CAROL

 

NOTA: 9 / Renato Furtado

Patricia Highsmith é uma das autoras mais famosas e bem conceituadas de todos os tempos nos Estados Unidos. Famosa por escrever incríveis romances policiais e thrillers, seus trabalhos mais conhecidos giram em torno do personagem Tom Ripley, um trapaceiro e criminoso psicopata. Sua saga de livros já foi alvo de diversas adaptações e atores como Alain Delon, Matt Damon, John Malkovich e Dennis Hopper já deram vida ao personagem nas telonas, todos de maneiras distintas e muito bem estudadas. De todas as adaptações, a melhor é, sem sombra de dúvidas, “O Amigo Americano” – baseado no livro Ripley’s Game – dirigido por Wim Wenders, um dos melhores (o meu favorito) longas do diretor. Bom, na verdade, esta era a melhor adaptação.

O novo filme de Todd Haynes (o incrível diretor responsável por películas como Longe do Paraíso e Não Estou Lá.), com roteiro de Phyllis Nagis, adapta o romance “The Price of Salt”: o resultado é “Carol”, a obra-prima de Haynes até o momento – e, instantaneamente, a melhor adaptação de um livro de Highsmith para os cinemas. Este, no entanto, não é apenas o melhor trabalho do diretor; este é um dos melhores romances dos últimos tempos. Desenvolvendo-se com o gosto de um livro que pede paciência, prometendo sempre uma grande recompensa no final, esta é a história do relacionamento entre duas mulheres, Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara), em uma época de pura intolerância – os conservadores anos 50 nos Estados Unidos.

O fotógrafo Ed Lachmann em conjunto com o deslumbrante e maravilhoso design de produção captura com suas lentes um verdadeiro film noir, sem crimes e mortes, mais aos moldes dos geniais “Desencanto” de David Lean e “A Embriaguez do Sucesso”, sem deixar de contar com sua própria femme fatale. Começando com um belo plano-sequência, Lachmann coloca o espectador diretamente na década de 1950 e já avisa aos navegantes, sem perder tempo: o que virá daqui para frente será um grande espetáculo inebriante e estonteante, debaixo das luzes da cidade, das sombras lançadas, através das fumaças dos cigarros, das silhuetas nas janelas e dos dias de sol sob a neve do fim de ano.

A palavra-chave é paciência. “Carol” não se oferece a todos os espectadores; portanto, não é um filme fácil, é verdade. Requer uma entrega, requer um comprometimento. Não está diante de nossos olhos apenas para entreter; está diante de nossos olhos para se provar uma verdadeira obra de arte. Por isso, paciência é necessária. Lentamente, passo a passo, somos tomados e, logo, não há mais escapatória: “Carol” – tanto o filme quanto a personagem – já nos conquistou, já nos capturou e já nos seduziu ao som da delicada, potente e emocionante trilha sonora minimalisticamente sábia composta por Carter Burwell – compositor favorito dos Irmãos Coen e indicado ao Oscar neste ano.

Contudo, acima de qualquer coisa, o que mais importa aqui não é o que é dito, visto ou ouvido – é, justamente, aquilo que não se pode ver, aquilo que não se pode ouvir, aquilo que não se pode dizer, aquilo que é possível apenas sentir. O que está nas entrelinhas, o que está sublinhado, tudo aquilo que está no silêncio, essa é a mina de ouro que Haynes encontrou para criar sua obra-prima. Compondo planos frequentemente fechados, ele deixa bem claro que o que está em tela é apenas uma fração de tudo que não está; se há um filme que sabe utilizar com maestria seu extra-campo (tudo aquilo que está fora do quadro cinematográfico), esse filme é “Carol”.

Para atingir esse nível de sutileza, perspicácia e suspense quase misterioso, é preciso ter grandes atores. Aqui, temos duas das mais brilhantes atrizes em atividade: Cate Blanchett e Rooney Mara. Blanchett é o retrato da elegância e da sedução, lançando e pousando olhares inebriantes que conquistam corações no ato. Ela fala, se move e emociona como uma rainha, do reino de todos os atores do mundo. Blanchett é, simplesmente, fora de série, alienígena, dizendo mais em um simples carinho do que atores e atrizes passam a carreira inteira tentando dizer. Igualando a balança, temos Rooney Mara, vencedora do prêmio de atuação em Cannes e, deuses, o que é possível dizer? Ela é o retrato da paixão mais pura à flor da pele, do amor mais potente, suave e sensível ao mesmo tempo e seus grandes olhos esverdeados fitam o espaço à sua frente (o extra-campo) com tanta força – um olhar próprio dos fotógrafos – e com tanto gosto pelo instante, que perdemos o fôlego.

Aliás, o filme está longe de ser um suspense, seu ritmo não é o mais veloz, mas ainda assim consegue deixar o fôlego suspenso e o coração a bater acelerado como se esta fosse a adaptação de algum outro romance policial de Highsmith tamanho é o poderio dos sentimentos que emanam dos menores gestos e dos silêncios. Há um mistério pairando no ar digno dos melhores filmes de detetive e é, sem sombra de dúvidas, um romance; evidentemente, ponto para a sensacional montagem de Affonso Gonçalves, que envolve e enfeitiça os olhos do público nas viagens de carro, nas bebidas, nos lampiões e, principalmente, nas trocas de olhares.

Com um elenco de apoio que conta com as ótimas interpretações de Sarah Paulson e Kyle Chandler, “Carol” é o tipo de película que almeja roubar o ar de nossos pulmões da forma mais sutil e bela possível. Acima de tudo, porém, esta é uma história necessária, que mostra que 1950 e 2016 ainda tem, infelizmente, muito em comum. Mas, olhando pelo melhor ângulo, a verdade é que esta é uma trama sobre amar e sobre o Amor, daqueles que nos arrebatam e nos emocionam, que nos fazem rir e que nos fazem chorar, que fazem com que percebamos o quão estúpidas são a intolerância e a ignorância, amor que ainda há de soterrar e de matar o preconceito de uma vez por todas; esta é uma trama sobre aqueles amores que fazem com que nos apaixonemos sempre e constantemente, tanto pela pessoa amada quanto pela vida.

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