega. Narrando a história da Cientologia, “religião” (que busca liberar as pessoas para o seu máximo potencial, algo, de fato, interessante à princípio) criada por L. Ron Hubbard – figura que serviu de inspiração para o personagem principal de O Mestre, o ótimo filme de Paul Thomas Anderson -, o filme vai direto ao ponto e não pega leve em momento algum: a cientologia não é apenas um culto, é uma tribo perigosa, com intenções beligerantes e perversas. Através dos depoimentos corajosos de pessoas que fizeram parte da “prisão da crença” da cientologia durante anos – os “auditores” -, Gibney fornece um olhar interno sobre um dos cultos mais polêmicos de todos os tempos, um verdadeiro império, fundamentado em loucuras, dinheiro e coerção que reúne e reuniu nomes famosos em meio às suas fileiras como Tom Cruise, John Travolta e Isaac Hayes – este último já falecido. Going Clear: mais um filme da série histórias inacreditáveis, porém reais.

1 ) O Favorito – Parte 2

amy

Em pouquíssimas palavras: favorito máximo ao Oscar neste ano. Em poucas palavras: a vida e a trajetória meteórica de uma das maiores cantoras dos últimos tempos. Em muitas palavras: um documentário devastador – também na forma de ensaio -, uma narrativa pungente e emocionante sobre auto-destruição, o retrato de uma das maiores artistas de sua geração, de seu tempo, de sua época e, provavelmente, da história, um filme quase ficcional de tão potente devido à força de sua trama, uma homenagem tardia, uma elegia, uma canção final, uma carta de amor. Amy, o novo filme de Asif Kapadia, é tudo isso e mais um pouco. Um dos melhores filmes do ano, um soco na boca do estômago de tamanha e inacreditável força, uma verdadeira peça cinematográfica do mais alto calibre – e a provável segunda estatueta do diretor, que venceu o prêmio pela primeira vez por Senna.

É isso, semana que vem tem mais previsões. Vamos seguindo que o Oscar tá vindo (tentativa de bordão detectada)!

O Clã (Pablo Trapero, 2015)

cla

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Como todas as ditaduras, aquela que manchou a história da Argentina foi violenta e marcou as gerações que vivenciaram o período e também as gerações que nasceram após a redemocratização com um toque inegavelmente perverso. Naqueles anos, inúmeras barbaridades e violências foram cometidas de maneiras sem precedentes, aterrorizando para sempre um povo já sofrido. Um dos grandes episódios foi escrito pelo Clã Puccio, uma família de argentinos ligados a uma série de sequestros na década de 80. Esta é a história narrada – brilhantemente, diga-se de passagem – pelo diretor argentino Pablo Trapero em “O Clã”.

O líder do chamado clã é Arquimedes Puccio, um funcionário do governo ditatorial que, com a ajuda de seu filho Alex, um famoso jogador de rúgbi na Argentina, tendo estampado até capas de revistas, e de mais dois capangas, realiza os sequestros primeiro para se manter bem em relação à ditadura e, em seguida, após a queda da mesma, para manter o padrão de vida confortável que leva, sustentando sua mulher e mais outros três filhos (além de um filho que mora no exterior). Dentro do núcleo familiar, a relação mais interessante é a que acompanhamos no decorrer do filme: entre Arquimedes e Alex.

Interpretados, respectivamente, por Guillermo Francella (o assistente do personagem de Ricardo Darin em Segredo de Seus Olhos), um dos melhores atores argentinos de todos os tempos e por Peter Lanzani, estreando em longas, os dois personagens travam um verdadeiro combate: o poder do pai, trazido à vida pelos olhos azuis penetrantes e o jeito suave que Francella confere ao seu personagem versus o filho que quer agradar o pai, mas não consegue por não concordar com os atos cometidos pelo progenitor, características colocadas na telona pela ótima performance de Lanzani, construída através das hesitações e das dúvidas de Alex, evidentes em cada passo que dá, em cada palavra que profere. Toda a dinâmica de trabalho entre os dois atores é muito boa e, sem sombra de dúvidas, são uma das grandes duplas do cinema em 2015.

Além das ótimas atuações e de uma trilha sonora fortemente baseada em rocks da época, o grande trunfo de O Clã é o seu diretor. Pablo Trapero é certamente um dos melhores diretores latino-americanos da atualidade e demonstra um potencial que pode elevar seu nome a um dos grandes do cinema, pelo menos no período em que continuar realizando filmes. O argentino possui um exímio controle de sua narrativa e não tem receio algum de nos mostrar a violência (tanto objetiva quanto subjetiva) da família Puccio e do regime ditatorial (utilizando, inclusive, imagens de arquivos dos ditadores argentinos da década de 80), criando planos visualmente belos e cinematograficamente bem construídos, destacando planos-sequência de tirar o fôlego, que chamam a atenção tanto pela proeza técnica quanto pela importância narrativa – é impossível não citar o último e sensacional plano do filme, que coroa de forma impecável os incríveis vinte minutos finais da película, fiquem atentos.

Ainda que possua alguns erros aqui e acolá, O Clã rendeu, merecidamente, a estatueta de Melhor Diretor no Festival de Veneza para Trapero e acabou sendo a escolha oficial da Argentina para o Oscar, um filme que mistura suspense e drama político – estudando a sociedade argentina tanto macro quanto micropoliticamente – nas doses certas para prender e cativar seu espectador, evidenciando os excessos e as insanidades cometidas em períodos de extrema violência como as ditaduras que assolaram não só a América Latina entre as décadas de 60 e 80, como também inúmeros outros países do mundo.

Olhos da Justiça (Billy Ray, 2015)

oj

NOTA: 7 / Esperanza Mariano

Dirigido por Billy Ray, “Olhos da Justiça”, é uma refilmagem do vencedor do Oscar de 2010, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, “O Segredo dos Seus Olhos”. Por um grande acaso, ou despreparo, fui assistir ao longa sem informações alguma, inclusive a de que a obra era um remake do filme argentino. Felizmente, neste caso, acho que a ignorância foi minha aliada. O filme é um thriller que surpreende aos despreparados e o material inédito para mim fez com que eu me esforçasse um pouco mais para gostar dele.

Quando o filme começa, estamos em 2015 e somos apresentados ao personagem Ray (Chiwetel Ejiofor), um ex-agente do FBI que jura ter encontrado um assassino foragido há mais de uma década. Ele então retorna ao seu antigo escritório para tentar reabrir o caso, com a ajuda da supervisora, Claire (Nicole Kidman), por quem nutre uma paixão nunca declarada, e sua antiga parceira de trabalho, Jess (Julia Roberts). Para entendermos o que levou os personagens àquele momento, o longa irá se alternar entre 2015 e 2002, o ano do assassinato.

Chiwetel Ejiofor faz um ótimo trabalho, o que já era de se esperar, mas não se compara com a colega de cena Julia Roberts. A atriz nos entrega uma performance tocante e excelente. Amor e tristeza emanam de sua personagem e ela não hesita em momento algum. As mudanças físicas de Jess não são tão surpreendentes assim a primeira vista, mas ao lado da atuação densa e comprometida da atriz, se tornam um detalhe assustador. “Você parece ter mil anos”, diz Ray em uma das cenas – e é verdade. Já Nicole Kidman tem um desempenho bom, levando em conta que sua personagem não exigia muito. Contudo, a atriz consegue se destacar em uma cena particular que, ouso dizer, vale pelo filme todo.  Outro nome que deve ser citado é o de Dean Norris. Mais conhecido pelo seu trabalho em Breaking Bad, o ator dá vida a um personagem que deixa o filme descontraído e mais leve.

No fim, deixei o cinema sem saber se havia ou não gostado do filme. Sabe quando você se diverte e fica agoniado durante aquelas duas horas tão preciosas, mas quando as luzes do cinema finalmente se acendem você sente um grande nada, mesmo depois de toda a agonia durante o filme? “Olhos da Justiça” me deixou assim. Não precisei, portanto, de muito tempo para me decidir: o longa é um desperdício de boas atuações e diálogos inteligentes. Não consegui entender o motivo de fazer uma refilmagem do filme em tão pouco tempo, além da famosa preguiça dos americanos para assistir filmes estrangeiros. É preciso que alguém mastigue a história e faça a versão sem legendas para agradá-los e, claro, fazer dinheiro.

WordPress.com.

Acima ↑