joy

NOTA: 7 / Renato Furtado

À época em que as vendas à varejo e via televisão começavam a crescer nos Estados Unidos, uma invenção peculiar chamou a atenção das pessoas: um esfregão “mágico”, prático, econômico, leve e de fácil utilização, desenhado para ser o único esfregão que as donas de casa do período teriam que comprar durante a vida inteira, revolucionando toda a categoria de utensílios de limpeza nos Estados Unidos. Para além disso, a história de Joy Mangano (a inventora do esfregão) é com certeza interessante, mas não parece material o suficiente para um filme inteiro. Então, entram em cena David O. Russell e Jennifer Lawrence para provar que é possível, sim, tirar alguma coisa dessa história real.

Seguimos as provações e conquistas de Joy (Jennifer Lawrence que possui, mais uma vez, uma idade inferior a que o papel requer), uma mulher que é mãe de dois filhos e que precisa cuidar de uma casa onde moram – além dela e das duas crianças – sua avó, sua mãe, seu ex-marido (Edgar Ramírez) e seu pai (Robert DeNiro)  – ambos se odeiam e dividem o porão da casa, que está caindo aos pedaços. Além disso, ela ainda precisa lidar com sua irmã e com a nova namorada de seu pai (Isabella Rossellini, pouco utilizada, mas com momentos interessantes). Cansada dessa vida, ela decide retomar sua vida do ponto onde ela parou e volta a inventar coisas, como fazia quando era criança.

Unindo o argumento à sinopse, é fácil perceber que essa é uma história complexa a ser narrada. O mérito de O. Russell neste filme é, justamente, analisar seus personagens e suas situações com um microscópio para, em seguida, trabalhar com todos em um nível quase caricatural, de comédia pastelão. Ele inicia o filme com os bastidores de uma telenovela e logo pega emprestado toda essa vibe meio trash; enquanto utiliza a estética apresentada por essas produções baratas e de baixa qualidade da televisão americana à época, O. Russell faz com que Joy: O Nome do Sucesso seja um bom filme. Dizendo de forma mais precisa: é quando o diretor leva sua narrativa da forma mais despreocupada e menos séria possível que o longa triunfa.

Tal abordagem – que, “apesar de não levar a história à sério”, em momento algum deixa de levar os personagens, suas ambições e seus problemas à sério, diga-se de passagem – aliada às marcas registradas e à estética característica do diretor (travellings e movimentos de câmera que O. Russell utiliza à exaustão em todos os seus trabalhos) faz com que Joy: O Nome do Sucesso transforme uma história sem sal em um longa realmente divertido e com algo a dizer – neste filme, a preocupação com os temas da redenção e da superação presentes fortemente nos últimos trabalhos de O. Russell é bastante importante e nos ajuda a conectar com os personagens de forma satisfatória.

O problema é que O. Russell não mantem essa estética tempo o suficiente – tanto o estilo telenovela quanto a ótima narração realizada por Diane Ladd, que interpreta Mimi, avó de Joy, são interrompidas no meio do caminho – e larga mão de suas técnicas abruptamente para assumir posturas mais sérias, objetivas e tradicionais, retirando do longa suas maiores qualidades; em outras palavras, o filme perde força e começa a parecer arrastado até voltar, mais ou menos, aos trilhos. O que antes era um mérito, uma narrativa que caminhava para triunfar (fazer a audiência se importar com a história da criação de um esfregão através de parábolas em um estilo comédia de costumes), torna-se uma trama pouco inspirada – o elogio à meritocracia, ao sonho americano e aos espólios conquistados pelo esforço próprio tiram potência do roteiro, que é melhor quando faz graça de si mesmo sem deixar de se preocupar e de amar seus personagens, dispensando o drama tradicional deste tipo de trama.

No campo das atuações, tudo vai de bem à médio. Jennifer Lawrence merece suas indicações e prova, em um papel bem menos histérico do que os realizados anteriormente nos filmes de O. Russell, que tem melhorado cada vez mais. Ainda que esteja distante da idade certa para o personagem – o que não é um problema, na verdade, é mais uma peculiaridade das escolhas de O. Russell -, ela interpreta uma mãe de família com confiança e determinação e cria alguns bons momentos em cena. DeNiro, por sua vez, parece ter entrado definitivamente no piloto automático; é um pastiche de si mesmo e de seus personagens anteriores, inclusive o personagem interpretado em “O Lado Bom da Vida”. Por fim, há ainda a competente atuação de Edgar Ramírez e a curta aparição de Bradley Cooper, que faz um bom trabalho apesar do material escasso.

Contando com uma fotografia que mantem o visual do diretor, mas que não passa do nível da normalidade e uma trilha sonora que ora é incômoda, ora bem afinada, Joy: O Nome do Sucesso não é um filme ruim. Longe disso: é melhor que “Trapaça”, por exemplo, uma vez que, além de arriscar mais, diverte mais que seu antecessor. É um longa claramente marcado por dois momentos distintos: um divertido e que prende a atenção (não só comicamente divertido, dramaticamente divertido também) e outro que não vai muito longe em suas ambições, errando mais do que acertando. É uma película de dois polos que não trabalham juntos para formar uma síntese de qualidade; no fim das contas, diverte e gera algumas boas risadas.

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