8ful

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

No momento em que escrevo esta resenha (dia 6 de janeiro de 2016), já assisti ao mais novo filme de Quentin Tarantino duas vezes neste ano que só tem meros seis dias de vida. Isso diz muitas coisas tanto sobre mim quanto sobre o filme. Primeiro, isso diz que eu sou um fã enlouquecido de Tarantino (o que é a mais pura verdade e o que, inegavelmente, piora o meu senso crítico, é verdade, também por isso vi duas vezes); segundo, isso quer dizer que Os Oito Odiados é um ótimo filme, sendo exatamente tudo o que esperamos de um longa de Quentin Tarantino – verborrágico, violento, insanamente cômico e ousadamente louco – sem deixar de ser novo, imprevisível e, acima de tudo, surpreendente.

Nos anos que se seguiram à Guerra Civil, o verdadeiro ponto de gênese da sociedade americana dos dias atuais, um homem leva sua prisioneira para a forca. No meio do caminho, por causa de uma nevasca, a carruagem alugada por ele precisa carregar mais dois passageiros: um ex-escravo negro que lutou na Guerra Civil e que se tornou um caçador de recompensas e um antigo fora-da-lei que clama ser o novo xerife de uma cidade local. O tempo piora e a carruagem é forçada a fazer uma parada no Armazém de Minnie, um pequeno, porém famoso, entreposto comercial/taverna da região, onde os quatro passageiros encontram um mexicano suspeito, um “gentleman” inglês, um caubói e um velho e decrépito general Confederado. Assim, está preparado para o terreno para Os Oito Odiados.

Com pouco mais do que duas locações, uma grande quantidade de personagens importantes em cena e uma grande inclinação ao diálogo – como sempre -, a verdadeira “estrela” deste filme é Quentin Tarantino. Primeiro pelo fato de que os oito personagem principais são, de fato, odiáveis – mérito do roteiro de Tarantino, que não apresenta uma bússola moral para os espectadores, deixando claro que testemunhamos um bando de víboras prontas para dar o bote final. Segundo porque é possível ver, durante todo o filme, o prazer com que Tarantino criou, desenvolveu e entregou esta narrativa. Dividido em capítulos, Os Oito Odiados é um filme, portanto, para ser saboreado. De início, o longa nos desafia: o diretor coloca suas peças e seus personagens com extremo zelo e cuidado para nos deixar preparados para a violência prestes a explodir. Afinal, na hora que a bala come e o sangue jorra, não há muito tempo para explicações (ainda que existam muitas delas).

Criando um verdadeiro mistério quase detetivesco (as comparações com Agatha Christie são válidas, portanto), Tarantino filmou Os Oito Odiados em um formato peculiar, caído no ostracismo desde os anos sessenta: a película em 70mm. Em companhia do sempre competente e talentoso Robert Richardson – que cria planos de extrema técnica e beleza aqui, tanto nas grandes paisagens do Wyoming quanto nos interiores do Armazém, frequentemente iluminados pela ofensiva e violenta brancura da nevasca. Este formato foi muito utilizado nos grandes épicos dos anos cinquenta e setenta porque a película em 70mm possibilita uma tela enorme para que os diretores e os fotógrafos trabalhem; e, aqui, entra a genialidade de Tarantino. Ao invés de realizar outro faroeste nos moldes de Django (muito mais clássico, com as belas paisagens do meio-oeste americano), Tarantino vai no caminho oposto e aposta nos enquadramentos fechados e nos closes para aumentar a sensação de perigo e terror claustrofóbico que ele pretende atingir.

Os grandes níveis de tensão e de suspense (como nunca antes Tarantino atingiu em sua carreira) são elevados a um grande patamar de qualidade por causa do inventivo roteiro. Fortemente – e praticamente todo – baseado em diálogos (aqui valem as fórmulas do “mais é mais” e “não mostre, conte”) rápidos, longos e violentos, o roteiro de Os Oito Odiados é, também (e como sempre na carreira do diretor), um show à parte. Fornecendo grande material para o seu talentosíssimo grupo de atores e ainda em seu caminho como analista histórico e político (trabalho que vem realizando desde o início de sua carreira e com mais seriedade, acurácia e maestria desde Bastardos Inglórios e que aqui ganha novos contornos e novos pontos de vista, demonstrando a maturidade que o diretor atingiu nesta área), Tarantino é grande concorrente ao prêmio de Melhor Roteiro Original na edição do Oscar deste ano.

Evidentemente, todo este trabalho só poderia ser levado à frente exatamente pelo trabalho de seu elenco. Se o filme ficasse apenas n’Os Oito Odiados – existem algumas participações bem interessantes durante o longa -, já seria candidato a sério à melhor reunião de atores dos últimos tempos. Tim Roth e Michael Madsen retomam a parceria, iniciada nos primeiros filmes do diretor, com Tarantino e entregam ótimos papeis (ainda que Madsen, assim como Bruce Dern, pudesse ter sido melhor aproveitado). Do lado dos novatos, o mexicano Demián Bichir entrega o que é, provavelmente, o melhor papel de sua carreira, divertido e mordaz.

Os outros quatro Odiados são os personagens que ganham maior destaque: são estes os personagens interpretados por Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Samuel L Jackson e Walton Goggins. Enquanto Russell e, principalmente, Jackson (que toma conta do filme em uma interpretação digna de Oscar, tão boa quanto sua incrível e magnífica atuação em Django Livre) provam novamente que nasceram para trabalhar e entregar suas melhores performances para os filmes de Quentin Tarantino, os grandes destaques do filme são, sem sombra de dúvidas, Leigh e Goggins. Ela, a prisioneira, já entra em cena com um olho roxo e nos conquista pouco a pouco com seu deboche, sua ferocidade, sua inteligência e sua coragem de interpretar um personagem tão complexo quanto Daisy Domergue – credenciando Leigh ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e a trabalhar com Tarantino mais vezes, já que ela é simplesmente maravilhosa no filme. No entanto, quem surpreende de verdade é Goggins, que demonstra todas as suas habilidades cênicas no papel de Chris Mannix, provando que é, de fato, um grande ator – para quem quiser se certificar disso, basta assistir suas atuações em Justified e em Sons of Anarchy. Genial.

Tarantino completa o seu timaço de produção na área da trilha sonora, assinada por ninguém mais ninguém menos que a lenda Ennio Morricone, indivíduo crucial para ajudar a criar a atmosfera emocionante de Os Oito Odiados, em um trabalho que lembra muito mais suas composições para os filmes de terror do que suas clássicas composições para os faroestes – mais um mérito de Tarantino. Isso tudo foi o que consegui apurar vendo Os Oito Odiados duas vezes; no entanto e como sempre, um filme de Tarantino não pode ser visto apenas uma vez. É preciso continuar assistindo suas obras, uma vez que ganham complexidade com o passar do tempo, crescendo em magnitude e inteligência conforme vemos. Mais um genial trabalho de Tarantino.

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