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NOTA: 8 / Renato Furtado

Para um filme sobre jornalismo investigativo, nada melhor que utilizar uma imagem como ilustração. A foto que acompanha esta análise é, no entanto, muito mais representativa do que parece à primeira vista. Nela, encontramos um breve resumo da narrativa e vemos a fonte de quase todos os méritos do filme: seu ótimo elenco trabalhando em conjunto, de forma paciente, procedural e exaustiva, para desvendar um caso que chocou o mundo no início dos anos 2000 – a prática de abuso sexual de menores praticada por padres e encoberta pela Igreja Católica em Boston. Este é Spotlight – Segredos Revelados, filme dirigido pelo sempre competente Tom McCarthy e grande favorito – com todos os méritos, é importante ressaltar – ao Oscar de Melhor Filme deste ano.

Aqui, não há espaço para palavras suaves e muito menos para pegar leve. Como a personagem de Rachel McAdams nota, em certa passagem, “a linguagem é importante”. Para expor um mal tão grande, enraizado em uma instituição tão poderosa, não é possível lutar de maneira branda; é preciso ser implacável, cru, direto e objetivo. É preciso fazer um bom jornalismo, dizendo de outra maneira e é justamente isso que Tom McCarthy (que roteirizou o filme na companhia de Josh Singer) consegue alcançar em Spotlight, um longa que acompanha, passo a passo, o processo, desvendando não só o “mistério”, mas também a história real por trás do acontecimento – o ponto de Spotlight ser baseado em fatos torna tudo muito mais impactante, diga-se de passagem.

Através de um roteiro paciente e exemplar e de uma montagem muito competente que nos coloca diretamente na ação e na pele dos jornalistas/investigadores sempre com um distanciamento objetivo-passional (o distanciamento do bom jornalismo, focado, atento, interessado e humano) e sem nunca apelar para o drama pessoal de cada um dos personagens principais – um caminho acertado, visto que este não dramatiza nem torna os jornalistas nos “grandes heróis do dia”, com o objetivo de colocar o centro das atenções onde ele deve estar em um filme como esse, ou seja, nas vítimas -, McCarthy consegue alçar Spotlight ao grande gênero dos ótimos filmes sobre a área investigativa da imprensa – um feito e tanto, considerando as outras películas que estão por lá como “Todos os Homens do Presidente” e “Zodíaco”.

Contando com bela fotografia de Masanobu Takayanagi (fotógrafo de filmes como Aliança do Crime e O Lado Bom da Vida), Spotlight almeja sempre alcançar os maiores níveis de realismo possíveis – daí a utilização de luzes suaves e pouco saturadas, similares às nossas visões da “vida real”. Tal missão, complexa, só pôde ser atingida pelo trabalho excepcional do grupo de atores reunidos por McCarthy (que sempre demonstrou possuir um bom talento para escalar elencos, vide os atores presentes em “O Visitante”, por exemplo), dirigidos com precisão. Aliás, um filme com Spotlight não seria um décimo do que é se não possuísse tanto talento em frente às câmeras. Como diria um ditado antigo no cinema – fico devendo a autoria -, o melhor efeito especial que um filme pode ter é a capacidade cênica dos rostos de seus atores (é nessa linha).

McCarthy leva a sério essa máxima. Aqui, o peso de carregar o filme é dividido quase que igualmente entre os ombros de Michael Keaton, Rachel McAdams e Mark Ruffalo. Depois da ótima atuação na segunda temporada de True Detective, McAdams continua demonstrando que pode realizar dramas tão bem quanto comédias e filmes românticos. Ainda que seu papel aqui não possua muitas nuances ou grandes momentos para brilhar, McAdams sabe encontrar os espaços corretos para criar o melhor possível em tela, sendo um pilar de sustentação do filme. Michael Keaton (cotado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) também faz um ótimo e interessante trabalho, principalmente por ser diametralmente oposto ao personagem que interpretou em Birdman.

Contudo, quem brilha, de fato, é Ruffalo, que incorpora toda a parte objetiva e implacável do trabalho, criando um personagem que é o responsável por nos guiar por entre os meandros da narrativa. Além dos três personagens “principais”, ainda completam o elenco de apoio três grandes atores: Stanley Tucci, John Slattery e Liev Schreiber, os três mantendo um nível de interpretação de altíssimo calibre – criando e recriando com sutileza os detalhes mais importantes de seus personagens – durante todo o filme, mesmo que não passemos tempo o suficiente com eles para vermos outras facetas de seus personagens.

Com um estilo similar ao de Argo – em questão de ser uma trama baseada em uma história real, de ter cara de filme ganhador de Oscar e ser narrada com uma precisão cinematográfica milimétrica -, Spotlight é o grande favorito ao Oscar com toda a razão. Um drama forte, real, bem narrado, bem construído, bem interpretado, objetivo, contando com uma direção competente e um elenco mais do que brilhante, Spotlight é aquele tipo de filme que traz à tona questões muito pertinentes aos nossos dias, colocando o holofote no fato de que o jornalismo, quando bem feito, é uma das ferramentas mais poderosas para se construir uma sociedade melhor para todos.

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