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janeiro 2016

Os vencedores do SAG Awards 2016!

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Renato Furtado

Na grande temporada de premiações, resta apenas uma cerimônia. O Globo de Ouro (cada vez mais irrevelante) e os Prêmios do Sindicato dos Atores (SAG) já foram e agora só falta mesmo o Oscar, no dia 28 de fevereiro. Ontem, dia 30 de janeiro, quando a cerimônia do SAG foi encerrada, ficou evidente que o assunto que toma o meio cinematográfico no momento ficou ainda mais quente e ainda mais urgente.

Contudo, antes de mais nada, vamos falar um pouco sobre alguns dos ganhadores – dessa vez, focaremos mais no cinema. Das quatro categorias de atuação cinematográficas – melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor atriz coadjuvante -, tivemos apenas uma vitória realmente surpreendente e que embolou ainda mais o jogo. Alicia Vikander venceu a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em A Garota Dinamarquesa e complicou a situação: anteriormente, Rooney Mara e Kate Winslet eram, praticamente, as únicas favoritas ao prêmio; agora, adicione o enorme talento de Vikander e está criada uma situação quase impossível de ser prevista. Na opinião do C2M, o Oscar ainda fica com Mara, mas é certo que sua vitória ficou muito mais difícil agora.

Para as categorias de melhor ator e melhor atriz tudo correu como o esperado. Brie Larson venceu por seu papel em O Quarto de Jack e Leonardo DiCaprio venceu por seu papel em O Regresso, ambos merecidamente. Conforme os dois vão dominando todas as premiações pelas quais passam, o Oscar fica mais próximo e cada vez mais difícil de não ser entregue a eles. Larson é simplesmente brilhante e está destinada a ser uma das maiores atrizes do mundo em poucos anos; quanto a DiCaprio, apresentações e elogios são quase dispensáveis, uma vez que sua maestria e genialidade são de conhecimento público.

Na categoria de melhor elenco em filme (a de série de comédia ficou com Orange is The New Black e a de drama com o cast de Downton Abbey), Spotlight venceu com sobras. O filme continua certamente como um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme, ainda que não seja o melhor filme de ano. Uma vitória de A Grande Aposta na noite passada teria embolado mais o páreo – especialmente porque A Grande Aposta é um filme bastante superior a Spotlight, longa cuja estrutura um tanto quanto capenga, funciona apenas por causa de seu maravilhoso elenco. Prêmio merecido.

Falta falar de uma categoria cinematográfica, uma que não surpreendeu – pelo menos, não surpreendeu nossa equipe. Dentre os filmes e pessoas não indicados ao Oscar, a falta mais gritante é, sem sombra de dúvidas, a de Idris Elba na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Ainda que Mark Rylance, Mark Ruffalo, Sylvester Stallone, Christian Bale e Tom Hardy – principalmente estes dois últimos – estejam perfeitos em seus filmes, o fato é que Elba jogou em um nível diferente no ano de 2015, fez cinema de uma maneira que só os gênios podem fazer. E, ainda assim, não foi indicado ao Oscar, esnobado pela Academia, que lhe roubou uma estatueta quase garantida. Sua vitória no SAG (esmagadora ao ser complementada pela seu triunfo na categoria Melhor Ator de Telefilme/Minissérie por Luther, uma das melhores séries dos últimos anos), não é só uma vitória sua; é uma vitória da diversidade e um verdadeiro soco na cara da Academia.

A pancada se tornou ainda mais forte quando Uzo Aduba, Viola Davis e Queen Latifah venceram os prêmios de suas categorias (melhor atriz em série de comédia, melhor atriz em série de drama e melhor atriz em telefilme/minissérie, respectivamente). Ainda que nenhuma delas tenha sido premiada por um desempenho em um filme – a Academia só premia trabalhos cinematográficos, vale lembrar -, o fato é que elas representaram um verdadeiro ponto de virada nas discussões das últimas semanas – para saber mais, leiam o texto do Caio aqui.

Essas vitórias – além do triunfo de “Birth of a Nation” em Sundance, um filme sobre a escravidão e de mais um prêmio para Jeffrey Tambor por seu inspirador papel em Transparent no SAG, categoria de Melhor Ator em Série de Comédia – mostram que a questão da diversidade e da falta de representatividade – ou seja, da falta gritante de atores de gêneros, etnias e orientações sexuais diversas, e diferentes de homens brancos heterossexuais, no cinema e na televisão – nos meios do entretenimento não precisa ser debatida: precisa ser resolvida. Ainda que a conversa precise seguir um longo caminho para derrubar as ideias retrógradas que, infelizmente, comandam o jogo cinematográfico, já passou o tempo do debate; agora é o momento de fazer o que precisa ser feito.

Evidentemente, isso vai muito além de um aparente preconceito da Academia. Não diria que a Academia é especificamente preconceituosa – a presidente é uma mulher negra, vale ressaltar. O buraco é mais embaixo: o jogo é preconceituoso. Mudar as regras da Academia, mudar os membros que votam e convidar pessoas que representem mais e mais gêneros e etnias e orientações sexuais é, certamente, um passo à frente, mas um passo pequeno. Na realidade, o que mudará serão as regras de votação e quem vota, mas a grande questão permanece: votação para premiação nenhuma resolve a falta de papeis e trabalhos para as minorias.

A solução reside em uma mudança radical de mentalidade. Seria impossível, por exemplo, premiar Idris Elba ou Viola Davis alguns anos atrás porque os dois sequer estavam à frente de grandes séries ou grandes filmes. Não se pode votar, nomear, indicar, celebrar ou premiar alguém por algum trabalho que essa pessoa não realizou, um trabalho que essa pessoa não teve a chance, a oportunidade de realizar. É como diria a própria Viola, no seu discurso de aceitação do Emmy pelo seu brilhante papel em How to Get Away With Murder: “Você não pode vencer um Emmy por um papel que simplesmente não existe […] o que separa as mulheres de cor (negras, latinas, asiáticas e por aí vai) do resto é a falta de oportunidades”.

Portanto, os prêmios do SAG de ontem à noite são um verdadeiro colírio para os olhos cansados. Há um longo, longo caminho para ser percorrido, mas as vitórias desses atores e atrizes faz com que o debate se mantenha vivo, que não seja varrido para baixo do tapete e que nos dê alguma esperança de ver resolvida a situação. Um dos atores do brilhante elenco de Straight Outta Compton disse, em entrevista à TNT, que “está otimista” em relação ao debate e toda esta questão. É preciso estar otimista mesmo: o momento é propício e a mudança pode ser atingida.

A lendária Carol Burnett – ao aceitar o prêmio de honra celebrando sua carreira ontem no SAG – disse que uma vez disseram a ela que o mundo do entretenimento era para homens. À época, ela balançou a cabeça, disse um sonoro não, provou a todos que o mundo estava errado e ontem ganhou o prêmio de honra da noite. Há muito a ser feito, mas os passos estão sendo dados graças à coragem de todos os atores e atrizes que representam as minorias. A todos eles, nossos agradecimentos e nossa solidariedade por continuar fazendo do mundo um lugar melhor através do cinema e da televisão. Muito obrigado e vamos em frente.

 

A lista completa dos ganhadores do SAG Awards você confere aqui!

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#Oscarsowhite: Uma academia preconceituosa?

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Por Caio César

Bastou a lista dos indicados ao Oscar 2016 ser divulgada para que o mais atento pudesse perceber: mais uma vez, não havia um indicado negro sequer entre os melhores atores do ano. Obviamente estamos falando sobre um prêmio que festeja os melhores da indústria cinematográfica, e não sobre um lugar que abre concessões por ”gostar” de alguém ou porque fulano ou siclano são de tal raça. Ao mesmo tempo, é inegável o poder desta verdade para refletir a situação do negro em Hollywood.

Assim como faltam negros na faculdade, nos escritórios, nos postos altos da nossa sociedade, também falta espaço para o negro nos filmes americanos. Representatividade significa tudo. Isso porque, em suma, é como se o modo padrão de um personagem fosse o caucasiano. Os personagens que são interpretados por atores são típicos “personagens negros”. Tomemos por exemplo as ganhadoras do Oscar Hattie Mcdaniel (primeira pessoa negra a ganhar a estatueta, em 1933, por E o Vento Levou); Lupita Nyong’o (vencedora como atriz coadjuvante por 12 anos de Escravidão) e Octavia Spencer (vencedora como atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas). Todas elas dividem algo em comum além do careca dourado em casa. Todos os três personagens que interpretam são escravas, donas de casa ou empregadas – nada que cruze a linha de sua cor.

Portanto, ainda que seja em um ano que uma das maiores interpretações de um ator (Idris Elba em Beasts Of no Nation) em filmes tenha sido esnobada pela academia, é importante olhar a questão com um olhar ainda mais amplo. Como colocar a culpa somente nos Oscars , quando toda a indústria está corrompida? Neste momento, chovem mea-culpas, editoriais – embora a perspectiva de uma mudança real escorra pelo ralo sempre aberto do esquecimento.

Uma das vozes mais ativas da causa negra entre os artistas, a atriz Viola Davis, protagonista da aclama série How To Get Away With Murder, em seu discurso de aceitação do prêmio Emmy que recebeu por seu papel na série disse que “a única coisa que separa mulheres brancas de mulheres de cor são as oportunidades” – e não poderia estar mais correta.

Ator indicado ao Oscar em apenas uma oportunidade (tendo perdido inexplicavelmente para Alan Arkin por Pequena Miss Sunshine), Eddie Murphy, já ná década de 80 declarou, em discurso na academia, que os prêmios jamais iriam parar na mão de negros. O que é uma mentira provada já algumas vezes, quando, por exemplo, Halle Berry e Denzel Washington formaram a dupla de atores à ganhar as categorias principais daquele ano. Ambos, negros.

Esse assunto, obviamente, permite variadas discussões e pensamentos. É de suma importância, entretanto, formar nossa posição fugindo da sombra do radicalismo  – ainda que sem perder o foco do grande salto que planejamos dar.

Indicados ao Oscar – Parte 2!

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Renato Furtado

Aqui não tem conversa fiada, não tem rolo: vamos direto ao ponto. Nesta edição dos indicados ao Oscar, trazemos nossas apostas para Melhor Animação, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Documentário e Melhor Fotografia!

Melhor Animação

Depois de tanto tempo falando sobre premiações e sobre nossas apostas e se você já for um mano ou mana, já sabe que achamos que vai vencer essa categoria – que é quem vai, de fato, vencer esta categoria. No entanto, quero tomar um tempo para falar sobre o nosso representante no Oscar: O Menino e o Mundo (crítica aqui). O lindo filme de Alê Abreu foi uma das grandes surpresas entre os indicados (talvez a maior surpresa) e derrotou candidatos que tinham muito mais apelo comercial.

Porque em quesito qualidade, O Menino e o Mundo tem de sobra. Se nesse ano não estivessem disputando nem o supremo vencedor nem Anomalisa, teríamos até chance de Oscar. Como não é o caso, ficamos felizes com a merecida indicação. Que Abreu continue trazendo suas ideias para as telonas: um dia, ele vence o Oscar.

O ganhador é: Divertida Mente!

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Melhor Filme Estrangeiro

Com a exceção de Melhor Documentário, todas as outras categorias abordadas nesse post tem, pelo menos, dois pontos em comum: ambas possuem um filme como vencedor garantido e um (ou mais) filme(s) que, infelizmente, não poderá vencer o Oscar, ainda que mereça, por causa da concorrência (quase) desleal.

Aqui, ficarão na vontade o belíssimo Cinco Graças (Turquia-França) e o místico O Abraço da Serpente (Colômbia) porque não tem muito para ninguém. Esse ano, o Oscar vai para Budapeste.

O ganhador é: O Filho de Saul (Hungria)!

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Melhor Fotografia

John Seale com planos inteligentemente construídos e repletos de beleza técnica e ação de tirar o fôlego, indicado por Mad Max; Ed Lachmann com sua elegante e linda fotografia, indicado por Carol; Robert Richardson vencendo o desafio de filmar em 70mm e construindo aquele que é, provavelmente, o filme mais belo (no visual, é claro) de Quentin Tarantino, contrapondo sangue e neve com maestria, indicado por Os Oito Odiados; e o gênio/deus Roger Deakins, fotógrafo que dispensa apresentações, trezes vezes indicado ao Oscar, um dos maiores de todos os tempos e um dos mais influentes artistas em atividade no Cinema, atualmente, indicado por Sicário: Terra de Ninguém. O que todos tem em comum? Todos poderiam vencer o Oscar esse ano.

Além disso, eles poderiam ter ainda a companhia de, por exemplo, Cary J. Fukunaga por sua brilhante fotografia em Beasts of No Nation (ainda que não houvesse espaço aqui nesta categoria, Fukunaga e seu filme são algumas das ausências mais sentidas na premiação deste ano). Ou Janusz Kaminski por Ponte de Espiões. Ou Dariusz Wolski pelo elogiado trabalho em Perdido em Marte. Ou… vocês entenderão, a lista vai e vai.

O ponto é: nada disso faria ou fará diferença porque, mais uma vez, o Oscar já sabe seu destino. Neste caso, o destino da estatueta é parar nas mãos de um mexicano, pelo terceiro ano seguido, agora por ter filmado Leonardo DiCaprio em condições alucinantes de filmagem nas planícies geladas da América do Norte e por, mais uma vez, trazer o máximo potencial da visão do genial Alejandro González Iñarritu à tona.

O ganhador é: Emmanuel Lubezki!

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Melhor Documentário

É aqui que o caldo engrossa e as coisas ficam um pouco mais difíceis de prever – ainda que não muito. O novo filme de Asif Kapadia, o devastador e belo Amy (evidentemente, longa que aborda a vida e a carreira de Amy Winehouse) segue sendo o favorito – especialmente após Going Clear, de Alex Gibney, não ter sido indicado. No entanto, a Netflix (vulgo empresa que todos amamos) conseguiu duas indicações com What Happened Miss Simone? e Winter on Fire. Será que o poder da empresa de streaming pode se fazer valer?

Além disso, Cartel Land e O Peso do Silêncio estão na disputa, vale lembrar. Isso quer dizer que Kapadia segue na dianteira, mas que Matthew Heineman (Cartel Land) pode vencer e que Joshua Oppenheimer (O Peso do Silêncio) pode “se vingar” e levar, enfim, sua estatueta para casa, após não ter vencido o prêmio por O Ato de Matar. Bom páreo, forte categoria, todos ótimos filmes.

Nossa aposta é: Amy!

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É isso, gente! Na semana que vem, as previsões para Melhor Diretor, fiquem ligados!

Trumbo – Lista Negra (Jay Roach, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado

Fundado em 1937, o complexo cinematográfico Cinecittá, até hoje o maior, mais célebre e mais importante estúdio produtor de filmes da Itália, foi criado com o intento de criar e produzir longas que pudessem funcionar como ferramentas propagandistas do regime ditatorial de Benito Mussolini que, à época da inauguração, declarou: “O Cinema é a arma mais forte”. Ao mesmo tempo, do lado de cá do Atlântico, no Hemisfério Norte, as tensões políticas nos Estados Unidos estavam em um nível alarmante, agravado após o término da Segunda Guerra Mundial e em decorrência do embarque dos estado-unidenses no período que ficou conhecido como Guerra Fria, onde, em solo pátrio, buscaram combater todas as pessoas filiadas ao Partido Comunista dos Estados Unidos.

Em meio ao pandemônio instalado na esfera política, o Cinema não escapou ileso. Como poderia escapar se os filmes norte-americanos sempre foram usados como arma de propaganda, disseminando estereótipos para facilitar o reconhecimento dos “inimigos” em meio à população e exaltando a figura do homem branco conquistador, vencedor na vida e no sonho americano por meio de seus esforços? Impossível. Na década de 40, portanto, alguns trabalhadores do setor audiovisual sofreram forte perseguição; o caso mais famoso de uma personalidade ligada ao cinema atingida pela política anti-comunista praticada na época pelo governo estado-unidense foi protagonizado por Dalton Trumbo, objeto de estudo da cinebiografia “Trumbo – Lista Negra”, dirigida por Jay Roach (Entrando Numa Fria).

Interpretado por Bryan Cranston (Walter White de Breaking Bad), acompanhamos a história de como Dalton Trumbo foi do céu ao inferno em questão de pouco tempo, perdendo rapidamente o prestígio conquistado durante anos de trabalho criando roteiros memoráveis para grandes filmes da década de 40 ao lutar pelos direitos dos trabalhadores do cinema, demandando um salário mais justo para todos os operários do cinema. Tal atuação política chamou a atenção do Congresso e, a partir deste momento, as coisas se complicaram bastante na vida do roteirista. O grande problema do longa é, justamente, não atingir o peso necessário dessa história tão importante.

O filme é bom, é verdade; no entanto, não empolga em momento algum. É simples e o fato de não se arriscar, aqui neste caso, é um problema uma vez que a narrativa acaba muito presa às convenções do gênero das biografias cinematográficas, correndo atrás o tempo todo da quantidade de tempo que precisa cobrir – o filme vai dos anos 40 até o início dos anos 70 -, em um recorte que não facilita a direção e que, consequentemente, apresenta um maior desafio para a equipe, especialmente pelo fato de que Roach é um diretor bastante limitado, com experiência apenas em filmes de comédia que permanecem em uma escala de qualidade do razoável para o fraco. A falta de peso que a trama acaba adquirindo é decorrente, além de outros fatores, da inabilidade de Roach de lidar com um tema tão complexo – principalmente se tratando da lama política dos Estados Unidos.

Apesar de a montagem ser razoável, trazendo claros problemas de ritmo, a trilha sonora funciona como um bom apoio e a fotografia, que alterna entre momentos monocromáticos e coloridos -, quando está a cores, lembra os filmes em preto e branco da era de ouro de Hollywood, com as luzes bem fortes e as sombras, ainda que não muito fortes, bem demarcadas. Além disso, o filme ganha força exatamente pela atuação de Cranston, indicado ao Oscar com todos os méritos. Para quem o viu em Breaking Bad – ou em qualquer outro papel -, pode perceber que é visível o quanto ele construiu bem Trumbo como um personagem que difere bastante dos personagens previamente interpretados por ele, desde os menores gestos, como a maneira de olhar, de escrever e de se sentar, até os maiores e mais chamativos – como a personalidade politicamente inflamada do roteirista.

O roteiro de John McNamara não é um primor quanto ao quesito adaptação, mas seus diálogos são bons, críveis e realistas e geram momentos bastante espaços para Cranston mostrar seus talentos. Entretanto, outro grande problema vem da escrita, já que alguns personagens são pouco aproveitados ou ganham tempo de cena muito além do necessário. Por exemplo, todo o elenco de apoio (composto por grandes nomes como Helen Mirren, Diane Lane, John Goodman e Elle Faning) é bastante periférico no filme, ainda que seus personagens sejam cruciais em momentos determinados. É perfeitamente compreensível esta situação, visto que Trumbo é o personagem principal; por outro lado, não faria mal se os personagens fossem melhor aproveitados – e seus atores também.

Michael Stuhlbarg (um ótimo e muito subestimado ator) tem uma participação de destaque ao interpretar como o astro Edward G. Robinson, famoso por estrelar diversos film noirs da década de 40. Aliás, as aparições de grandes personalidades durante a história como John Wayne, Louis B. Mayer, Otto Preminger e Kirk Douglas faz com que o filme conquiste o coração dos cinéfilos que amam as produções daquele período hollywoodiano (mais precisamente entre meados dos anos 40 e início dos anos 60). “Trumbo – Lista Negra” é, portanto, um bom filme. Todavia, o fato de não arriscar e de se limitar faz com que a história perca força. Vale pela atuação de Cranston e pelo interesse histórico, político e cinematográfico narrado em tela.

Indicados ao Oscar 2016 – Parte 1!

Renato Furtado

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Falta pouco mais de um mês para a noite de premiações do Oscar. Em meio a inúmeras controvérsias e todo a discussão gerada pelas indicações, todo sábado traremos nossas previsões para vocês, além de materiais especiais comentando os principais tópicos relacionados à premiação. Hoje, as categorias melhor atriz coadjuvante e melhor ator coadjuvante.

Melhor Atriz Coadjuvante

Esta é uma das melhores categorias deste ano: todas as cinco indicadas possuem chances de ganhar e quase todas as indicadas são atrizes excepcionais, colocando-se facilmente entre as melhores de suas gerações. O grande estranhamento da categoria talvez fique por conta de Rachel McAdams, que é uma atriz que está crescendo na carreira agora que começou a realizar papeis mais dramáticos (o fracasso da segunda temporada de True Detective só não foi maior por causa de sua participação), que possui grande potencial e que está muito bem em Spotlight – Segredos Revelados, mas não bem o suficiente para ser indicada ao Oscar.

De resto, indicações muito boas e plausíveis. Jennifer Jason Leigh caiu como uma luva no papel escrito para ela em Os Oito Odiados. Interpretar uma criação de Tarantino não é tarefa fácil, principalmente por conta dos diálogos, mas Leigh traz profundidade e talento à personagem, suficiente para roubar a cena em diversos momentos.

A mais nova do grupo, Alicia Vikander, mostrou em 2015 que tem grandes chances de ser considerada uma das melhores atrizes em atividade dentro de pouco tempo. Sua atuação fenomenal no genial Ex-Machina, sua performance cômica e divertida em O Agente da U.N.C.L.E. e sua interpretação cuidadosa, detalhada e bem construída em A Garota Dinamarquesa fizeram com que Vikander chamasse bastante atenção para os seus talentos dramáticos.

Apesar disso tudo, a briga pela estatueta deve ficar mesmo entre Kate Winslet e Rooney Mara. A primeira, genial atriz de talento reconhecido mundialmente, uma das melhores dos últimos anos, constrói uma personagem incrível em Steve Jobs e é o contraponto perfeito ao personagem de Fassbender no filme. Ela venceu esta categoria no Globo de Ouro, mas a baixa relevância dessa premiação e o fato de que a Academia não tornou-se muito fã do filme Steve Jobs (o brilhante trabalho de Aaron Sorkin sequer foi reconhecido) pode pesar para que ela perca a estatueta. O outro empecilho para mais uma vitória de Winslet é justamente Rooney Mara, que é simplesmente brilhante e inacreditável como Therese Belivet em Carol. São tantas as nuances e profundidades que ela carrega para o filme e demonstra em sua personagem que fica difícil não se apaixonar por seu trabalho. Portanto, nossa aposta é…

Rooney Mara!

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Melhor Ator Coadjuvante

Sem sombra de dúvidas, a maior controvérsia no mundo cinematográfico no momento é o total descaso da Academia em relação aos artistas negros – há, inclusive, um boicote à premiação sendo promovido por pessoas como Spike Lee, Will Smith e Jada Pinkett-Smith e a presidente da Academia, que é negra, reconheceu a problemática e divulgou uma carta afirmando que esse assunto seria tratado com a máxima urgência para as premiações futuras, especialmente através da reestruturação dos membros votantes, almejando incluir nos membros da Academia, membros que representem todas as etnias, por exemplo.

Enquanto isso é algo que ainda gerará muitos debates – que esperamos que façam com que a Academia acabe com essa “brancura” dos Oscars e comece a reconhecer os artistas negros, de fato -, precisamos trabalhar com a situação que temos. Talvez a categoria de melhor ator coadjuvante seja uma das mais problemáticas: a falta de Idris Elba em meio aos indicados é absurda. Seu trabalho é um dos melhores esforços de atuação do ano e ele poderia facilmente estar no lugar de qualquer um dos outros atores indicados, já que seria o ator mais qualificado do ano a vencer o prêmio. Aprofundaremos mais este tópico em outra ocasião.

Vamos aos cinco: Mark Rylance, Mark Ruffalo, Christian Bale, Tom Hardy e Sylvester Stallone são um elenco de altíssimo nível. Dos dois Marks, é difícil selecionar o melhor. Em performances extremamente distintas, Rylance (mais calmo e frio como o espião soviético em Ponte de Espiões) e Ruffalo (o jornalista implacável e esforçado de Spotlight), ambos nos deram interpretações incríveis e podem facilmente ganhar o prêmio. Para o lado de Ruffalo, pesa que Spotlight é um dos filmes mais queridos pela Academia neste ano.

Há também, evidentemente, a presença de Stallone. Em Creed, o bom e velho Sly entrega a melhor performance de Rocky em toda sua carreira, tão boa quanto a primeira “versão” do personagem lá nos idos de 1976. Ele é ótimo no filme e a firme direção de Ryan Coogler – que poderia ter sido indicado como Melhor Diretor no lugar de Tom McCarthy, por exemplo – faz com que Sylvester Stallone seja um bom concorrente neste ano. Além disso, ele é bem querido pela comunidade cinematográfica e ganhou o Globo de Ouro – ainda que isto não signifique muitas coisas.

A disputa deve ficar mesmo entre Bale e Hardy. O primeiro rouba todas as cenas que aparece em A Grande Aposta e serve como um dos motores e pilares do filme. O personagem é excêntrico, tem um olho de vidro, toca heavy metal na bateria e Bale faz com que gostemos dele a cada cena – apesar e por causa de todas as suas características. Facilmente, um dos melhores atores em atividade no momento. Assim como Kate Winslet, o único empecilho para Bale vencer seu segundo Oscar é a performance de Tom Hardy. O Regresso é um dos filmes favoritos da Academia neste ano e a interpretação de Hardy, de tão alto nível quanto a de DiCaprio – que enfim deve ganhar seu merecido Oscar – pesa bastante para o lado de Hardy, que vem entregando papeis melhores e mais importantes a cada ano. Além disso, ele é o novo Mad Max. Depois de Estrada da Fúria, fica difícil não deixar nossa aposta em…

Tom Hardy!

tom hardy

Por hoje é só, sábado que vem tem mais!

Irmãs (Jason Moore, 2016)

SISTERS

NOTA:7 / Caio César

O circuito exibidor e o público esperavam ansiosamente pela estreia deste Sisters, no original em inglês. Trata-se apenas da nova colaboração entre as duas maiores comediantes de suas gerações: Tina Fey e Amy Poehler.  Sua estreia mostrou, com ousadia, o peso da fama das duas: elas iriam combater, no dia 17/12, nos Estados Unidos, o lançamento de um tal de Star Wars – O Despertar da Força (aquele mesmo que iria crescer para se tornar o maior sucesso de bilheteria da história dos Estados Unidos). Mesmo perdendo o primeiro lugar na estreia, a comédia se manteve regular o bastante para ser considerada um sucesso de bilheteria. Entretanto, tanta pompa e circunstância não diminuem as falhas desta eficiente/correta aventura.

Tina e Amy interpretam duas irmãs que, com a venda da casa onde moraram na infância e juventude, em Orlando (vulgo melhor cidade para se morar no mundo), tem de voltar para recolher suas coisas para suas respectivas casas. O problema é que a personagem de Tina é uma fracassada convicta que gosta de viver relembrando as glórias do passado de popular girl, enquanto Amy vive um sucesso em sua carreira que diverge da sua vida emocional – arrasada após o divórcio. Ao se reunirem, elas tem a brilhante ideia de bolar uma última festa para a casa, honrando as tradições de festeiras que as duas tinham.

O roteiro, escrito por uma das profissionais que trabalhavam no SNL, programa de onde vieram as duas protagonistas, parece ter medo de pegar um pouco mais pesado -ainda que seja um filme classificado para maiores. As piadas são sempre superficiais, e ainda as mais pesadas soam forçadas na boca de Tina, principalmente. Não que as risadas não estejam lá. Uma cena, em particular, com Amy tentando falar de maneira correta o nome de uma moça asiática é de rachar o bico.

O elenco coadjuvante é cheio de caricaturas que às vezes funcionam, como no caso de Maya Rudolph, mas às vezes fracassam em chamar a atenção do espectador, como o personagem de John Leguizamo. Todos são sabotados por um trabalho de direção bem neutro, distante e que, ao não ajudar ninguém, prejudica o andamento orgânico da trama e prejudica alguns momentos cômicos. Jason Moore, que dirigiu A Escolha Perfeita, perde a chance de dar um boost visual na obra.

No fim, não há dúvidas de que a obra é superior à grande média de comédias disponíveis no mercado. Entretanto, assim como aconteceu da última vez que dividiram as telonas, em Big Mama, fica a sensação de que o resultado final poderia ser beeeem melhor. Mas olha, eu poderia ver qualquer produto mediano com essas moças na tela. Elas MANDAM muito!

ps: o filme contém cenas de erros de gravação durante os créditos. Sempre desconfie de comédias que tem erros de gravação para fazer rir ao fim da projeção – isso pode ser apenas uma tentativa de fazer você sair achando que viu um filme melhor/mais divertido do que, de fato, foi. não é o caso desta vez. 

Joy: O Nome do Sucesso (David O. Russell, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado

À época em que as vendas à varejo e via televisão começavam a crescer nos Estados Unidos, uma invenção peculiar chamou a atenção das pessoas: um esfregão “mágico”, prático, econômico, leve e de fácil utilização, desenhado para ser o único esfregão que as donas de casa do período teriam que comprar durante a vida inteira, revolucionando toda a categoria de utensílios de limpeza nos Estados Unidos. Para além disso, a história de Joy Mangano (a inventora do esfregão) é com certeza interessante, mas não parece material o suficiente para um filme inteiro. Então, entram em cena David O. Russell e Jennifer Lawrence para provar que é possível, sim, tirar alguma coisa dessa história real.

Seguimos as provações e conquistas de Joy (Jennifer Lawrence que possui, mais uma vez, uma idade inferior a que o papel requer), uma mulher que é mãe de dois filhos e que precisa cuidar de uma casa onde moram – além dela e das duas crianças – sua avó, sua mãe, seu ex-marido (Edgar Ramírez) e seu pai (Robert DeNiro)  – ambos se odeiam e dividem o porão da casa, que está caindo aos pedaços. Além disso, ela ainda precisa lidar com sua irmã e com a nova namorada de seu pai (Isabella Rossellini, pouco utilizada, mas com momentos interessantes). Cansada dessa vida, ela decide retomar sua vida do ponto onde ela parou e volta a inventar coisas, como fazia quando era criança.

Unindo o argumento à sinopse, é fácil perceber que essa é uma história complexa a ser narrada. O mérito de O. Russell neste filme é, justamente, analisar seus personagens e suas situações com um microscópio para, em seguida, trabalhar com todos em um nível quase caricatural, de comédia pastelão. Ele inicia o filme com os bastidores de uma telenovela e logo pega emprestado toda essa vibe meio trash; enquanto utiliza a estética apresentada por essas produções baratas e de baixa qualidade da televisão americana à época, O. Russell faz com que Joy: O Nome do Sucesso seja um bom filme. Dizendo de forma mais precisa: é quando o diretor leva sua narrativa da forma mais despreocupada e menos séria possível que o longa triunfa.

Tal abordagem – que, “apesar de não levar a história à sério”, em momento algum deixa de levar os personagens, suas ambições e seus problemas à sério, diga-se de passagem – aliada às marcas registradas e à estética característica do diretor (travellings e movimentos de câmera que O. Russell utiliza à exaustão em todos os seus trabalhos) faz com que Joy: O Nome do Sucesso transforme uma história sem sal em um longa realmente divertido e com algo a dizer – neste filme, a preocupação com os temas da redenção e da superação presentes fortemente nos últimos trabalhos de O. Russell é bastante importante e nos ajuda a conectar com os personagens de forma satisfatória.

O problema é que O. Russell não mantem essa estética tempo o suficiente – tanto o estilo telenovela quanto a ótima narração realizada por Diane Ladd, que interpreta Mimi, avó de Joy, são interrompidas no meio do caminho – e larga mão de suas técnicas abruptamente para assumir posturas mais sérias, objetivas e tradicionais, retirando do longa suas maiores qualidades; em outras palavras, o filme perde força e começa a parecer arrastado até voltar, mais ou menos, aos trilhos. O que antes era um mérito, uma narrativa que caminhava para triunfar (fazer a audiência se importar com a história da criação de um esfregão através de parábolas em um estilo comédia de costumes), torna-se uma trama pouco inspirada – o elogio à meritocracia, ao sonho americano e aos espólios conquistados pelo esforço próprio tiram potência do roteiro, que é melhor quando faz graça de si mesmo sem deixar de se preocupar e de amar seus personagens, dispensando o drama tradicional deste tipo de trama.

No campo das atuações, tudo vai de bem à médio. Jennifer Lawrence merece suas indicações e prova, em um papel bem menos histérico do que os realizados anteriormente nos filmes de O. Russell, que tem melhorado cada vez mais. Ainda que esteja distante da idade certa para o personagem – o que não é um problema, na verdade, é mais uma peculiaridade das escolhas de O. Russell -, ela interpreta uma mãe de família com confiança e determinação e cria alguns bons momentos em cena. DeNiro, por sua vez, parece ter entrado definitivamente no piloto automático; é um pastiche de si mesmo e de seus personagens anteriores, inclusive o personagem interpretado em “O Lado Bom da Vida”. Por fim, há ainda a competente atuação de Edgar Ramírez e a curta aparição de Bradley Cooper, que faz um bom trabalho apesar do material escasso.

Contando com uma fotografia que mantem o visual do diretor, mas que não passa do nível da normalidade e uma trilha sonora que ora é incômoda, ora bem afinada, Joy: O Nome do Sucesso não é um filme ruim. Longe disso: é melhor que “Trapaça”, por exemplo, uma vez que, além de arriscar mais, diverte mais que seu antecessor. É um longa claramente marcado por dois momentos distintos: um divertido e que prende a atenção (não só comicamente divertido, dramaticamente divertido também) e outro que não vai muito longe em suas ambições, errando mais do que acertando. É uma película de dois polos que não trabalham juntos para formar uma síntese de qualidade; no fim das contas, diverte e gera algumas boas risadas.

A 5ª Onda (J. Blakeson, 2016)

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Por Caio César

NOTA: 4

Quando despontou para o sucesso no filme Kick-Ass, onde interpretava a bad ass Hitgirl, Chloe Grace Moretz chamou a atenção do mundo todo por uma interpretação vigorosa – um prenúncio do nascimento de uma grande estrela. O talento da atriz é inegável e ela voltou a mostrar isso em produções com Deixe-me Entrar, mas, vem sendo constantemente sabotada por escalações em personagens que, visivelmente, não se encaixam com seu perfil, seja de idade ou físico. Ela é, ao mesmo tempo, umas das melhores e piores coisas desse novo A 5ª Onda, ficção roteirizada pelo ganhador do Oscar Akiva Goldsman, a partir de um livro infanto-juvenil.

A premissa até que é simples. Um ataque alienígena é orquestrado por forças extraterrestres que recebem o nome de “os Outros”. Eles estão baseados na cidade de Cassie. Cada novo ataque à Terra é chamado de ondas. Não demora muito para que eles percebam quatro desses ataques em diversas esferas da vida terrestre: os animais, os níveis do oceano, as comunicações, as pragas. O quinto ataque seria a cartada final para a destruição da vida humana: parasitar o cérebro de humanos e habitar em seus corpos. Algumas crianças são escolhidas para atuar em uma espécie de exército da resistência, mas eventos vão mudar o curso todo da vida dos pequenos.

Essa sinopse revela quão boa a premissa do filme é. Tecnicamente, o futuro distópico é algo já repetitivo, mas a história é bem interessante. Some à isso um começo de filme realmente muito bom, com dez minutos bem tensos e uma ambientação digna de um filme acima da média. Pena que Hollywood adora estragar expectativas. O que se vê a partir daí é um caldo de colagens de tudo que funciona em filmes para adolescentes – incluindo um MAIS QUE improvável interesse romântico que serve apenas para fazer com que as pessoas achem tudo ainda mais inverossímil.

Aliás, qual é a real necessidade/probabilidade de se apaixonar em um ambiente de tamanha desgraça?! Não me entenda mal, eu acredito no amor. Mas sinceramente, eu acho que distante da minha família, em um ambiente apocalíptico, com desgraça acontecendo em todos os cantos A ÚLTIMA COISA A SE PENSAR É EM UMA PAIXONITE. Me julguem.

Chloe é completamente sabotada por um papel que exige a carga emocional de alguém mais velho, coisa que ela, aos seus 17 anos na época da filmagem, não tem. Aliás, incorre aqui o mesmo erro do filme Carrie, que a escalou como protagonista e a rodeou de atores bem mais velhos – fazendo com que algumas situações se tornem quase que constrangedoras, tal qual suas cenas românticas com o insosso Alex Roe, que oito anos mais velho, parece quase um tio distante do que um namorado. MUITO ESTRANHO ISSO

Nick Robinson, de Jurassic World, parece sempre estar com vontade de entregar mais do que parece ser possível, mas acaba a projeção com mais débito que crédito. Tal qual Liev Schreiber e Maria Bello, que interpretam caricaturas das caricaturas das caricaturas.

De bom mesmo, e bom de verdade mesmo, muito bom só a decisão da direção por não ter pena de seus personagens, nem mesmo as crianças, e, em um ambiente tão imediatista, matar sem dó quem tem que morrer. Embora sem uma gota de sangue, para não aumentar a classificação indicativa, as cenas de ação são bem construídas e a tensão é real na tela. Entretanto, isso não exime o diretor J. Blakeson da breguice em certos momentos da projeção – incluindo um plano beeeeem bizarro que inclui “prints” da tela no cruzamento do olhar de dois personagens. É gente…

Embora conclusivo, este “A 5ª Onda” está apenas esperando os resultados de bilheteria para dar início a produção de sequências. Eu apostaria em uma melhora de qualidade para os próximos filmes, e estaria interessado por causa da história, que é, de fato, cativante. Mas, à julgar pela recepção negativa da crítica americana, o filme deve flopar e enterrar de vez a franquia.

Culpa da Chloe. Tadinha. 

Carol (Todd Haynes, 2016)

CAROL

 

NOTA: 9 / Renato Furtado

Patricia Highsmith é uma das autoras mais famosas e bem conceituadas de todos os tempos nos Estados Unidos. Famosa por escrever incríveis romances policiais e thrillers, seus trabalhos mais conhecidos giram em torno do personagem Tom Ripley, um trapaceiro e criminoso psicopata. Sua saga de livros já foi alvo de diversas adaptações e atores como Alain Delon, Matt Damon, John Malkovich e Dennis Hopper já deram vida ao personagem nas telonas, todos de maneiras distintas e muito bem estudadas. De todas as adaptações, a melhor é, sem sombra de dúvidas, “O Amigo Americano” – baseado no livro Ripley’s Game – dirigido por Wim Wenders, um dos melhores (o meu favorito) longas do diretor. Bom, na verdade, esta era a melhor adaptação.

O novo filme de Todd Haynes (o incrível diretor responsável por películas como Longe do Paraíso e Não Estou Lá.), com roteiro de Phyllis Nagis, adapta o romance “The Price of Salt”: o resultado é “Carol”, a obra-prima de Haynes até o momento – e, instantaneamente, a melhor adaptação de um livro de Highsmith para os cinemas. Este, no entanto, não é apenas o melhor trabalho do diretor; este é um dos melhores romances dos últimos tempos. Desenvolvendo-se com o gosto de um livro que pede paciência, prometendo sempre uma grande recompensa no final, esta é a história do relacionamento entre duas mulheres, Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara), em uma época de pura intolerância – os conservadores anos 50 nos Estados Unidos.

O fotógrafo Ed Lachmann em conjunto com o deslumbrante e maravilhoso design de produção captura com suas lentes um verdadeiro film noir, sem crimes e mortes, mais aos moldes dos geniais “Desencanto” de David Lean e “A Embriaguez do Sucesso”, sem deixar de contar com sua própria femme fatale. Começando com um belo plano-sequência, Lachmann coloca o espectador diretamente na década de 1950 e já avisa aos navegantes, sem perder tempo: o que virá daqui para frente será um grande espetáculo inebriante e estonteante, debaixo das luzes da cidade, das sombras lançadas, através das fumaças dos cigarros, das silhuetas nas janelas e dos dias de sol sob a neve do fim de ano.

A palavra-chave é paciência. “Carol” não se oferece a todos os espectadores; portanto, não é um filme fácil, é verdade. Requer uma entrega, requer um comprometimento. Não está diante de nossos olhos apenas para entreter; está diante de nossos olhos para se provar uma verdadeira obra de arte. Por isso, paciência é necessária. Lentamente, passo a passo, somos tomados e, logo, não há mais escapatória: “Carol” – tanto o filme quanto a personagem – já nos conquistou, já nos capturou e já nos seduziu ao som da delicada, potente e emocionante trilha sonora minimalisticamente sábia composta por Carter Burwell – compositor favorito dos Irmãos Coen e indicado ao Oscar neste ano.

Contudo, acima de qualquer coisa, o que mais importa aqui não é o que é dito, visto ou ouvido – é, justamente, aquilo que não se pode ver, aquilo que não se pode ouvir, aquilo que não se pode dizer, aquilo que é possível apenas sentir. O que está nas entrelinhas, o que está sublinhado, tudo aquilo que está no silêncio, essa é a mina de ouro que Haynes encontrou para criar sua obra-prima. Compondo planos frequentemente fechados, ele deixa bem claro que o que está em tela é apenas uma fração de tudo que não está; se há um filme que sabe utilizar com maestria seu extra-campo (tudo aquilo que está fora do quadro cinematográfico), esse filme é “Carol”.

Para atingir esse nível de sutileza, perspicácia e suspense quase misterioso, é preciso ter grandes atores. Aqui, temos duas das mais brilhantes atrizes em atividade: Cate Blanchett e Rooney Mara. Blanchett é o retrato da elegância e da sedução, lançando e pousando olhares inebriantes que conquistam corações no ato. Ela fala, se move e emociona como uma rainha, do reino de todos os atores do mundo. Blanchett é, simplesmente, fora de série, alienígena, dizendo mais em um simples carinho do que atores e atrizes passam a carreira inteira tentando dizer. Igualando a balança, temos Rooney Mara, vencedora do prêmio de atuação em Cannes e, deuses, o que é possível dizer? Ela é o retrato da paixão mais pura à flor da pele, do amor mais potente, suave e sensível ao mesmo tempo e seus grandes olhos esverdeados fitam o espaço à sua frente (o extra-campo) com tanta força – um olhar próprio dos fotógrafos – e com tanto gosto pelo instante, que perdemos o fôlego.

Aliás, o filme está longe de ser um suspense, seu ritmo não é o mais veloz, mas ainda assim consegue deixar o fôlego suspenso e o coração a bater acelerado como se esta fosse a adaptação de algum outro romance policial de Highsmith tamanho é o poderio dos sentimentos que emanam dos menores gestos e dos silêncios. Há um mistério pairando no ar digno dos melhores filmes de detetive e é, sem sombra de dúvidas, um romance; evidentemente, ponto para a sensacional montagem de Affonso Gonçalves, que envolve e enfeitiça os olhos do público nas viagens de carro, nas bebidas, nos lampiões e, principalmente, nas trocas de olhares.

Com um elenco de apoio que conta com as ótimas interpretações de Sarah Paulson e Kyle Chandler, “Carol” é o tipo de película que almeja roubar o ar de nossos pulmões da forma mais sutil e bela possível. Acima de tudo, porém, esta é uma história necessária, que mostra que 1950 e 2016 ainda tem, infelizmente, muito em comum. Mas, olhando pelo melhor ângulo, a verdade é que esta é uma trama sobre amar e sobre o Amor, daqueles que nos arrebatam e nos emocionam, que nos fazem rir e que nos fazem chorar, que fazem com que percebamos o quão estúpidas são a intolerância e a ignorância, amor que ainda há de soterrar e de matar o preconceito de uma vez por todas; esta é uma trama sobre aqueles amores que fazem com que nos apaixonemos sempre e constantemente, tanto pela pessoa amada quanto pela vida.

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