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NOTA: 9 / Renato Furtado

Há algo na primeira metade de “A Grande Aposta” que funciona como um feitiço. Através de suas quebras da quarta parede – onde celebridades diversas fazem hilárias aparições relâmpago, aproveitando o tempo para nos explicar, de formas simples, fáceis e cotidianas, os mais difíceis conceitos econômicos em jogo – e de momentos genuinamente cômicos impulsionados pelo talento para a comédia que nomes como Steve Carell e Ryan Gosling possuem, o longa nos encanta aos poucos, prende o nosso olhar e nos leva pela mão. Este não é, no entanto, um truque de mágica, que desvia nossa atenção para outra direção. Muito pelo contrário.

A narrativa garante que estejamos cientes o tempo inteiro do que está acontecendo de fato – o filme narra a história por trás da grande crise econômica de 2008, cujos efeitos nefastos continuam massacrando populações e países inteiros até os dias de hoje – e do quanto está em jogo, inserindo cenas e sequências dramáticas por baixo dos trajes divertidos e ágeis com que a trama se veste. Em nenhum momento, “A Grande Aposta” nos engana; e, quando o filme mostra sua verdadeira face e a verdadeira face da história que está abordando, o soco no estômago dói mais do que poderíamos imaginar pois, ainda que fosse inevitável, o longa torna essa pancada imprevisível: cinema de altíssimo nível, como já lembraria Sidney Lumet em seu precioso livro “Fazendo Filmes”.

Justamente por não ser mero ilusionismo é que “A Grande Aposta” atinge tão fundo e faz ressoar todo seu potencial. Com todas as cartas postas à mesa, testemunhamos minuto a minuto o desenvolvimento da película, trazida à vida a partir do incrível roteiro escrito pelo diretor Adam McKay e por Charles Randolph, que cria com maestria um falso – porém extremamente verdadeiro – conto de ação e suspense, quase um heist movie, filmes de grandes roubos estilo Onze Homens e Um Segredo, em cima de um carregado falatório econômico, repleto de jargões e de conceitos técnicos que às vezes se perdem, é verdade, mas que ficam melhor perdidos; o grande trunfo desta película é ser um thriller sobre economia, ações e mercados: ninguém poderia dizer que números poderiam ser tão emocionantes.

É evidente que a emoção é forte porque “A Grande Aposta” vai muito além disso. McKay nunca participou da série The Office e nunca esteve envolvido diretamente em um falso documentário, mas essa é a estética que permeia seu filme, um documentário duplamente falso que não pretende ser documental em momento algum, mas que também não pretende tirar seus pés da realidade. Ancorado firmemente no terreno do real e dos fatos, “A Grande Aposta” faz questão de deixar claro como cristal que tudo aquilo retratado aconteceu; no entanto, sabiamente, uma de suas cartelas de transição é uma frase que diz “A verdade é como a poesia. Só que a maioria das pessoas não gosta de poesia”, sentença creditada à uma conversa qualquer de bar e que diz muito sobre a estética do filme.

Com grande habilidade, o diretor mostra que tem o controle total de sua produção. Desde a escolha dos planos e das canções tocadas no filme – um ponto alto da película, sem sombra de dúvidas, onde cada umas das músicas selecionadas, principalmente a clássica When the Levee Breaks do Led Zeppelin acompanhando os créditos finais, é simplesmente perfeita para acompanhar cada momento, melodia, harmonia e letra -, da hábil fotografia realista, do ritmo acelerado e do roteiro repleto de conversas diretas com os espectadores, McKay coloca seu nome na lista de diretores que ainda chamarão bastante atenção. Principalmente pelo trabalho realizado em conjunto com seus atores.

Ter atores fenomenais não significa ter atuações fenomenais. Felizmente, temos atores e atuações fenomenais neste filme. É Ryan Gosling (interpretando o banqueiro Jared Venett) que quebra a quarta parede logo no início do filme e nos situa no caos: ele é o guia fundamental do pandemônio que viria a ser criado à frente por causa do sistema econômico. Ele é cômico, irônico, direto ao ponto, firme e não faz com que gostemos dele em momento algum: não há necessidade, não é o herói da história e faz questão de frisar isso. Brad Pitt, também produtor do filme, tem um papel menor, mas muito bom e importante e seu estilo de atuação bradpittiano cai como uma luva no longa; ele funciona como o mentor de John Magaro e Finn Wittrock, dois jovens atores que interpretam os personagens que funcionam como alívio cômico do longa – e, mais para frente, como os personagens com os quais a audiência vai se relacionar mais diretamente.

Aqueles que brilham verdadeiramente são Christian Bale e Steve Carell. O primeiro, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, é um ex-médico que se tornou guru do mercado de investimentos, um homem que se descreve como inapto no tato social, que anda descalço e que toca bateria; é o exótico do bando, porém o mais inteligente, aquele que identifica primeiro o que ninguém mais estava vendo. Como sempre, Bale é um pilar de sustentação e entrega uma performance cheia de nuances, que se desdobram diante de nossos olhos em seus pequenos gestos e nos seus covers de bateria. Carell, por outro lado, é definitivamente o verdadeiro MVP (jogador mais valioso) do filme – poderia ter sido indicado também. Sua zona de conforto parece se expandir a cada filme que faz dada a naturalidade com que interpreta os papeis mais distintos com grande competência – compare Foxcatcher e este, por exemplo. Além disso, sua química com Gosling, desenvolvida no ótimo Amor à Toda Prova, é um ponto alto do filme.

Editado como um heavy metal, mas tocado como um jazz complexo, “A Grande Aposta” é nada mais nada menos que um filmaço. Irônico, repleto do melhor humor negro, sarcástico, humano, tocante, cru, bruto, metalinguístico, com um gosto por referências variadas à cultura pop verdadeiro e cinemático, o longa merece os aplausos que recebe e não tem medo de apontar dedos e de desmascarar o que está velado. Se a afirmação do escritor japonês Haruki Murakami é verdadeira – “No fundo, estamos todos esperando pelo fim do mundo” -, “A Grande Aposta” abre nossos olhos para isso. Talvez ainda dê tempo de fazer algo a respeito.

 

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