creed

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Dar prosseguimento a qualquer clássico é sempre uma tarefa difícil e importante. Para fazer um bom trabalho, é preciso não temer a obra original e, ainda assim, trazer alguma novidade que justifique o novo longa – como pôde ser visto no sétimo episódio da saga Star Wars, uma espécie de sequência/reboot dos filmes da trilogia inicial. Evidentemente, existem alguns títulos que são mais complexos que outros e na onda de novas incursões em universos antigos, Creed: Nascido Para Lutar, segundo filme do talentoso diretor Ryan Coogler, pode ser considerado um triunfo.

Esta é a história do filho mais novo do célebre boxeador Apollo Creed, Adonis Johnson, um rapaz que precisou crescer sem uma família até ser resgatado de um reformatório juvenil pela esposa de seu pai. Já adulto, ele decide tornar-se boxeador profissional; para isso, ele precisa encontrar o treinador perfeito: o inigualável Rocky Balboa. Em linhas gerais, esta é a narrativa de Creed: Nascido Para Lutar. Escrito por Coogler e Aaron Convington, o roteiro não inova, mas faz o seu trabalho de forma inteligente e eficiente: como mencionado acima, o “sétimo” filme da franquia Rocky atualiza e, ao mesmo tempo, homenageia a estética que consagrou o clássico primeiro filme de Stallone.

Aqui, a chave é trazer um olhar da década atual. A trilha sonora é um bom exemplo disso: ela reinventa alguns dos temas mais famosos dos seis filmes de Balboa, adicionando as batidas do hip-hop – essa é a vibe correta para essa película, frescor e tradição. Os principais temas da saga de Rocky (amor, lealdade, honra, legado, entre outros) são cruciais em “Creed” e ganham nova roupagem com a dinâmica mentor-pupilo criada entre os dois personagens principais e com um novo tipo de Adrian (a musa de Rocky): Bianca, independente, porém amorosa e leal, interpretada com leveza e precisão por Tessa Thompson, uma ótima atriz.

No centro do filme, é claro, temos “Creed Jr”. Interpretado por Michael B. Jordan (um ator que melhora a cada filme sério no qual participa), Adonis Johnson é – e, ao mesmo tempo, não é – um personagem nos moldes de Rocky: impulsivo, bravo, destemido, corajoso e, no fim das contas, sensível, Jordan cria um personagem carismático e atualiza o arquétipo do boxeador mais famoso do cinema, trazendo para o personagem as tonalidades próprias às histórias dos jovens adultos negros norte-americanos. Sua performance, muito física, é capturada pelas lentes talentosas de Maryse Alberti que – juntamente com Coogler – cria belos momentos e incríveis planos-sequência das lutas de Adonis, movimentando sua câmera e seu corpo no ringue como se ela mesma fosse uma boxeadora.

Chegamos, finalmente, a Stallone. Premiado no Globo de Ouro como Melhor Ator Coadjuvante (seu primeiro grande prêmio de atuação na carreira) e com grandes chances de ganhar uma indicação ao Oscar – quarenta anos depois de receber uma indicação à categoria de melhor ator principal por sua primeira interpretação como Rocky -, Sly é o cara. Com novos problemas e novas nuances – inteligentemente escritas pelo roteiro de Coogler e Convington -, Stallone vai além de suas interpretações e consegue se manter na mesma toada do resto da produção: inova sem deixar o passado para trás. É ótimo ver Stallone ser reconhecido e é ótimo ver o seu desempenho no filme, nos emocionando e nos conquistando uma vez mais – e, ainda que não seja a melhor interpretação de um ator coadjuvante neste ano, se vencer, será merecido.

Apesar de cair em uma ou outra armadilha da fórmula gerada para a saga “Rocky”, Coogler sabe aproveitar bem os atalhos e vantagens fornecidos pelos mesmos moldes. Sua direção é competente e demonstra que ele pode alçar grandes voos no cinema. Após o tenso Fruitvale Station, Coogler conseguiu mostrar um novo lado de suas técnicas em “Creed”, e isso prova que ele está pronto para assumir outros desafios – seu talento como roteirista deveria, inclusive, ser aproveitado em Pantera Negra, filme da Marvel para o qual já está contratado.

“Creed: Nascido Para Lutar” não fica no nível de uma luta entre Mohammad Ali e George Foreman e nem mesmo fica no nível de um combate entre Rocky Balboa e Apollo Creed; de fato, fica em um patamar abaixo dos grandes filmes de boxe, um gênero complexo dentro do Cinema, mas não decepciona. Muito pelo contrário, aliás. É humano, tocante e consegue se manter firme sobre suas próprias pernas sem depender, necessariamente, dos filmes anteriores. É claro que, se você for um fã de Rocky – e como não ser? -, “Creed” será um filme sensivelmente melhor.

 

 

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